Violadas pelo Estado Islâmico

De um jeito ou de outro, já estamos todos sendo violentados.

Ontem, um canal de televisão brasileiro exibiu, durante 24 horas, programas e documentários sobre o Estado Islâmico, o que foi um verdadeiro serviço de informação e de história. Foi demonstrada a atual e absurda situação em que o mundo se encontra: de medo, terror, mortes, ameaças e guerras.

Quem está no Brasil pode reclamar do mar de corrupção em que vive. Da falta de saúde, educação e segurança, mas não sabe, de verdade, o que é viver o terror da guerra no dia-a-dia. Guerra é algo distante para o brasileiro, devido à sua localização. Quando se fala em Islã, é uma verdade lá do outro lado do oceano, onde se encontram o fanatismo e suas consequências. No mais, as notícias parecem nunca chegar até aqui na prática. Sentimo-nos seguros e ficamos alienados à realidade dolorida de quem vive o terror da guerra ou a tortura psicológica das ameaças que dela vêm.

Lembrei-me de que, quando morei na Alemanha, pude perceber o quanto as memórias sobre a Segunda Guerra Mundial ainda eram vivas no país, pois as pessoas mais velhas tinham vivenciado a história na pele e todos os seus descendentes tinham levado a vida sentindo as marcas deixadas por ela.

Na Alemanha, tive a oportunidade de conviver com pessoas que haviam sido prisioneiras durante a Segunda Guerra Mundial, perderam entes queridos nesse período, passaram fome, viram estupros e mortes, mostrando-me que a história que havia aprendido na escola, no Brasil, não era algo tão distante no tempo e no espaço como havia parecido a minha vida toda. O contato com pessoas que vivenciaram a história é muito mais significativo do que o que se aprende na grade escolar.

Também tive a oportunidade de conviver com muçulmanos de vários países e que moravam na Europa: da Turquia, do Irã, Iraque, Tunísia e de tantos outros. Lembro-me de ouvir discursos diferentes das mulheres muçulmanas, sendo que todos sempre me surpreendiam. Havia mulheres que quase nunca falavam; na verdade, a maioria. Mas, quando se expressavam, tinham um sentimento muito intenso dentro delas. Umas pareciam verdadeiras pregadoras do Islã e de todas as regras a que elas mesmas tinham que obedecer: falavam sobre o fato de ficar em casa e cuidar dos filhos como a coisa mais maravilhosa do mundo e se indignavam pelas europeias viverem com mais liberdade e terem opções de estudo e de trabalho. Em outra situação, durante um curso intensivo de alemão, uma iraquiana lindíssima falou pela primeira vez, durante uma aula em que todos falavam sobre religião. Pela primeira vez, ela se expressou e surpreendeu a todos dizendo: “Eu odeio o Islã. Se eu fumar, eles me cortam a cabeça. Se eu sair na rua sozinha, eles cortam a minha cabeça. Se eu usar uma saia, eles me cortam a cabeça. Se eu tiver um homem, eles cortam a minha cabeça. Por isso estou feliz de estar aqui”.

Dentro de um único país, onde os muçulmanos eram todos imigrantes, havia várias faces do mesmo. Também conheci um muçulmano fanático, que até hoje acredito se tratar de um terrorista em potencial.

Mas quem está no Brasil e não teve esse contato tão próximo ao Islamismo fanático, ou  a testemunhas vivas da guerra, não sente o terror e a latência da mesma como ela realmente é. Ver televisão e fotos nos jornais ou redes sociais não é a mesma coisa que ver um ente querido nas mãos de um terrorista ou inimigo.

A empatia por quem está lá, do outro lado do mundo, sob as barbáries das regras inventadas por eles, não parece uma coisa realmente simples de se sentir, colocando-se no lugar deles. Numa cidade tomada pelo Estado Islâmico, centenas de mulheres e crianças vivem como prisioneiras e escravas sexuais dos homens em questão. E, durante uma hora, eu chorei ao assistir os relatos de mulheres que tiveram a sorte de serem resgatadas dessa prisão.

