“Tenho lembranças fortes e bonitas de toda uma vida”, diz filha de Manoel de Barros sobre o pai.

“Há várias maneiras sérias de não dizer nada
mas só a poesia é verdadeira”

Foi com esse trecho de um poema que o diretor Pedro Cezar decidiu abrir o documentário Só Dez por Cento é Mentira, que homenageia e conta a trajetória do poeta-passarinho Manoel de Barros.

O homem que trouxe o mundo dos caramujos, folhas e gravetos para o imaginário de milhões de leitores ainda é um dos poetas mais lidos nacionalmente. É que não dá para ficar indiferente frente ao tão rico idioleto manoelês (definido por ele como a língua dos bocós e dos idiotas). A profunda simplicidade de sua escrita comove olhos e corações por onde pousa.

Essa simplicidade, que não deve ser confundida com simplismo, não era só aparência. Para construir seu universo literário, Manoel utilizava-se apenas de lápis e bloquinhos de papel que ele mesmo fabricava. Parece até coisa herdada de seu quase homônimo passeriforme da família Furnariidae, que só precisa de barro fresco para erigir seu castelo.

Manoel chamava seu escritório, um cubículo 3×4 situado no segundo andar de sua casa em Campo Grande, MS, de “lugar de ser inútil”. Lá escrevia as coisas mais grandiosas em tons apequenados, captados pela caligrafia tremida e irregular.

Não se veem páginas oficiais no facebook ou sites, apenas homenagens à sua vida e trabalho. É assim que sua poesia resiste, em silêncio tranqüilo feito corredeira de rio no meio do mato.

Sua catapulta para o sucesso literário veio através de Millôr Fernandes, quando Manoel já contava já com 70 anos. Dez anos depois, já era premiado e gozava de imensa fertilidade imaginativa, além de ser o autor brasileiro com maior vendagem no estilo poesia.

Passou boa parte da vida trabalhando em empregos que não gostava. Só depois de dez anos trabalhando duro na fazenda Santa Cruz, no Pantanal, herdada do pai, é que Manoel conseguiu fazê-la dar lucro, permitindo que ele então se tornasse num, em suas palavras, vagabundo profissional após comprar seu próprio ócio.

Seu desejo era sair do lugar comum, de transmutar as coisas que via e ouvia. Quando criança, era também inventor. Não no sentido ortodoxo e pragmático do termo. Suas invenções, resgatadas pelo escritor-inventor já adulto, incluem coisas como o abridor de amanhecer e o esticador de horizontes, batizados por ele de inutensílios. “A Invenção é um negócio profundo… Invenção é uma coisa que serve pra aumentar o mundo, sabe?”, disse diante da câmera do diretor Pedro Cezar.

Ainda na infância, quando era interno no colégio marista, trocou os romances de cavalaria e aventuras pelos Sermões de Padre Antonio Vieira que exerceu grande influência na sua imaginação já mirabolante

Era também fã declarado de Charles Chaplin e da figura do desheroi. Se dizia influenciado pelo diretor e comediante inglês, que usava figuras marginais e inocentes para falar de temas importantes, como escreveu em um de seus poemas: São Francisco monumentou as aves/Vieira, os peixes/Shakespeare, o Amor, A Dúvida, os tolos/Charles Chaplin monumentou os vagabundos.

UM POETA QUE ENSINA A SER POETA

Quando jovem, o escritor, apresentador e torcedor colorado Fabrício Carpinejar foi cativado pela poesia de Manoel de Barros. O primeiro contato com a obra dele foi com o livro A Gramática Expositiva do Chão, quando tinha 16 anos de idade. Ali Fabrício percebeu uma soberba de ensinamentos. A seu ver, Manoel é “um poeta que ensina a ser poeta, como Quintana foi”.

Mais tarde, escolheu Manoel como tema da sua dissertação de mestrado, batizada com o sugestivo nome de Teologia do Traste. Nela, compara com rigor acadêmico a escrita manoelesca com a de João Cabral de Melo Neto.

