Tem gente que quer fazer a revolução mas nunca fez uma gentileza.

Olhe ao redor. Abra a janela, observe lá fora. Estenda os olhos. Espie no buraco da fechadura, ligue a TV, pesquisa na Internet. Em qualquer canto, o mundo anda cheio de gente convencida de que compreendeu o problema da vida.

Assim, tão certos, seguimos diagnosticando mazelas, apontando culpados, ensaiando soluções milagrosas. Convictos de que só uma revolução profunda nos salva. Só um choque violento, um terremoto nos centros do poder, um meteoro apontado para os palácios do governo nos livrarão da sanha dos sanguessugas.

Então, enquanto os milagres não vêm, os gênios de sangue nos olhos repetem palavras de ordem. Greve! Reforma! Revolta! Levante! Mas nada acontece além de tumulto e fumaça, porque somos ótimos em fazer barulho e repetir fórmulas prontas. Mas péssimos em fazer silêncio e pensar caminhos.

E tudo segue assim, no plano do irrealizável. Na dependência do que não depende de mim e de você. Assim vai nossa lenta e interminável destruição de nós mesmos, incapazes de resolver nossas questões mais simples enquanto nos empurram uns contra os outros.

Deve ser porque é mais fácil culpar alguém além de nós mesmos, né? Mais fácil pôr a culpa na crise, no frio, no calor, no sol, na chuva. É tão mais fácil sair às ruas e pregar a revolução que arrumar o quarto em casa. Mais fácil cobrar decoro do político que passar a mão naquele livro tomado de empréstimo há anos e devolvê-lo ao dono. É muito mais fácil.

Em meio a tanta certeza, é mais fácil mentir a nós mesmos no berro que suportar nossas verdades em silêncio. Porque a verdade dói e a mentira anestesia, esconde, entorpece. Mentira fere, sim. Machuca. Mas só se for descoberta. Se a gente deixa, ela fica lá. Quieta, cínica, fingindo que vai tudo bem. Quando é a mentira que a gente conta no espelho, então, pior. Porque essa a gente dá um jeito de passar a vida protegendo, resguardando. A gente passa a vida aninhando mentira nos braços até ela nos arranhar a cara.

Quando ela nos arranhar, a gente a manda longe, abandona. E arruma outra mentira novinha sem pensar no assunto. A gente não é muito de pensar nas coisas. Melhor repetir respostas prontas e esperar a revolução. A gente adora fazer a revolução mas é incapaz de fazer uma gentileza. Porque ser gentil é difícil e bancar o herói é mais fácil. Aqui entre nós, a gente adora o que é muito mais fácil.

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André J. Gomes
Jornalista de formação, publicitário de ofício, professor por desafio e escritor por amor à causa.



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