Os soldados do Estado Islâmico acreditam poder transformar mulheres e crianças em escravas sexuais a partir dos nove anos de idade; toda mulher que não seja de sua seita religiosa. Estupram com violência uma menina de doze anos, em grupo, por uma noite inteira, se assim o desejam. Defloram uma menina de nove anos. E repetem o ato dia após dia, como bem entendem.

As testemunhas desse horror relatam os suicídios de prisioneiras por enforcamento ou corte dos pulsos, com inveja. E sentem o fato de elas serem jogadas aos cães logo em seguida. O tirar a própria vida, nesta situação, é visto como a melhor sorte por quem vivencia o horror da violação diária por vários homens ao mesmo tempo.

Durante um dos relatos, a jovem passa mal e não consegue respirar, num ataque de pânico durante a entrevista. O repórter pergunta se ela sofre aquilo com frequência e alguém responde: “Hoje é a quinta vez”. A mesma jovem tentou dar sua própria vida, para que um soldado não estuprasse uma criança de nove anos. Mas em vão.

Esse mesmo grupo de bárbaros seduz, pela internet, adolescentes franceses, sensíveis e vulneráveis pela falta de maturidade e objetivo na vida, com mensagens previsíveis e manipuladoras, convencendo-os, com o tempo, a se converterem ao Islamismo e ao Estado Islâmico. São centenas de jovens franceses, meninos e meninas, que fugiram de suas casas com promessas do paraíso de Alá, ao dedicarem suas vidas à causa. Muitos voltaram e relataram o horror vivenciado: o estupro das jovens e o transformar de adolescentes em verdadeiros assassinos frios. Com o tempo, eles não se importavam mais ao assistirem pessoas sendo decapitadas. Uma verdadeira lavagem cerebral, que chega em diferentes casas, anonimamente, e desapropria jovens de suas famílias, de forma escondida e sórdida.

O chamado Estado Islâmico não é um estado de verdade e também não representa o verdadeiro Islamismo. O denominado Estado Islâmico é um grupo de pessoas dotadas de ignorância, que usa o Islamismo de forma distorcida e bárbara, violenta mulheres e crianças com a consciência tranquila, explode pessoas e usa da decapitação com naturalidade, em nome de um paraíso em que só eles acreditam.

E, por mais absurdo que tudo pareça, isso está mesmo acontecendo. Pessoas são mortas diariamente, mulheres e crianças são violentadas dia após dia. Milhões de pessoas vivem aterrorizadas, na Europa e nos Estados Unidos, pelo terror iminente. E o mundo inteiro já está sendo afetado por isso, através do terror, do medo, da incerteza e dos refugiados que não têm mais para aonde ir.

A alienação à atual situação a qual estamos vivendo não deve ser uma escolha. Vivemos a situação de uma guerra viva e sem escrúpulos, cuja dimensão a se tomar ainda não sabemos. Hoje pode estar do lado de lá, mas um dia ela chega até aqui.

De um jeito ou de outro, já estamos todos sendo violentados.

Nota da página sobre a imagem de capa:  A foto foi partilhada na internet como se fosse um leilão de meninas cristãs, entretanto, ela trata de um concurso em que as crianças tinham que recitar trechos do alcorão e essa menina tinha errado (motivo do choro). Logo, seu professor a abraçou para dar suporte afetivo. É importante que reflitamos sobre o extremismo, sem nos esquecermos de que a maioria da população mulçumana não representa risco ou violência. São pessoas como nós que lutam e que sentem e, por que não dizer, sejam talvez as maiores vítimas de todo esse processo.

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Carolina Vila Nova é brasileira. Tem cidadania alemã, 40 anos. Escritora e Roteirista. É autora dos seguintes livros: “Minha vida na Alemanha” (Autobiografia), “A dor de Joana” (Romance), “Carolina nua” (Crônicas), “Carolina nua outra vez” (Crônicas), “Vamos vida, me surpreenda!” (Crônicas), “As várias mortes de Amanda” (Romance), “O dia em que os gatos andaram de avião” (Infantil), “O milagre da vida” (Crônicas) e "O beijo que dei em meu pai" (Crônicas). "Nosso Alzheimer." (Romance), Disponíveis na Amazon.com e Amazon.com.br

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