A sorte tem o riso solto. Sorria que ela sorri de volta.

Que sorte a nossa! Viver num mesmo tempo, debaixo do mesmo céu, acima do mesmo chão. Com todos os milhões de anos da Terra, tanto canto na história para termos existido, olha que coisa, viramos gente logo aqui, logo agora. Que sorte!

Podíamos ter surgido em qualquer ponto na antiguidade, em tantas eras passadas, tantas épocas idas. Eu ali na pré-história, você acolá no Egito antigo. Mas não. Somos gente de um só tempo. Gentis contemporâneos de sorte. Que sorte a nossa!

Um mero deslize da Criação e teríamos sido estranhos na idade da pedra lascada, descobrindo o fogo em outros braços. Uma mudança à toa nos planos da existência e seríamos soldados de tropas inimigas em guerras antigas de pau e pedra, rivais cegos de ódio e medo em disputas de solo, carrancudos senhores feudais enterrando dinheiro nos fundos da casa, broncos de ganância, obscuros um ao outro para sempre.

Mas estamos aqui, bichos de um mesmo tempo. Não mais sisudas criaturas de outra era, almas desencontradas em desengano e desespero. Somos seres que riem e sonham juntos. E você sorri tão bonito! Mais bonito que o meu sonho mais bonito.

Que sorte, meu Deus, que sorte a nossa! Se o amor é para todos, entre todos estamos nós. Sortudos que só, vivendo cada um a sua vida, em caminhos separados num só tempo. Sofrendo as mesmas penas, assistindo às mesmas guerras, correndo os mesmos riscos. Amando o mesmo amor bonito que vive em cada um. Percebendo no caminho que a vida é mesmo um escandaloso privilégio.

Até que enfim nossas vias se cruzem, nossos passos se encontrem. E nossa sorte grande seja um amor enorme. Uma sorte conquistada, uma fortuna infinita. Partida feita de chegadas. Jogo que se joga a favor do outro. Que sorte a nossa. Que sorte!

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André J. Gomes
Jornalista de formação, publicitário de ofício, professor por desafio e escritor por amor à causa.



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