Trabalhador descartável? Por Josie Conti

Por Josie Conti

O trabalho tem papel central na vida das pessoas. Ter ou não um trabalho ou um emprego afeta a pessoa em sua perspectiva de vida, de sustento próprio e da família, na sua autoestima e nas relações sociais: ser trabalhador é uma questão de identidade.

Por outro lado, observa-se que as condições, os processos e a organização do trabalho têm afetado negativamente a saúde das pessoas, ocasionando acidentes e doenças relacionadas ao trabalho.

Alguns dados:
• Hoje temos cerca de 30% de transtornos mentais menores e 5 a 10% graves entre os trabalhadores no mundo, segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde.
• Os transtornos mentais constituem a terceira causa de concessão de benefícios previdenciários por incapacidade temporária para o trabalho, superada apenas pelos acidentes e doenças osteomusculares. Porém, ainda segundo a Organização Mundial da Saúde, ainda nessa década, eles serão a primeira ou segunda causa de afastamento do trabalho.

Algumas características que devem ser observadas na pessoa que está adoecendo e que estão prioritariamente relacionadas à “organização do trabalho”:

• Excesso de atividades, pressão de tempo e trabalho repetitivo;
• Conflito de papéis entre subordinados e superiores;
• Falta de apoio social, por parte da chefia, colegas e família;
• Tecnologia de produção em série e processos de trabalho extremamente automatizados;
• Trabalhos em turnos;
• Ameaça de desemprego;
• Competição;
• Jornadas prolongadas de trabalho;
• Responsabilidades excessivas e sobrecarga de trabalho;
• Diferenças em valores pessoais da pessoa e o que lhe é cobrado em seu trabalho.

Embora, num primeiro momento, os itens descritos acima não aparentem ser tão diferentes do dia-a-dia da maioria das pessoas, é notório o fato que o número de pessoas que chegam até mesmo ao suicídio em função do trabalho cresceu, e isso inclui o Brasil.

Uma característica comum em trabalhadores que não podem expressar seus sentimentos, é a “supervalorização de doenças físicas”, pois estas são mais visíveis e comprováveis e assim, uma forma concreta de mostrar à sociedade que existe um sofrimento real. O entorpecimento dos sentimentos através do álcool e outras drogas assim como de medicações “lícitas” também é comum.

O trabalho é saudável quando permite que a pessoa exerça de alguma forma sua criatividade, construa algo e, em troca, obtenha reconhecimento social e financeiro. Mesmo o estresse é considerado positivo se for exercido dentro dos limites de tolerância do trabalhador, lembrando que esses limites são individuais e váriáveis temporalmente.

Em recente passagem pelo Brasil, o prof. Yves Clot, conceituado psicólogo do trabalho e pesquisador do Conservatoire National des Arts et Métiers de Paris, participou I Simpósio Internacional Saúde Mental e Trabalho, junho- 2012. Em sua fala ficou clara a disparidade entre as intenções reais do trabalhador e o trabalho que o mesmo deve executar, quando ele descreveu uma pesquisa realizada nos correios de Paris diretamente com os funcionários que tinham a incumbência de, além de realizar os serviços tradicionais de postagem, realizar vendas conjugadas. Segundo o professor, é sabido que os correios, não têm mais condições de sustentar-se apenas com os serviços tradicionais após a internet, sendo assim, os seus funcionários são treinados para vender produtos como caixas para sedex, por exemplo. O que foi estudado foi o efeito psicológico dos funcionários ao lidarem com uma população exigente e que não tinha uma boa adaptação à mudança. O sofrimento também era causado, pois eram clientes usuais, que, muitas vezes levavam suas caixas prontas e preparadas com esmero. O funcionário, então, tinha que dizer a esse cliente que sua caixa não era “apropriada” para o envio e tinha que vender um novo produto.

Podemos fazer um paralelo entre o trabalho exercido, no Brasil, dos funcionários que vendem “garantia estendida” de produtos sem que isso seja o desejo do comprador.

Nesse mesmo seminário, foi dado o exemplo de uma funcionária de uma grande loja de departamento brasileira que, após seguir as instruções da gerência, vendeu um produto com garantia estendida à uma senhora analfabeta tendo, inclusive, que carimbar sua digital. Após esse evento que foi ética e emocionalmente contra os valores da trabalhadora, a mesma adoeceu. Outros exemplos são, por exemplo, os de trabalhadores de serviços de telemarketing que vendem produtos que as pessoas não têm interesses, caixas de bancos que tem metas de “colocar contas em débito automático e fazer vendas” ao mesmo tempo que fazem todos os seus outros serviços, etc.

