Viver se aprende vivendo

” – Você é sempre tão feliz?
– Sim… Não! Não sou feliz em algumas manhãs, e tampouco na maioria das tardes…
– Como todo mundo…
– É…”

Esse diálogo acontece em uma das primeiras sequências do filme chileno Glória, louvor rasgado ao que se tem como o mais genuíno poder feminino.

A mulher realmente esplendorosa e absolutamente comum que empresta seu nome ao título e que assume que in.felicidade tem hora, tem um humor que vai do tédio ao curioso ou da euforia à depressão, mas sem nunca se afastar da sua verdade… aparece com uma crueza espontânea seja de corpo desnudo, seja de alma lavada com música, tratada com dança ou viajando pra relaxar. Sem beleza extrema que lhe valha ou desventura que lhe ampare, trata da vida e do cabelo. Às vezes do gato do vizinho… (o bichano mesmo!) Trata de dar risada.

A vida simples dessa personagem já é interessante por si, como o são todas as vidas… Perceber isso, faz de imediato com que o olhar se volte para o próprio percurso. E, independente da fase da vida em que se encontre, surge uma certeza de que a idade melhor é aquela em que se dá o despojamento dos preconceitos e das cismas.

Uma mesma história, corriqueira, como a de tantas mulheres que já casaram, criaram os filhos, separaram e seguem, pode ser contada a partir de vários enfoques diferentes. As inquietações que são levantadas ali, giram, principalmente, em torno de pensar o que é permitido a quem se permite.

Trabalhar, pagar as próprias contas, pensar na felicidade dos filhos, embalar os netos, se fazer presente e yôga e teatro e poder dirigir seu carro e o próprio nariz dão direito a quê? Em que curva, do quadril ou da estrada, a independência de uma mulher derrapa e ela tem que parar? No rodopio na pista de dança? Na iniciativa, no flerte, na sexualidade bem resolvida?… Na busca de afeto?… Dignidade pra envelhecer é coisa velha… o caso aqui é a diversão.

Não por acaso no filme, nenhuma amiga dessa heroína pós-avó e pós-moderna é apresentada… A solidão é típica de quem se separou, mas o que é lindo de se ver é a melancolia abrindo espaço à coragem… de ir pra balada sozinha, de pular de bungee jump ou em um encontros às escuras, ou simplesmente de experimentar o novo. E de novo… É que quem experimenta vai justo acumulando experiência, pra daqui a pouco ou pra nunca mais. Pra cair e pra voar. E, assim, pode escolher. Se o resultado da escolha for vencer ou dançar, aumenta o som e baila! Que a festa sempre continua, liberdade é coisa arisca, mas com trato, faz morada e, no mais dos anos, saber viver é que é a Glória!

::: Esse filme incrível, sensível e poético de 2013 do diretor chileno Sebastián Lelio, que também assina o roteiro impecável, traz a ganhadora do Urso de Prata, Paulina Garcia emprestando seu rosto, cujo a câmera persegue fixamente em cena, à protagonista e imprimindo força `a sua personalidade complexa em gestos e evoluções. O cenário, que dá a dimensão da transgressão em curso e a contextualização de tempo, tem como pano de fundo o Chile contemporâneo, como uma nação latino-americana típica, num histórico de patriarcado e vivendo uma época de panelaços e manifestações, mas onde a verdadeira revolução se faz individualmente, ‘espiritualmente’, na fala de uma personagem, pelas redes sociais. Além disso tudo, outro ótimo motivo para assistir essa pérola, é a trilha sonora deliciosa que passeia pelo Disco dos anos 70, Águas de Março de Jobim, Rita Lee… e, claro… “in your head calling, Gloria!” :::
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Paula Quinaud
Designer de Ambientes e Produtos, por profissão. Especialista em Arquitetura Contemporânea e Cinema, por interesse. Professora Universitária, por pura vocação. Mãe em tempo integral, por um amor imenso. Catadora de palavras, por necessidade absoluta.



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