Vida é impermanência

Durante uma palestra de um monge budista, onde o mesmo falava de amor e relacionamentos, ele disse: “O budismo não é contra o amor ou relacionamentos. Mas como seria um casamento budista? O que nós diríamos para um casal que decide se unir no amor? Nós teríamos que dizer algo como: … vida é impermanência…”.

Diferente das religiões mais tradicionais, o budismo não é contra o amor, mas entende a impermanência do ser humano. Hoje somos um. Ontem fomos outro. E amanhã seremos ainda outro ser.

Quando nos apaixonamos, estamos na mesma frequência e ressonância da pessoa amada. Encontramo-nos nas afinidades, nos mesmos sonhos e objetivos. Tentamos saborear ao máximo a delícia do frio na barriga e o bater das asas das borboletas no estômago. Mas eternizar um amor não é algo tão simples assim.

Com o passar do tempo, além do fator biológico que altera todo o fogo inicial da paixão, vem a vida e nos muda por dentro através de inúmeros fatores: trabalho, estudo, amigos, novos eventos na vida familiar e novas pessoas.

Cada um é atingido por uma série de eventos diferentes em sua vida. E também cada um assimila esses novos fatos de forma única. Mesmo duas pessoas que partilham suas vidas, poderão estar vivenciando as mesmas coisas, mas de formas desiguais. Um amadurece, sai do lugar, enfrenta a vida de peito aberto, enquanto o outro pode, por exemplo, ficar mais estacionado, se lamentando sobre a perda do que era antes, sem perceber a natural impermanência da vida.

Fato é que na vida tudo muda. E o tempo todo. Inclusive nós mesmos.

Deve ser possível amadurecer e crescer junto a alguém que se ama, mas ao mesmo tempo, sabemos que viver é algo complexo, e poucos de nós planeja a vida na ponta do lápis e consegue seguir o planejado a ferro e fogo.

Não temos poder sobre nosso destino. Tentamos guiar nosso viver, mas compreendemos que nós é que somos guiados pela vida, simplesmente como ela é e acontece.

Na mesma palestra, o monge falava sobre liberdade. O quão difícil é para alguém estar preso a outrem apenas pelo estado civil. Pelos filhos, pelo dinheiro ou pela conveniência. Amor de verdade, segundo ele, inclui o: “Vá, seja feliz onde for, como for e com quem for”. Quantos de nós conseguimos esse amar tão desprendidamente?

Particularmente me identifiquei com as palavras do monge budista. Não tenho a menor dúvida sobre o amor e poder da família. Mas me frustra a quantidade de pessoas que vivem em casamentos sem amor, mas que “sobrevivem” em nome de todo o resto.

Assim como o monge, sou a favor do amor enquanto ele vale a pena. E assim a favor da vida que faz feliz.

Importante é sempre lembrarmos, que apesar de haver uma força invisível que parece reger nossas vidas, ainda temos o poder por nossas escolhas e decisões. Ninguém pode escolher ser feliz pelo outro. Mas por si mesmo já significa tudo.

No mais, ainda segundo o monge, podemos fazer tudo por certo alguém, contra ou a favor, mas quando o “vento cármico” bate à nossa porta, aí…. não precisamos fazer mais nada… é o que tem de ser!

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Carolina Vila Nova é brasileira. Tem cidadania alemã, 40 anos. Escritora e Roteirista. É autora dos seguintes livros: “Minha vida na Alemanha” (Autobiografia), “A dor de Joana” (Romance), “Carolina nua” (Crônicas), “Carolina nua outra vez” (Crônicas), “Vamos vida, me surpreenda!” (Crônicas), “As várias mortes de Amanda” (Romance), “O dia em que os gatos andaram de avião” (Infantil), “O milagre da vida” (Crônicas) e "O beijo que dei em meu pai" (Crônicas). "Nosso Alzheimer." (Romance), Disponíveis na Amazon.com e Amazon.com.br



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