Viver sem música é tão inútil quanto nadar com as pernas presas

Música é, talvez, a forma de arte mais excitante de todas. Satisfaz necessidades emocionais iminentes, estimula o raciocínio, doma o espírito, agita os mares da reflexão, energiza a libido, aumenta a produtividade média e faz o tempo render. Não é sempre que esses benefícios são evidentes, embora a incidência seja quase certa, na maioria dos casos.

Poucas atividades não se tornam mais agradáveis quando se ouve música em simultaneidade. Viajar, trabalhar, praticar exercícios físicos, curtir uma festa, ler, escrever, estudar. A lista de tarefas potencialmente incrementadas pela música é infindável.

Na famosa acepção de Nietzsche, “sem música, a vida seria um erro”.

Viver sem música é tão inútil quanto nadar com as pernas presas: os esforços se anulam em si, porque as ações são contraproducentes. É como se a música, nesse cenário, fosse uma solução para a libertação das amarras. Ao se deixar levar pelas melodias do som, a vida se torna mais fácil, interessante e prazerosa.

Muitos não conseguem, de jeito nenhum, manter sua rotina habitual sem música. Para estes, o vácuo do silêncio gera uma pressão existencial tão incômoda que mina a realização plena de quase todas as experiências. O tempo demora mais para passar, tédio e impaciência agigantam-se, a monotonia reina: parece que o vazio das horas é confundido com vazio do silêncio.

É curioso como toda canção representa um planeta diferente; e é divertido saber que se tem livre passagem para todos eles. Mais legal sobre essas viagens musicais é que se pode fazê-las sem temer a alienação. Na verdade, muitos alegam que ouvir música instiga sua imaginação como poucos subterfúgios o fazem. O som intervém entre a distração consciente e a atividade concentrada, maximizando tanto uma experiência quanto a outra.

Assim como escutar música, praticá-la é uma das tarefas que mais propulsionam a criatividade humana. Habilidades musicais são, em geral, socialmente atrativas e geradoras de inúmeras oportunidades criativas, quando os resultados finais podem ser transformados em novas ideias para músicas subsequentes. A maioria dos compositores constrói suas canções a partir do resquício de outras, sendo de própria autoria ou não. No final, toda discografia é como um castelo de cartas.

Tocar um instrumento envolve a atividade de quase todas as partes do cérebro. Como em qualquer treino, a prática estruturada e disciplinada reforça as funções cerebrais e aperfeiçoa o desempenho prático.

Se ouvir música sensibiliza, quem faz música deve ser sensível. A compreensão do conteúdo emocional é decisiva para que uma mensagem musical seja eficazmente transmitida e, melhor ainda, assimilada.

Cada cultura humana registrada incluiu música de alguma forma. Até porque, é uma das melhores formas de descarrilar a criatividade e avivar a imaginação. Sentimos uma enxurrada de pensamentos e sentimentos soltos, aparentemente desconexos, mas que, se interligados por alguma função, podem gerar soluções viáveis e inovadoras para resolução de problemas do dia a dia. Sem dúvida, música é um dos maiores triunfos da inteligência humana.

Há incontáveis perspectivas nas quais uma sinfonia age como catalisadora produtiva. Trabalhadores de vários segmentos de fato rendem mais quando fazem seu serviço na onda de algum som. Frequentadores de academia relatam um considerável aumento de desempenho enquanto treinam ouvindo música. Viagens se tornam mais interessantes quando há uma trilha sonora característica. Encontros românticos são esquentados por harmonia musical, que provoca afloramento dos sentidos. Bares lotam mais se há som rolando em sua atmosfera. Baladas sem música, por exemplo, não seriam baladas, e sim funerais.

Às vezes, passar um ou mais dias inteiros sem ouvir música é uma imposição inevitável (e excruciante). Entretanto, mesmo acometidos por essa privação, nós ainda costumamos cantarolar músicas viciantes que grudam na mente de forma persistente. Essa é uma necessidade natural do ser humano: dar ritmo à existência.

Música é uma arte tão poderosa que, em seus múltiplos efeitos terapêuticos, ameniza mal-estar, distúrbios psicológicos e, em alguns casos, até doenças graves. Não faz milagres, é claro, mas elimina muitas emoções desagradáveis, promovendo melhoria da saúde psíquica e maior qualidade de vida, mesmo que seja paliativa. Em excesso pode fazer mal, como tudo que se faz ou consome.

Música satisfaz uma necessidade de transcendência; faz ultrapassar os limites da percepção e consciência, bem como influencia diretamente no humor. É uma das drogas mais antigas da história. Por seu poder inspirador, não admira que muitas pessoas recorram a ela como válvula de escape.