Fabrício contou que sua mãe enviava livros para Manoel e que ele também começou a enviar cartas para a residência da família Barros, com quem se comunicou assim por um tempo até que, em 2005, teve a oportunidade de ficar cara a cara com ele.

O conteúdo da conversa ele resume bem: futilidades. “A poesia se engrandece de futilidades”, justificou o gaúcho. A primeira impressão que teve ao chegar à casa de Manoel e Stella, a esposa com quem foi casado até o fim e com quem teve três filhos (dois deles falecidos antes de Manoel) foi acolhimento.

Em suas considerações literárias, Carpinejar defende que Manoel foi mais discípulo do poeta e diplomata brasileiro Raul Bopp, cujo livro Cobra Norato figura entre as obras mais importantes do Movimento Antropofágico, do que de Guimarães Rosa.

Aos olhos entendidos e líricos de Carpinejar, Manoel de Barros não possui uma poética, mas sim uma teologia do abandono. “Toda a sua poética é feita como almanaque. Um almanaque para deixar de ser”, argumentou. Por suas histórias sensíveis e minimalistas, é lugar comum acreditar que Manoel construa sua obra tendo a intuição como pilar de sustentação. Fabrício acha esse tipo de pensamento um tanto equivocado, já que Manoel seria um autor culto, esclarecido e estudado. Em outras palavras: alguém que sabe exatamente o que está fazendo.

“Seus personagens é que são intuitivos. Confundem ele com seus personagens”, disse.

Durante nossa conversa por telefone, percebo algo curioso: Fabrício fala de Manoel de Barros sempre no presente, como se ele continuasse vivo, palpitante. Mesmo curioso, decido por não perguntar sobre isso, para que assim ele permaneça um pouco mais entre nossos silêncios.

Para Marcelo Maluf, autor do livro A Imensidão Íntima dos Carneiros, Finalista do Prêmio Jabuti, 2016 e vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura, 2016, “Manoel de Barros é daqueles autores que têm a capacidade de invadir o nosso inconsciente. E remexer as coisas que deixamos nos sonhos. Toda vez que leio os seus poemas tenha a sensação de que algo que mora ali nos poemas, mas que não está nas palavras se grudou em mim e começou a brincar. Manoel de Barros só pode ser digerido assim, de alma para alma”.

DE PAI PARA FILHA

A guardiã de sua obra é a filha e artista plástica Martha Barros, de 66 anos, que é bibliotecária de formação. É sabido que Manoel só aceitava dar entrevistas por escrito, para que a voz não o traísse em seus deslizes sonoros. Martha também aceitou dar entrevista à CONTI outra mediante a condição de que ela fosse feita assim, por escrito.

“No caso dele,  penso que era porque tinha uma prosa linda e era sua arte escrever. Além do mais, respondia o que queria e como queria… Isso era engraçado. No meu caso é  por cuidado mesmo com as palavras, coisa que aprendi com ele”, esclareceu.

Segundo a imaginação lírico-afetiva de Carpinejar, o apreço de Manoel pela palavra no papel em suas respostas é porque ele “gostava da palavra como lagartixa gosta de parede”. Ou seja, grudada no papel.

Martha definiu o pai como um amigo e incentivador de seu trabalho. Tinham uma relação intensa devido às afinidades que tinham. Ambos aprenderam a amar a exuberância do Pantanal e conviveram com ela na infância e passaram suas juventudes no Rio de Janeiro e isso, segundo ela, se reflete no trabalho dos dois através do que chamou de “lembranças híbridas de dois lugares onde a natureza predomina com exuberância, ainda que de formas muito distintas”.

Uma das maneiras mais comuns do Pantanal se apresentar no texto de Manoel não é na forma de animais e paisagens, mas na imagem de um personagem que teve enorme influência na sua forma de enxergar o mundo: o Bernardo.

