Sobre acasos e improvisos

Por Clara Baccarin

Por algum motivo desconhecido que deve ter surgido de alguma mensagem da mídia, ou de algum filme da Disney, inconscientemente a gente acredita que na vida os momentos bonitos e os encontros significativos serão capturados por nós quando estivermos bem preparados.

Por algum motivo, acreditamos que se traçarmos as rotas e nos conhecermos muito bem, faremos na vida escolhas mais assertivas que nos trarão felicidade.

Por algum tempo, pensamos que a pessoa que se encaixa nos nossos sonhos e que é a companhia ideal pra nós é aquela com quem compartilhamos os mesmo interesses, aquela que vamos encontrar naquele dia em que nos arrumamos tão bem para aquele evento interessantíssimo.

Por algum tempo, pensamos que sabemos exatamente o que esperamos do ser amado. Temos até uma listinha pequena das qualidades essenciais que nosso amor deve ter e então já não olhamos para ninguém mais fora disso. Afinal, pedimos pouco da outra pessoa, ela tem apenas que se encaixar na lista, senão não entra neste coração.

Por algum tempo, pensamos que a melhor viagem de nossas vidas é aquela em que tudo foi bem organizado, em que pagamos por meses as prestações daquele cruzeiro que oferece jantares inimagináveis e festas na piscina e vai parando em várias praias paradisíacas do Caribe.

Por algum motivo, temos certeza que seremos completamente realizados profissionalmente quando conquistarmos aquela posição alta na nossa área de atuação, e quando formos, finalmente, bem remunerados e bem reconhecidos por nossos esforços, dedicação e conhecimento.

Por algum tempo, pensamos que a vida é um caminhar linear, e que o percurso está cheio de caixinhas de presentes esperando para serem abertas. Encaramos a vida como um videogame em que conforme vamos dando o nosso melhor e avançando nas fases, as caixas de presente vão se desembrulhando em estouros de felicidade e recompensas.

Mas por algum motivo muito desconhecido, muito provavelmente, a pessoa com quem compartilhamos os nossos dias malucos, cruzou o nosso caminho naquele dia em que fomos á padaria sem sutiã e descabelada, ou que chegamos suados, depois do futebol, na festa do nosso melhor amigo.

Aquela pessoa bonita e ideal que por meses jogou com a gente aquele excitante e cansativo jogo de esquenta e esfria. Aquela pessoa que se dá um pouco e depois some, que mostra apenas as suas qualidades e que faz a gente acreditar que o papo sempre será bom, a química sempre será grande e os encontros sempre serão empolgantes. Por algum motivo maluco da astrologia, essa pessoinha não entra na nossa rotina.

Por algum motivo desconhecido, quem reparte os dias conosco não é aquela pessoa que faz nosso sangue ferver e a paixão aflorar todas as vezes que olhamos para ela.

Provavelmente, a pessoa que faz parte da nossa rotina é aquela que enfrenta de mãos dadas os dias de tédio. É aquela pessoa que nem sempre entende os nossos gostos peculiares, que veste aquela camiseta esquisita quatro vezes por semana, que espera da vida coisas diferentes da gente. Mas que por algum motivo, sabe nos abraçar quando as lágrimas querem despencar, nos olha com ternura naqueles dias em que nos sentimos monstruosos, nos deixa ser idiotas e infantis e nos faz gargalhar com aquela imitação sem graça do Silvio Santos.

Por algum motivo desconhecido, a viagem que realmente marcou a nossa memória foi aquela de última hora, naquele ônibus velho, com aquele grupo de amigos mais velhos ainda, que nos levou para aquela casa mofada para passar uma semana naquela cidade que não parava de chover.

Por algum motivo estranho e desconhecido, depois que alcançamos a posição mais almejada na nossa área profissional e colecionamos títulos e elogios, nos lembramos com os olhos cheios de saudade e melancolia daquela lanchonete que trabalhamos na adolescência tentando juntar dinheiro para uma viagem de fim de ano.

Por algum motivo desconhecido, o que de verdade na nossa vida ocupa espaço significativo e nos faz sermos pessoas talvez não completas, mas inteiras, não são os roteiros bem estruturados, os encontros de cinema, as paisagens de cartão postal, ou a elevada posição profissional.

O que realmente faz sentido na nossa vida são os encontros repentinos, os olhares ternos no acaso, o amor que transborda mesmo despreparado, as interrupções no nosso centrado caminhar.

Somos grandes pessoas não porque no nosso currículo de vida colecionamos lugares fascinantes, amores de perder o fôlego e muitos títulos. Somos pessoas grandes porque criamos grandes histórias com o que temos de ‘pequeno’.

E a vida que não tem mesmo chance de ser passada a limpo, é o grande teatro do improviso. E um bom improviso só requer olhos atentos e criativos.

Então, espero para mim e para você, que a vida não seja apenas feita de conquistas épicas, mas que cada passo do nosso caminhar seja doce em si mesmo.

improviso

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Clara Baccarin
Clara Baccarin é poeta, escritora e tradutora. Autora do romance Castelos Tropicais (Ed. Chiado, 2015), e do livro de poemas Instruções para Lavar a Alma (Ed. Sempiterno, 2016). É uma contadora de histórias que adora poetizar o mundo. Escreve por amor e rebeldia: desconstruindo verdades, brincando com as palavras e ressignificando a vida.



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