Quando tinha apenas 14 anos de idade, Nietzsche relatou o seguinte:

“A música une todas as qualidades: ela pode exaltar-nos, desviar-nos, elevar-nos, ou quebrar o mais duro dos corações com o mais suave dos seus tons melancólicos. Mas sua missão principal é alçar nossos pensamentos para coisas mais elevadas, até mesmo para nos fazer tremer. A arte musical muitas vezes fala em tons mais penetrantes do que as palavras poéticas, e toma conta das fendas mais escondidas do coração.”

É engraçado como ficar muitas horas sem ouvir algum som causa alterações não só emocionais, mas também físicas e psicológicas. A carência musical passa uma sensação de isolamento, de estar avulso no tempo, mesmo que se esteja rodeado de muita gente; passa também uma sensação de desgaste, mesmo que não tenha havido esforço corporal.

Em um ensaio chamado The Rest Is Silence, o escritor inglês Aldous Huxley fala um pouco sobre a influência da música em sua vida e seu potencial criativo:

“Da pura sensação à intuição de beleza, do prazer à dor de amar, do êxtase místico à morte – todas as coisas que são fundamentais, todas as coisas que, ao espírito humano, são mais profundamente significativas, só podem ser experimentadas, não expressadas. O resto é sempre e em toda parte silêncio. Após o silêncio, o que chega mais próximo de expressar o inexprimível é a música.”

Segundo Huxley, o silêncio é uma característica imprescindível da música. A qualidade de um som, então, também é determinada pelo que não se ouve.

O som é preludiado pelo silêncio, este que tem um papel fundamental: faz elevar as expectativas quando surge a vontade de ouvir música. E então saciamos a vontade.

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O filósofo Arthur Schopenhauer, em sua obra O Mundo Como Vontade e Representação, explora, entre outros assuntos, a influência da música no espírito e cérebro humanos. Diz ele:

“A arte da música está para além de todas as outras. Seu efeito sobre a natureza íntima do homem é tão poderoso, completo e profundamente compreendido por ele em seu interior como uma língua inteiramente universal, cuja distinção supera até mesmo a do mundo da própria percepção […] Devemos atribuir à música um significado muito mais relevante que se refere ao ser mais profundo do mundo e de nós mesmos.”

O filósofo argumenta que o poder exclusivo da música reside na sua capacidade para capturar a vontade do “eu” no mundo. Seus efeitos são fenômenos multiplicados que constituem a essência de muitas coisas, incluindo o próprio desejo. Música, como nenhuma outra arte, é penetrante: reflete a objetividade das ideias em seu núcleo.

Schopenhauer afirma:

“A profundidade inexprimível de toda a música, em virtude da qual ela flutua por nós como um paraíso bastante familiar e ainda assim eternamente remoto, é devido ao fato de que ela reproduz todas as emoções do nosso mais íntimo ser e estar […] Seu objeto não é a representação, em relação ao qual engano e ridículo só são possíveis, mas que este objeto é diretamente da vontade; e esta é, essencialmente, a mais crucial de todas as coisas, como sendo aquela da qual tudo depende.”

Neste mesmo livro, o autor comenta também sobre a vontade de se ouvir uma mesma canção (ou trecho dela) por várias vezes seguidas. Esse hábito comum é bem estudado na psicologia da repetição, da qual se percebe como o cérebro humano é encantado por melodias repetidas e continuadas. Na musicalidade, repetição é uma espécie de hipnotismo. Schopenhauer sugere:

“Como cheia de sentido e significado, a linguagem da música é o que vemos a partir dos sinais de repetição, os quais seriam insuportáveis no caso de obras compostas na língua de palavras; em música, no entanto, são muito apropriados e benéficos. Para compreender totalmente uma música, devemos ouvi-la duas vezes.”

Desejamos ritmo e continuidade do prazer para que as sensações de satisfação não se percam. Normalmente, o prazer é requerido pela sua ausência e, através da instrumentalidade e do canto, temos a capacidade de inverter essa lógica. Assim, se torna agradável ouvir uma boa canção seguidas vezes, enquanto seu efeito apaziguar os tormentos da cessação de tal desejo.

A linguagem musical é extremamente universal; seu poder singular abrange a todos e interessa a todos. Em seu interior, e de acordo com suas manifestações abrangentes, percebe-se a música como um produto artístico facilmente mensurável por qualquer um.

Nós avaliamos um som considerando o princípio hierárquico de intimidade, segundo o qual escolhemos ouvir as músicas familiares com mais frequência do que aquelas desconhecidas. A repetição musical é sedutora.

