Una Furtiva Lácrima

Era tarde da noite e eu assistia televisão – na verdade zapeava todos os canais, sem nenhuma paciência e completamente entediado –. Não tinha vontade de ver nada, só precisava fingir estar fazendo alguma coisa para não me sentir tão culpado por não estar dormindo. Eu acordaria cedíssimo no dia seguinte. Até que a programação de um dos canais me chamou a atenção, Era o filme “A hora da estrela”, da diretora Suzana Amaral, baseado no romance homônimo de Clarice Lispector. Eu nunca tinha lido o romance, mas, nas aulas de literatura do curso pré-vestibular já tinha ouvido falar sobre a trama e os personagens. O filme já tinha começado e eu fui introduzido a uma cena que, logo de cara, me intrigou: Macabéa, a protagonista da história, tentava, com seus parcos recursos linguísticos, estabelecer um diálogo com Olímpico de Jesus, seu namorado. Pareciam não ter nada a dizer um ao outro, ou ter muito o que dizer, mas sem saber como fazê-lo. A dificuldade de comunicação entre eles me causou uma agonia indescritível. E a agonia me acompanhou nas cenas seguintes, afinal a heroína da história era alguém que eu conseguia reconhecer entre as pessoas do meu convívio; jovem, desamparada, terrivelmente ingênua, muito pobre e ignorante, então os infortúnios dela ao longo do filme me doíam, me envergonhavam… Tive raiva de Macabéa. Como pode ser tão estúpida? Como pode ser tão ignorante? Mas a raiva vinha atrelada à compaixão. Sentimentos controversos despertou em mim a personagem. Em resumo, não consegui desgrudar os olhos da tela da TV.

Mas não é resenhar o filme a intenção desse texto. A intenção é chegar à cena do filme que desencadeou em mim uma série de lembranças, análises e autoanálises. A cena em questão é prosaica para alguns, mas cheia de significados para outros; nela, Macabéa está trancada no seu quarto de pensão ouvindo o rádio relógio pela madrugada, quando começa a tocar Una Furtiva Lácrima, ária do último ato da ópera L’elisir d’amore, de Gaetano Donizetti, composição belíssima e triste. Macabéa, a princípio uma ouvinte displicente, aos poucos se deixa tocar pela beleza da música, se emociona genuinamente e chora, mesmo sem entender ao certo por que o faz. Na cena seguinte, já no outro dia, ela relata ao namorado que na noite anterior escutou uma música linda, cantada por “um homem que já morreu”. Macabéa é uma legítima representante das camadas mais baixas da população brasileira, inculta e ignorante. Mas a sua ignorância não a impede de se emocionar com uma música bonita. A beleza, então, atinge a todos, indiscriminadamente. E foi justamente a partir dessa cena que eu entendi quem é que eu mais reconhecia na figura da protagonista de “A hora da estrela”. Era meu pai.

Homem simples, de origem humilde, com pouquíssimo estudo, meu pai trabalhou como pedreiro por toda a sua vida. – dizia ser essa a única coisa que sabia fazer. Mas, contrariando às expectativas daqueles que imaginam que uma pessoa que ganha a vida fazendo trabalho braçal é alguém que transfere a rudeza das práticas do seu ofício para as relações interpessoais, era doce e carinhoso e tinha uma alma sensível. Era alguém capaz de passar horas em silêncio contemplando um céu estrelado e que se interessava pelas artes, mesmo sem ser um conhecedor do assunto. Me lembro com nitidez de vê-lo todas as noites recolhido no seu quarto assistindo a algum documentário sobre Mozart, Bethoven, Picasso ou Van Gogh, enquanto minha mãe agregava os filhos em frente à TV da sala para ver novelas mexicanas. Às vezes acho que ouço de novo a voz dele me chamando para o quarto com extrema empolgação para acompanhar um programa sobre a Revolução Francesa. Eu sempre atendia ao seu chamado com prontidão, mas o fazia muito mais por obrigação do que por vontade própria. Não tínhamos uma relação muito próxima, afinal ele trabalhava muito e quando estava em casa parecia alheio aos problemas da família. Talvez eu o enxergasse como alguém que não fazia a menor ideia de quem eu era, ou que, na melhor das hipóteses, sabia de mim apenas o pouco que eu revelava. E eu nem sabia ao certo se esse pouco que eu revelava era verdade ou invenção. Mas talvez eu estivesse enganado . Hoje começo a acreditar que meu pai me enxergava tão bem que foi capaz de me decifrar sem que eu tivesse lhe dado nenhuma pista.

