Tenho ciúmes dos nossos momentos

Eu sei, eu sei, pode parecer bobo e infantil o que vou dizer. Acho bonito você aí vivendo, exercendo sua liberdade, sorrindo, se abrindo para sua espontaneidade.

Respeito o seu jeito de ser, os seus olhos que veem beleza, a sua abertura para conversar com todos e compartilhar amor e sentimentos.

Mas, eu aqui no meu canto, te admirando, guardo no espaço mais especial da minha memória os nossos encontros. Eu acesso essas pequenas grandes lembranças quase que diariamente para sentir um gosto doce na boca e fazer meus dias valerem a pena.

Então, meu amor, sou bobo sim, mas tenho que te dizer que tenho ciúmes dos nossos momentos. Tenho medo de eles se tornarem menos especiais por ver você por aí repetindo tudo igual, apesar que acho que suas ações são espontâneas e não são jogos inventados para serem repetidos. Cada momento é único de toda forma, eu sei.

Mas, eu ouso aqui te pedir, por favor, para que você não suba por aí escadas rolantes pelo lado errado com qualquer amigo que em vez de aproveitar a graça, vai julgar seu ato.

Peço que você não colha as acerolas daquela árvore da rua e distribua para qualquer pessoa que não vai notar a beleza da sua intenção e gesto. Vai apenas achar tudo uma bobeira, ver a cena e passar reto.

Peço que você não arranque as flores, as lágrimas de cristo do vizinho, e dê de presente para qualquer amigo que não vai ter a delicadeza de colocá-las num copo e trocar a água todos os dias para que sobrevivam mais tempo perto da vista.

Quero te pedir que você não distribua por aí aquelas piadas bobas que você me conta enquanto a gente fica esperando chegar nossa comida no restaurante da esquina. Porque pode ser que ninguém sorria para elas e para você como eu gosto de fazer, e mesmo sua piada não tendo graça nenhuma, é um grande divertimento assistir seus trejeitos enquanto elabora uma história.

Eu sei, meu bem, você não é minha, sua vida não é minha, suas estradas seguem, suas horas se dividem entre afazeres, pessoas, momentos… Mas é que eu aqui gosto de pensar que algumas coisas entre nós são únicas e especiais, eu coloco moldura dourada nas nossas cenas simples e sei que muita gente por aí não enxerga o valor da obra de arte que pode ser passar umas horas com você.

Eu que enxergo a beleza dessas nossas singelezas, não quero saber como outros tratam o encantamento dos seus olhos. Prefiro pensar que é nosso espaço, que é nossa química, que são nossas almas que sabem voar juntas e que isso nos conecta pela poesia, pela verdade nesse mundo veloz, devorador de pessoas e sentimentos e que se liga demais em aparências.

Eu espero que a sua linda alma não encontre barreiras nos olhares anestesiados. E eu estarei aqui esperando os nossos próximos encontros que dentro do meu coração fazem do mundo um lugar lindo de se viver.

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Clara Baccarin
Clara Baccarin escreve poemas, prosas, letras de música, pensamentos e listas de supermercado. Apaixonada por arte, viagens e natureza, já morou em 3 países, hoje mora num pedaço de mato. Já foi professora, baby-sitter, garçonete, secretária, empresária... Hoje não desgruda mais das letras que são sua sina desde quando se conhece por gente. Formada em Letras, com mestrado em Estudos Literários, tem três livros publicados: o romance ‘Castelos Tropicais’, a coletânea de poemas ‘Instruções para Lavar a Alma’, e o livro de crônicas ‘Vibração e Descompasso’. Além disso, 13 de seus poemas foram musicados e estão no CD – ‘Lavar a Alma’.

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