Talvez a morte nos torne gratos por nossa existência.

O Facebook calcula que em 2098 o número de usuários mortos será maior do que o de vivos.

Li esta manchete, mas confesso que não li a notícia toda e não sei como a administração da rede social chegou a esses números. Sempre me impressionei com os perfis das pessoas que morrem. Acho hilária a manifestação de tristeza e pesar pela partida de alguém através das mensagens deixadas nas redes sociais que não serão lidas por quem já partiu. Eu mesma já vi muitas vezes os perfis de pessoas cuja morte me foram noticiadas e sempre sinto um pesar que não deveria e culpa pela curiosidade mórbida que parece ser como pele em nós humanos.

A morte é mal aceita no mundo ocidental e as manifestações culturais pela partida de alguém são catastróficas. O povo latino, com seu bom e velho melodrama, faz da morte uma tragédia grega. Como se ela não fosse uma certeza…

No oriente, onde se vive mais intensamente a crença na vida após a passagem pela terra, o luto caminha mais brando, apesar de não menos dolorido. No oriente os povos passam de geração para geração um entendimento melhor sobre a fase final de nossa estadia por aqui, mesmo sofrendo pela separação.

A dor inevitável pela morte é a dor da separação.

Enfrentar a separação é para todos. Talvez os ateus engulam melhor a morte – confesso que chego a inveja-los por isso – mas eu que, quando criança – como toda menina católica – fui ensinada que um dia iria morrer e que iria viver eternamente no céu se eu fosse boazinha, sigo atormentada por esse tal de “eternamente”. Aos oito anos eu não entendia o que isso significava e nem tampouco o que significava o adjetivo infinito dado ao universo. Passei algumas noites acordadas pensando se eu encontraria alguém conhecido, se eu saberia me defender, se haveria alguém para me ajudar a chegar ao céu quando eu morresse – afinal, eu não sei o caminho! E quanto mais pensava, mais a angústia crescia.

 

Talvez ali eu tenha desenvolvido o medo da morte. Eu não era boazinha o tempo todo e isso me possibilitava ir para o inferno que a mim foi descrito inspirado em Dante Alighieri. A minha vida era bacana e eu não tinha a menor vontade de deixar este mundo nem para ir para o desconhecido céu, que dirá para um lugar horrível como o inferno. Cresci vendo e ouvindo que a morte existia para ser temida, que era dolorosa e que poderia nos pegar de surpresa. Aos quinze anos perdi um amigo com quem conversei quinze dias antes e cujo caixão foi lacrado porque ele estava muito machucado quando morreu decorrente de um acidente de trânsito e olhar para aquela caixa foi para mim uma tortura. Depois disso enfrentei muitos velórios e constatei que aquelas horas que precedem o enterro são as piores da nossa vida quando perdemos quem amamos. Eu confesso que se pudesse eu legalizaria o enterro imediato porque velório para mim é ficar dizendo a mim mesma por horas, que eu nunca mais verei, nem conversarei, nem ouvirei a voz daquela pessoa neste mundo.

O tempo para mim passou, mas a minha reflexão sobre a morte continua a mesma. Assim como a maioria dos ocidentais, descendentes de latinos e criados dentro do cristianismo, não é tranquilo e nem favorável para mim, pensar na morte mas quando eu percebi que ela está sempre ali ao nosso lado, cada dia vivo se tornou um milagre e isso motiva a viver.

Os vampiros são melancólicos exatamente por possuírem a vida eterna e há também muita tristeza nos personagens highlanders daquele filme bacana no qual eles não morriam a não ser quando degolados e que, por isso, passavam pela vida vendo a partida de entes queridos enquanto ficavam e iam sendo obrigados a estabelecer novos vínculos.

Ah, não morrer deve ser horrível…

Talvez ficar para sempre assistindo todos irem embora seja triste.

Talvez a nossa fé, crença, denominação religiosa, ajude a aceitar que a morte é o fim de um ciclo.

Talvez a morte não deva ser temida, e sim aceita como uma certeza de separação.

Talvez esta certeza derrube por terra a mágoa, o rancor, o orgulho.

Talvez essa realidade possa nos abrir os olhos para o bom da vida, talvez nos faça levantar da cama todos os dias comemorando estarmos aqui mais um dia.

Talvez a morte nos torne gratos por nossa existência.

Talvez todo o tempo gasto com medo da morte seja em vão.

Talvez a certeza da morte alimente os nossos sonhos.

Talvez o melhor seja deixar que ela venha quando quiser e que nos alcance só no final e que até lá tenhamos vivido intensamente esta aventura chamada vida.

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Viviane Battistella
Psicóloga, psicoterapeuta, especialista em comportamento humano. Escritora. Apaixonada por gente. Amante da música e da literatura...



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