No início da minha adolescência eu decidi que queria ser escritor. Não foi uma surpresa para a minha família, que me viu desde criança interessado nos livros e exercitando exaustivamente a minha criatividade, mas era uma decisão no mínimo pouco convencional para um garoto que é filho de um pedreiro que estudou até a quarta-série e de uma dona de casa que nunca demonstrou interesse pela literatura. E eu pus na cabeça que, se eu não podia, por motivos óbvios, ter um computador para produzir meus textos, precisava de uma máquina de escrever, equipamento que há tempos tinha caído em desuso e por isso podia ser comprado de segunda mão a um preço consideravelmente mais acessível. Quando disse isso aos meus pais era uma manhã de domingo. Todas as manhãs de domingo na minha casa eram iguais, nos reuníamos na cozinha. Minha mãe fazendo o almoço, meu pai ajudando como podia – seja preparando a salada ou destrinchando o frango – , meu irmão e eu ao redor da minha mãe perguntando a cada cinco minutos se o almoço já estava pronto, e em cima da mesa da cozinha o rádio de pilhas ligado na Rádio Socorro AM, em que um locutor de voz grave e sotaque interiorano carregado atendia aos ouvintes e anunciava músicas sertanejas. Eu naquela manhã interrompi a já conhecida dinâmica familiar e disse com a maior propriedade do mundo, “Preciso de uma máquina de escrever porque vou escrever um livro.”. Minha mãe achou graça, mas meu pai reagiu diferente, ele quase que imediatamente pegou o telefone e ligou para a Rádio Socorro pedindo que o locutor anunciasse que estávamos à procura de uma máquina de escrever. O locutor fez o anúncio e minutos depois recebemos o telefonema de uma senhora que estava disposta a vender por vinte reais a máquina de escrever que tinha sido do seu filho, falecido há quase vinte anos. Meu pai então me levou à casa dessa senhora no mesmo dia e, com notório orgulho, comprou para mim a Olivetti Studio 46 maltratada pelo tempo e já sem duas teclas, que seria, nas palavras dele, meu instrumento de trabalho. O equipamento e eu, ao contrário das expectativas do meu pai, nunca nos demos bem, mas é claro que eu nunca disse isso a ele. E a partir daquele dia ele passou a me perguntar quase diariamente, “E o livro?”, no passo que eu respondia, “Tá indo, pai…”.

Hoje, seis anos após a morte do meu pai, sinto que o compreendo muito mais do que conseguia quando ele era vivo. Ele pouco fazia por si mesmo, mas dava tudo de si pelas pessoas que amava, pois se realizava nas nossas alegrias e conquistas. O brilho nos olhos dele quando me deu a máquina de escrever é uma lembrança que me emociona profundamente. Que alma sensível e generosa! Às vezes me pergunto, como alguém pode levar uma vida tão dura, cheia de privações e decepções e ainda preservar no espírito a doçura de alguém que vive no melhor dos mundos? Ainda preciso achar essa resposta. Meu pai não me viu chegar à vida adulta, mas no pouco tempo que teve comigo foi capaz de me entender quando eu mesmo não me entendia. Quando me chamava no quarto para ouvir música clássica tocando na TV, por exemplo, ele estava tentando saciar aquela minha fome de cultura, de conhecimento. Sim, ele sabia quem eu era. E ele é parte importante de quem sou hoje. Eu é que não o conhecia. Mas não me culpo. Sei que as coisas acontecem como tem que acontecer. Ainda hoje sinto a presença dele em alguns cantos da casa onde ele deixava as suas ferramentas de trabalho. Não sei explicar, só sei que sinto… E toda vez que eu olho para a Olivetti Studio 46 em uma estante no canto do meu quarto, sinto se renovar dentro de mim a vontade de realizar meus sonhos, afinal não devo isso somente a mim, devo a ele, que acreditava nessa minha vocação. A minha escrita, essa recém adquirida coragem de falar de mim mesmo, essa consciência de coisas que me eram tão confusas, não existiriam se não fosse por ele, se não fosse por Macabéa… E a única palavra que me vem em mente para encerrar esse texto é gratidão.

Imagem de capa:  Pemaphoto/shutterstock

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Felipe Souza

O socorrense Felipe Souza descobriu cedo o seu interesse pela literatura e pela escrita. Nos primeiros anos da escola já era uma criança imaginativa que tinha especial interesse pelas aulas de Redação e de Língua Portuguesa. Na adolescência, já se arriscando a produzir seus próprios textos, participou de três edições do Mapa Cultural Paulista, tradicional concurso literário do Estado, inscrevendo seus contos, “Procura-se uma identidade, de 2005, “Rotina”, de 2006 e “(Minha vida cabe dentro de um parêntese)”, de 2007, que, em suas respectivas participações, conquistaram a primeira colocação na fase municipal da competição.

Felipe cursou Letras- Português e Inglês, na PUC-Campinas e trabalha desde novembro de 2016 produzindo conteúdo jornalístico para a Rádio Socorro.


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