Sobre amores e sorvetes derretidos: quando você insiste em querer mais

Imagem de capa: Milles Studio, Shutterstock

Algum lugar do mundo, 03 de janeiro de 2017

O que é toda essa inconformidade com o amor que não vingou? Por que está tão difícil aceitar que não era para ser? A ladainha já sei de cor, a mente tem certeza, mas o sentimento insiste em fisgar. Na barriga, na garganta, nos olhos que pesam e, porventura, lacrimejam.

O “E se…” golpeia dez vezes por dia. Não luto. Tento focar no presente. “E se…” já morreu, eu sei. Não me culpo. Já aconteceu antes e sobrevivi. O coração tem seu próprio relógio. Lá no fundo da dor, existe paz, sei que vai passar. Gostaria que fosse logo. Fico triste quando vejo o coração em luto, sendo que todos continuam a amar por aí.

– Coração, fique em luto pelo que realmente vale a pena.

Mas ele me olha, como uma criança desolada pela bola do sorvete casquinha que acabou de espatifar no chão após a primeira lambida.
– Existem outros sorvetes, outros sabores. Até mesmo iguais a esse que acabou de derrubar.

Não adianta. Ele lamenta incrédulo. Queria aquele sorvete ali que está no chão. Já o queria antes de tê-lo, quis imensamente quando o provou e agora o quer ainda mais. Agora que ele está perdido e o calor que aliviaria continua castigando. E se culpa. Foi falta de cuidado? Foi a lambida descalibrada que o empurrou para o outro lado? Ou foi a mão que entortou enquanto o ouvido se distraiu com o passarinho que cantava?

Mesmo não sendo o rei da razão, até mesmo o coração sabia que não valeria a pena ir ao chão, para tentar saborear o que sobrara daquele sorvete. Em primeira instância, até teve esse impulso, mas desistiu ao vê-lo sujo de terra e com os cabelos brancos do senhor da banca de jornal que caíram naquela manhã. A vida ajudou e tratou de derretê-lo rapidamente. A chuva veio e lavou o chão melado. A gordura restante, o cachorro cuidou de acabar.

Só teve uma coisa que a vida não conseguiu apagar: aquele gosto da única lambida dada. Aqueles dois ou três segundos que gelaram a língua, ativaram as papilas gustativas e refrescaram o corpo e a alma. Essa memória, o bendito coração não quer deixar ir. Abraça-a com força. E tem certeza que o resto do sorvete seria tão bom quanto aquele lapso de prazer.

Tudo bem, já disse, eu respeito. Dou o tempo que ele quiser. Fique ai na sua lamúria… Só digo uma coisa: que sorvete mais indigesto! Uma lambida e não se consegue engolir mais nada há mais de mês. Imagine se fossem dois litros tomados.

– Só para que eu possa entender melhor: qual é sua esperança, coração? Espera ganhar a máquina que produziu o alvo do seu deleite? Gostaria, então, de tomar sorvete, até sentir o estômago doer e o cérebro congelar?

E o coração não tem a resposta. Só sente. E, em prece, pede ajuda para livrar-se de tudo aquilo. Ou melhor, pede ajuda para querer soltar a saudade. Pois não quer.

Coração, o que você quer não é sorvete à vontade. Tampouco foi o gosto que o prendeu. Você quer é sentir novamente aquela sensação. Aquela primeira lambida. O gelado na língua descendo pela garganta naquele dia de sol. A glicose entrando no seu sangue e deixando-o eufórico. Aquela plenitude, enquanto o doce ainda não enjoara e o peso na consciência por burlar a dieta ainda não batera. A verdade é que pouco importava naquele momento o sabor do sorvete. Aquela primeira lambida com gosto de quero mais é que o deixou assim. E, agora, mal concebe a ideia de experimentar outros sorvetes, deixando evidente o gosto amargo na língua. Cismou que aquele caído era o melhor do mundo.

Mas, escute, em um argumento consigo convencê-lo do contrário. Talvez seu sorvete até tivesse potencial de ganhar um prêmio regional ou outro, não fora por um óbvio detalhe. Não era firme. Derreteu com o calor do ambiente e do seu corpo e espatifou ao chão. E, veja, não se trata de algo irrelevante. Consistência é um requisito imprescindível a um sorvete de boa qualidade.

Coração… Amigo… Chore o quanto quiser pelo sorvete derretido. É fácil apegar-se às primeiras lambidas. Assim como ao primeiro gole de água quando estamos com sede. Mas não se esqueça de ir limpando o paladar. A gente nunca sabe os sabores inéditos que a vida fabrica. E, acima de tudo, saiba que existe um sabor cujo gosto ainda não provou, mas que jamais será superado. Sabor este que não enjoa, não derrete, nem faz mal, e que guarda aí dentro de ti.

“Você tem que aprender a levantar-se da mesa quando o amor não está mais sendo servido.”
Nina Simone

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Júlia H. G.

“Amante das exatas com coração de humanas. Descobrindo nas palavras uma válvula de escape para tanta reflexão guardada.”


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