Vemos, então, e aí retornamos ao entendimento do professor Yves Clot, que as pessoas têm que optar por reações pelas quais elas não gostariam se fossem “livres” para decidir. Aquelas reações que não venceram e que foram, mais ou menos reprimidas, formariam, segundo Clot, “resíduos incontrolados cuja força é apenas suficiente para exercer uma influência na atividade do sujeito, mas contra a qual ele pode ficar sem defesa”. Em suma, o “real da atividade é também aquilo que não se faz, aquilo que não sem pode fazer, aquilo que se busca fazer sem conseguir – os fracassos –, aquilo que se teria querido ou podido fazer, aquilo que se pensa ou que se sonha poder fazer alhures” ou, o que é para ele um paradoxo frequente, “aquilo que se faz para não fazer aquilo que se tem a fazer ou ainda aquilo que se faz sem querer fazer”. E tudo isso sem contar com o que é preciso ser refeito. Essa noção representa, a meu ver, uma contribuição importante para o enriquecimento da análise ergonômica, mas, acima de tudo, deve ser percebida como um recurso inestimável para a apreensão da dimensão subjetiva da atividade, sem a qual uma verdadeira Psicologia do Trabalho jamais poderia se efetivar.

A partir desses argumentos temos que retomar o papel insubstituível do trabalho no desenvolvimento pessoal, na construção da identidade, do próprio valor e na contribuição de cada um para a formação do patrimônio histórico-cultural humano.

Todo profissional que acompanha trabalhadores afastados pelos mais diversos motivos é capaz de identificar o seu declínio social, na autoestima e, em consequência, do humor em geral. Isso quando o sofrimento emocional ainda não é agravado por uma dor crônica ou outro tipo de limitação física permanente.

Então fica a questão: “Nós, como sociedade, permaneceremos coniventes com mecanismos perversos de produção enquanto o nosso próprio capital humano adoece em números assustadores ou chegou a hora de permitir que as pessoas falem o que pensam e sentem sem que sejam punidas pelo sistema?”

Infelizmente, o que tenho visto é uma sociedade de bens de consumo descartáveis também tratando seus próprios produtores de capital como seres absolutamente dispensáveis e facilmente substituíveis.

Você não concorda?

Então reflita se nunca ouviu frases como essas:
“Ninguém é insubstituível.”
“Você não quer, tem quem queira.”
“Se você acha que o seu salário está baixo, eu te demito e contrato outro por 30% menos.”
“A porta é serventia da casa.”

Pense nisso.

Josie Conti- Psicóloga

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Clot, Yves. A função psicológica do trabalho. Editora Vozes, Brasil, 2006.
Clot, Yves. 1º Simpósio Internacional de Saúde Mental e Trabalho no ABC. São Bernardo do Campo. 22 de junho de 2012.
Camargo, D.A; Caetano, D; Guimarães, L.A.M. Psiquiatria Ocupacional: aspectos conceituais, diagnósticos e periciais dos transtornos mentais e do comportamento relacionado ao trabalho. São Paulo. Editora Atheneu, 2010.
Ministério da Saúde. Doenças Relacionadas ao Trabalho- Manual de Procedimentos para o Serviço de Saúde, org. Dias E.c, Brasília: MS, 2001.
Boff BM, Leite DF, Azambuja MIR. Morbidade subjacente à concessão de benefício por incapacidade temporária para o trabalho-Revista Saúde Pública v. 36 no. 3, São Paulo jun. 2002.
Heloani, JR. Sociedade Doente. Revista Proteção v 244. São Paulo, abril 2012.

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Josie Conti
Blogueira e empresária. Após trabalhar anos como psicóloga, abandonou o serviço público para manter seus valores pessoais. Hoje, a Josie Conti ME e sua equipe trabalham prioritariamente na internet na administração funcional, editorial e publicitária de redes sociais e sites como A Soma de Todos os Afetos e Psicologias do Brasil, além de várias outras fan pages que totalizam cerca de 6.5 milhões de usuários. É idealizadora da CONTI outra, o projeto inicial que leva seu nome.



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