Grande parte das composições musicais costuma ser homogênea, isto é, tem pouca similaridade em relação a uma variedade de percepções. Música é subjetiva como qualquer arte, mas são justamente as diferenças de avaliação e ponto de vista que a fazem mais rica em forma e conteúdo.

Oliver Sacks, famoso neurologista e escritor, elaborou um livro interessante intitulado Musicofilia, no qual ele explora, com minúcia, os fenômenos fisiológicos por trás do impulso humano por música. O autor se interessou por este tema após ler uma confissão da dramaturga americana Edna St. Vincent Millay, a saber: “Sem música, eu deveria desejar morrer”. Não pareceria trágico demais se não fosse poesia.

Bem, em Musicofilia, Sacks argumenta:

“Música, exclusivamente entre as artes, é ao mesmo tempo totalmente abstrata e profundamente emocional. Não tem poder para representar qualquer coisa em particular ou externa, mas tem um poder único para expressar estados internos ou sentimentos. Música pode perfurar o coração diretamente, sem mediações. Há, por fim, um paradoxo misterioso aqui, pois, enquanto a música torna a dor uma experiência mais intensa, também traz consolação.”

Tanto importa que a música encandeça nossa disposição, ou, por outro lado, nos desole emocionalmente, ouvi-la é uma das razões pelas quais se desenvolve virtuosidade intelectual e inteligência emocional.

A música é, para muitas pessoas, sensíveis ou frias, a melhor forma de digerir o tempo. Psicólogos diversos supõem que ouvir peças sonoras extasia o cérebro mais do que qualquer coisa. A manifestação musical artística se destaca como sendo uma manifestação da nossa própria humanidade.

Da mesma forma que uma ponte liga dois polos através de sua estrutura, a música conecta aquilo que não pode ser colocado em palavras e aquilo que não pode permanecer em silêncio.

Há estudos recentes que associam determinados gêneros musicais a certos tipos de personalidade. Esses estudos são sugestivos, não conclusivos, mas apresentam um bom aparato de informações acerca de como e por que se desenvolvem as preferências por um som ou outro, considerando-se os hábitos e características distintivas de cada pessoa.

Outras pesquisas correlacionam música e sonhos. Sabe-se que algumas pessoas têm sonhos auditivos: elas visualizam imagens e cenas contemplativas, mas também ouvem sons musicais enquanto dormem. Muitos músicos, como Mozart e Tchaikovsky, por exemplo, alegaram ter ouvido composições em sonhos que se tornaram, na realidade, suas canções. Talvez algumas jornadas inconscientes propiciem surtos imagéticos sonoros. Ao ser capaz de retê-los acordado, é possível transformar essas informações em prol da música. Não deve ser fácil.

Escutar música é algo que muitos escritores também adoram fazer enquanto exercem a função. Mas, em geral, eles são bem seletivos ao decidir que tipo de som vai tocar. Enquanto uns preferem músicas lentas e cadenciadas, outros preferem músicas pesadas e agressivas. Em ambos os casos, a música funciona como um portal mágico para entrarem em mundos criativos aprofundados.

Não só para músicos, escritores e artistas em geral, mas também para outros profissionais, sem distinção alguma, a música serve como uma rampa lisa que os ajuda a deslizar melhor em sua zona de atuação.

É notável como ouvir ou fazer música eleva os níveis de energia; igualmente perceptível é como sua falta pode fazer mitigar essa vitalidade. Não são todos os casos em que o aspecto melancólico do silêncio prejudica na propensão energética, mas é melhor utilizar os estados de transcendência – através da música – estrategicamente, a fim de isso manter o corpo e a mente energizados por um período mais longo e estável. Nesse contexto, a música assume um valor inestimável que vai além do prazer e entretenimento: ela é uma das faíscas que faz acender a motivação humana.

Viver sem música é tão inútil quanto nadar com as pernas presas. É claro, há quem consiga nadar preso, mas apenas se rebate e perde energia à toa, como um infeliz peixe fora d’água. Música é, tantas vezes, uma excelente forma de evitar o sufocamento e a pressão da realidade.

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Eduardo Ruano
Escritor e redator por hobbie e profissão. Me considero uma pessoa racional, analítica, curiosa, imaginativa e em constante transformação. Gosto de ler, escrever, correr, assistir séries, beber e viajar com os amigos. Estudioso de psicologia, filosofia e comportamento humano. Também sou interessado em arte, literatura, cultura e ciências sociais. Odeio burocracias, formalismos e convenções. Amo pessoas excêntricas, autênticas e um pouco loucas, até certo ponto. Estou sempre buscando novas inspirações para transformar ideias em palavras.



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