Sobre tardes chuvosas e nostalgia

As tardes chuvosas geralmente inundam minha casa com um cheiro forte de nostalgia. Me lembro de quando eu costumava ficar na casa da minha avó na infância, por volta dos sete ou oito anos, e me escondia debaixo da jabuticabeira no quintal quando começava a chover, só para sentir o cheiro da terra quente sendo molhada pelos primeiros pingos de chuva.

Sempre fui muito ligada aos cheiros das coisas, e nada me traz lembranças mais profundas do que eles. E o cheiro da chuva chegando me marca demais, me faz retornar para todos aqueles momentos em que eu vivi na infância, deitada vendo televisão, ou então brincando sozinha com os ursinhos de porcelana do quarto da minha tia.

Lembrando agora, com a ajuda desse cheiro mágico, percebo o quanto minha mente era ativa, eu vivia num mundo particular incrível dentro dos meus próprios pensamentos. Parece que lembrar dessa infância tem mais a ver com retomar algumas lembranças de fantasias, do que lembranças reais de fatos concretos.

Eu via bastante televisão, assistia quase o tempo todo, mas era como se eu não estivesse ali. Pegava fragmentos, misturava-os com as minhas próprias lembranças, criava uma nova versão para o meu dia, com mais conversas, emoções, aventuras.

Quando penso naquelas tardes, em que minha vó muitas vezes costurava enquanto eu me entretinha com qualquer coisa, geralmente sinto uma ligeira felicidade irromper. E fico me perguntando, seria essa felicidade real? Não sei se eu era feliz nessa época, não sei mesmo.

O véu da nostalgia mais uma vez entra em ação, e as lembranças do passado, quanto mais distantes, mais distorcidas dos seus afetos se tornam. Talvez eu não me sentia feliz, talvez a solidão muitas vezes era minha companhia, mesmo sem eu ter capacidade de compreender isso muito bem. Talvez eu escolhi lembrar com bem-estar, tirando o melhor daqueles momentos, olhando só para a riqueza das fantasias que eu criava.

Isso me fez pensar no valor das lembranças, que imagino estar muito mais no significado que oferecemos a elas no presente, do que no que elas nos causaram naquele exato momento do passado. Não sei como me sentia aos sete anos na casa da minha avó, mas sei como me sinto hoje, sei que me sinto bem em recordar, e isso é tudo que me basta.

Possuímos a capacidade de traduzir o passado, atribuir novos significados de acordo com as nossas experiências de hoje. E não só, também conseguimos selecionar o que queremos guardar e o que esquecemos, deixamos lá, no fundo da gaveta nos nossos pensamentos mais escondidos. E isso não é maravilhoso?

É maravilhoso ofertar novos significados, sentir coisas boas. E agora eu te pergunto, como você escolheu lembrar do seu passado? Com o amargor de quem sofreu, ou com a nostalgia de quem superou? Porque, meu amigo, de dores estamos cheios, basta escolhermos se é delas que queremos nos lembrar. Quais histórias vêm à sua mente numa tarde chuvosa?

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Tais Abdo
Psicóloga clínica especialista em Psicoterapia Psicanalítica Contemporânea e atualmente mestranda na linha de Psicanálise e Civilização. Acredito não no poder de cura da psicologia, mas na capacidade que ela tem de transformar a dor e o sofrimento em compreensão e aprendizado.



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