Solidão com requinte

Numa era de plena modernidade, quando nos comunicamos constantemente via WhatsApp, Facebook ou ainda por fotos publicadas via Instagram, como nos sentimos quando estamos sozinhos? Como nos sentiríamos ao chegar em casa, se tivéssemos todos os aparelhos desligados e desconectados?

Passamos o dia à quase mil por hora. Levantamos, quase sempre, cedo demais para a dedicação ao trabalho que nos sustenta. Passamos o dia resolvendo problemas profissionais, quando no fundo, tantas vezes, desejaríamos estar solucionando a própria vida. Terminamos a obrigação diária e corremos para os poucos afazeres que nos restam no fim de um dia. Em pouco tempo tentamos organizar os assuntos que mais importam: os nossos. Chegamos em casa e finalmente nos desligamos da vida lá fora para conectarmos na vida que há dentro de nós mesmos.

Entre o preparo do jantar e o programa preferido de televisão, ligamos os computadores e os celulares nas tomadas. Checamos os e-mails, os aplicativos e toda forma de rede social, às quais somos cadastrados. Parece existir uma esperança de que em algum momento, qualquer mensagem nos salve daquilo que incomoda: seja uma dor, uma ausência ou ainda a esperança por algo que provoque o riso. Busca-se algo que conforte a alma.

Vivemos em uma sociedade onde tudo acontece tão rapidamente, que nos vemos arrastados pela vida. Tudo acontece da maneira que dá. Não temos total controle sobre o que estamos vivenciando. O conhecimento é tamanho, que com muito esforço, tudo o que aprendemos ainda é mínimo. Os acontecimentos são tantos a cada segundo, que não seria possível nem ao menos compreender todos eles. A quantidade de pessoas à nossa volta ou em todo o mundo nos ensina a ignorar o próximo, para não carregarmos a culpa por aqueles que sofrem.

Aprendemos a agir de forma mais fria, calculista e individualista. Nos protegemos dos que nos criticam, também criticando os que nos incomodam. Olhamos as dores do mundo e as dores dos outros como parte do cenário. Tudo faz parte e parece não haver outro jeito: há fome, guerra e injustiças por todos os lados. E nós simplesmente seguimos em frente, trabalhando, sobrevivendo e ignorando ao máximo aquilo que machuca.

Num mundo cheio de regras, as únicas certezas são a morte e o instinto de sobrevivência. Escolhemos uma escola, uma profissão, um lugar para morar e com sorte alguém bom para amar. Na loteria do acaso, descobrimos os fracassos ou sucessos de nossas escolhas. Um dia nos damos conta de que fomos tragados pelo tempo e que nossas vidas foram muito mais direcionadas por uma força maior do que por nós mesmos.

Em algum momento olhamos para trás e observamos a própria vida como um filme. Analisamos os fatos, contabilizando os erros e as lições. Percebemos enfim que não há retorno dos fracassos. Nos contentamos com a maturidade adquirida e com os poucos que realmente permaneceram ao nosso lado.
Esta mesma vida que acontece tão rápida, um dia também leva aqueles que amamos. No outro dia nos surpreende com um novo alguém. Num ritmo e tempo que não somos capazes de assimilar, nos equilibramos entre as idas e vindas, os altos e baixos, as dores e os amores.

Com toda tecnologia, conforto e facilidades, nos distraímos em nome da continuidade da vida. Mas no fundo sabemos, que com todo luxo que se possa ter, só se muda o lado de fora. Por dentro ainda nos sentimos sozinhos. Muda-se apenas o requinte da solidão.

Num sopro de vida, simplesmente existimos!

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Carolina Vila Nova é brasileira. Tem cidadania alemã, 40 anos. Escritora e Roteirista. É autora dos seguintes livros: “Minha vida na Alemanha” (Autobiografia), “A dor de Joana” (Romance), “Carolina nua” (Crônicas), “Carolina nua outra vez” (Crônicas), “Vamos vida, me surpreenda!” (Crônicas), “As várias mortes de Amanda” (Romance), “O dia em que os gatos andaram de avião” (Infantil), “O milagre da vida” (Crônicas) e "O beijo que dei em meu pai" (Crônicas). "Nosso Alzheimer." (Romance), Disponíveis na Amazon.com e Amazon.com.br



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