Bernardo é quase uma figura mitológica, situado no folclore íntimo do poeta. Sujeito de baixa estatura e de pouca fala, era seu maior companheiro, enraizado no Pantanal, como os sonhos e memórias que serviram de supra-sumo para a poesia de Manoel. Uma das coisas que Bernardo mais sabia fazer era reproduzir o som dos navios que chegavam em Corumbá, região onde fica a fazenda da família Barros.

É ele que está imortalizado em poemas como este: Bernardo é quase árvore/Silêncio dele é tão alto que os passarinhos ouvem de longe/E vêm pousar em seu ombro.

“Conheci muito e de perto o Bernardo. Fez parte de minha infância e juventude”, relembra Martha. “Tinha deficiência auditiva e era quase mudo. Mas sabia tudo da natureza. Falava com os olhos. Era um homem inocente e cheio de bondade. Creio que o próprio poeta tratou de perpetuar essa amizade entre os dois, através de suas poesias.”

Bernardo Puhler, que atende pelo nome artístico Bernardo do Espinhaço, partilha das atenções dadas à natureza pelo autor de Menino do Mato. Contrapondo o predominante Guimarães Rosa do álbum O Alumbramento de Um Guará Negro numa Noite Escura (2014), Manoel de Barros é “o mestre de indução literária” do seu segundo trabalho, Manhã Sã, lançado em 2015.

“Há uma evidente aproximação entre seu discurso obcecado pela simplicidade e a natureza solar das canções que ali estão. Entre elas está Tardeando, que é dedicada a este poeta e narra imaginário encontro com o mesmo em uma paisagem pitoresca do Espinhaço. Outra curiosidade que me entrelaça à obra de Barros é a coincidência do nome com seu irmão [sic] Bernardo, um dos protagonistas mais recorrentes em seus livros. Frequentemente pessoas me abordam com tais poemas identificando a curiosidade do nome com o interesse pelas paisagens e pela vida natural.”

Martha Barros tem o vício da pintura desde criança. Começou a expor profissionalmente na década de 1970 e sempre contou com o apoio do pai. Quando pergunto sobre os momentos mais marcantes, menciona as pequenas angústias de uma alma gigante e os grandes prazeres de momentos miúdos.

“Tenho lembranças fortes e bonitas de toda uma vida. Quando ele ia receber homenagens e prêmios, ficava tão nervoso que no dia seguinte precisava deitar. Dizia que era descarrego… Da infância, é inesquecível como gostava de juntar toda criançada, netos e meninos da fazenda para conversar e descascar laranja. Achava graça nas brincadeiras e no apetite das crianças!”

Quando Manoel faleceu em 2014, aos 97 anos, Martha e Stella receberam mensagens de fãs dos quatro cantos. “Foi uma enxurrada de amor e carinho de toda parte! E também o que me deu força para administrar uma obra tão importante! Ele deixou tudo organizado, foi generoso até o fim”, afirmou Martha, que também ponderou sobre as lições que recebeu do pai: “Aprendi muita coisa boa! E sempre que tenho situações difíceis para resolver lembro dele. Sua humildade para reconhecer os erros, voltar atrás e pedir desculpas me comovia. Essa atitude nos humaniza e nos redime de culpas. É sábia e linda.”

Em 2016 foi editada a Antologia Meu quintal é maior do que o mundo e Martha agora cuida da reedição dos livros de poesia de Manoel de Barros pela editora Alfaguara. “Cada volume contém não apenas prefácios novos, mas também fotos pessoais, documentos inéditos ou cartas de amigos e admiradores. Um primor!”, revelou com entusiasmo.

Talvez Fabrício Carpinejar esteja certo, afinal. Manoel continua entre nós.

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Jocê Rodrigues
É escritor, editor e repórter responsável pelo conteúdo jornalístico do CONTI outra.

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