Teste de som

Imagem de capa:  pathdoc/shutterstock

Nenhuma mulher é uma ilha. Somos continentes. Também é certo que cada serzinho vivo ou morto é único. Não há duas folhas de antúrio iguais, nem duas ondas idênticas no mar. Eis o mistério da individualidade. Mas tem um negócio chamado socialização – um caldo de fervura que atinge a todos que compartilham uma mesma época.

Mulheres e homens são socializados de formas diferentes. A tradição vai distribuindo os papéis e espera que a gente corresponda a eles. Seja no palco, seja na plateia. Da infância à velhice. É claro que dá para rasgar o script. Muita gente faz isso todos os dias e o tempo todo. Mas precisa ter coragem.

Nessa divisão de atribuições ficou estabelecido que os homens cuidam do espaço público e as mulheres do privado. Não estou inventando, basta observar. Com as raras e honrosas exceções, falar em público trava a língua da maioria das mulheres. Motivo de temor.

Lembro com detalhes de trauma a primeira vez que participei como palestrante em uma mesa. Foi no auditório de uma unidade do Senac em Sampa. Eu estava com meus 35 anos. Aconteceu que minha boca secou e a voz saiu trêmula. Os colegas homens, ao meu lado, falavam com fluência de água de cachoeira.

Verdade que o tempo – ah, esse grande mestre – foi corrigindo o meu temor. O tempo mais minha teimosia herdada da ascendência cearense. Fui aprendendo que eu tinha o direito de falar em público. Quando você entende que tem um direito, vai em frente tal burro desembestado. Destrava as amarras impostas pela tradição.

Em vários momentos da minha vida, ouvi alguns homens dizendo que as mulheres falam demais. O que concordo. Mas reparem que mulheres soltam o verbo na sala, no quarto, na cozinha. Basta pôr um microfone na frente que tudo muda. Saltamos da verve doméstica para a timidez discursiva.

Pois, em geral, não fomos treinadas para a esfera pública. Está duvidando? Então atente: no Senado Federal há 13 mulheres para 68 homens. Na Câmara Federal são 462 deputados e 51 deputadas. Essa magérrima contagem é recente. Por longos anos a representatividade feminina foi próxima de 0. Os números são frios e até chatos, mas não mentem.

Já as mulheres velhas falam dentro da cozinha e fora delas. Rugas escorrem pelo rosto, mas também são visas no passaporte para viagens ousadas. Vamos ficando menos bobinhas. Já sabemos que podemos rasgar papéis que nos escondem. No entardecer, muitas deixam de ser canoas transportando a vida dos outros. Ficam bem mais para oceanos.

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Fernanda Pompeu
Fernanda Pompeu é escritora especializada na produção de textos para a internet. Seu gênero preferencial é a crônica. Ela também ministra aulas, palestras e workshops de escrita criativa e aplicada. Está muito entusiasmada em participar do CONTI outra, artes e afins.

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