Um leão por dia

Se, na vida profissional, estamos diariamente habituados a enfrentar vários problemas, na vida pessoal não é diferente. Convivemos com pessoas diferentes, lugares diversos e variações do que nós mesmos somos, a cada instante.

Mas, neste exato momento, sou capaz de perceber nitidamente o equilíbrio entre todas as coisas. Há dois dias, recebi uma noticia tão boa, que não era capaz de tirar o sorriso no rosto. Algo muito bom e, ao mesmo tempo, profundo havia acontecido em meu âmbito profissional, que ia além do significado de trabalho. No mesmo dia, mais tarde, sofri uma decepção que me tirou o chão. Senti o choro preso na garganta, tamanhas frustração e surpresa.

Mas, diz o velho ditado: “A vida não dá uma carga maior do que se possa suportar…”.

A dor que ainda carrego roubou minha paz e me tirou o sono. Encheu-me de dores que ainda latejam e apertam meu peito. E, para algumas decepções, não há remédio. Encara-se com resiliência, à espera da cura que vem com o tempo.

E, então, vem a vida, com toda sua sabedoria, trazendo o equilíbrio.

Como num passe de mágica, outro problema se resolveu. Algo estagnado por anos se aperfeiçoa, sai do lugar, dando chegada à maturidade para tal situação, que até então fora pesada e amarga. Do nada, o que feria agora me ajuda a levantar. E agradeço por tanto que havia ficado lá atrás.

Com toda a rebeldia que vivi em minha juventude, vejo com clareza a diferença que existe entre aceitar a vida como ela é e como ela acontece: as coisas como elas são, as pessoas como elas são. E as situações como elas acontecem. Tudo é aprendizado. E tudo é equilíbrio.

A vida tira de um lado e devolve do outro. Uma coisa melhora aqui e outra piora ali. Aos trancos e barrancos, se temos maturidade, aprendemos lições com cada situação de cabeça erguida, com gratidão no coração, por tudo o que chega e também pelo que se vai. Se chegou, encaramos. Se foi, aceitamos. Nada é em vão.

Entre sentimentos que vão e vêm com todos os furacões que acontecem em nosso caminho, sentimos a tormenta, sim. Mas ela dói menos quando é encarada, sem medos e sem vitimização. Mereço passar por isso? Não sei. Nem que seja apenas para uma pequena lição, decido aprender e seguir em frente.

Meu coração ainda dói. E, se digo que dói, é porque realmente dói. Mas eu sou responsável por onde foco meus pensamentos e sentimentos. Decido, então, olhar para a notícia de dois dias atrás e também para tudo o que veio depois. Apesar do peito apertado, dou condição, a mim mesma, de olhar para um futuro melhor, mesmo quando a dor se faz presente.

É como estar com um dedo queimado. Lateja e incomoda, sei que vai demorar para passar. Mas posso, ainda com o dedo latejando, levantar e brincar, distrair-me da dor e, assim, atrair mais daquilo que me faz bem, não importando o que ou quem queimou o meu dedo, mas assimilando o meu próprio poder, em tempo presente, de conviver com o que machuca, já atraindo a felicidade que irá me curar.

Leva-se tempo para tal aprendizado. Matamos vários leões por dia, mas, com os anos, muda-se a forma como fazemos isto. Agimos com gratidão e coragem.

E a vida retribui com flores!

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Carolina Vila Nova é brasileira. Tem cidadania alemã, 40 anos. Escritora e Roteirista. É autora dos seguintes livros: “Minha vida na Alemanha” (Autobiografia), “A dor de Joana” (Romance), “Carolina nua” (Crônicas), “Carolina nua outra vez” (Crônicas), “Vamos vida, me surpreenda!” (Crônicas), “As várias mortes de Amanda” (Romance), “O dia em que os gatos andaram de avião” (Infantil), “O milagre da vida” (Crônicas) e "O beijo que dei em meu pai" (Crônicas). "Nosso Alzheimer." (Romance), Disponíveis na Amazon.com e Amazon.com.br

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