A todas as mulheres com mais de 60 anos

Era o dia do seu aniversário e aquela mulher, alta, de cabelos grisalhos, pergunta-se assombrada: 63 anos?

Repete baixinho e pausadamente para acreditar.

Esforça-se para manter a calma, respira profundamente…

O inquilino, inconveniente que reside em seu sótão grita:

–Onde você esteve em todo esse tempo, minha cara senhora?

Na defensiva e buscando pelo humor que tardava a chegar, responde:

— Vivendo e andando como a centopeia que não olha os pés para não cair!

Instantaneamente, seu olhar curioso passa em revista todo o seu corpo, como se fosse um general conferindo a cavalaria. A pele revela sem pudor a sua idade, no entanto, quando os olhos dirigem-se à sua face, o sorriso desmente.

Ah! Não tem dúvidas: aprecia a mulher que é.

Em hipótese alguma deseja voltar a ser aquela adolescente com sardas e pisando em ovos junto aos seus amigos de escola.

Agora, move-se com liberdade e autenticidade! Quando tropeça em dificuldades, não mais se esconde, nem inventa desculpas, simplesmente, admite o erro, aceita que a ficha demora a cair e dá gostosas gargalhadas.

Saboreia cada dia que ganha com gratidão e com uma gula imensa!

Gula de viagens, de netos, dos almoços com os filhos, dos chás com suas amigas, das aulas de dança e canto, das horas consigo mesma e, é claro, das guloseimas que, por muito tempo, se privou para acompanhar os padrões de beleza.

Suas juntas doem ao levantar-se ou ao abaixar-se, no entanto as janelas de sua alma não estão enferrujadas; abrem-se com facilidade para o jardim interno e lá vislumbra brotos que esperam por suas mãos para desabrocharem.

Não há mentiras, nem autoengano. Sabe que o tempo é exímio em sua função, porém, também sabe que é uma exímia jardineira de ilusões…

Ainda há muito que realizar… Lixos emocionais que devem ser reciclados, tarefas inacabadas e horizontes a serem desvendados…

Está ciente de que é chegada a hora da colheita e, por nada neste mundo, deixará de encher seus bolsos com os frutos cultivados.

Assovia, rodopia, dá três pulinhos, pedindo a São Longuinho não deixá-la perder a chave do assombro e do encantamento pelo mundo.

Veste-se de azul, abre os braços para o Céu e grita feliz: “Senhor, eu estou aqui!”

Imagem de capa: Dubova/shutterstock

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Eliete Cascaldi

Psicóloga , escritora e avó apaixonada pelo seu neto e pela vida. Autora do livro “Varal de sonhos” e feliz demais com os novos horizontes literários que se abrem.


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