Sexo sem amor.

Somos um turbilhão de hormônios, químicas, sentimentos, pensamentos e necessidades fisiológicas navegando aqui dentro, encontrando-se e desencontrando-se, num ritmo frenético cada vez mais célere por conta do dia-a-dia atribulado a que nos entregamos. Nem sempre conseguimos equilibrar esse tanto de coisa que carregamos no peito, nos ombros, correndo em nossas veias, o que acaba nos provocando tristezas aparentemente descabidas, raiva de quem não nos fez nada, explosões verborrágicas fora de contexto e desejos inesperados.

Somos cobrados a todo instante por idealizações midiáticas que nos preconizam os modelos de pessoas desejáveis, modelos inalcançáveis pela esmagadora maioria da população mundial. Temos que ser fortes física e emocionalmente, bem resolvidos, ricos, destemidos, românticos e guiados pela razão. Acontece que nem tudo o que nos move pode ser racionalizado, pois somos em muito dependentes dos chamados de nosso organismo – quem consegue pensar direito, por exemplo, quando está acometido por uma vontade irrefreável de ir ao banheiro? O corpo não nos cansa de lembrar que ele também manda na gente.

Da mesma forma é o que pode ocorrer com as necessidades sexuais, as quais, em alguns momentos, parece pulsar dentro de nós enquanto necessidade física mesmo, seja quando do torvelinho hormonal característico da puberdade, seja na mais tenra idade, ou quando menos se espera. Muitas vezes, queremos o sexo porque sim, não importando se houve conquista, jogo de olhares, diálogos românticos, agrados e gentilezas o precedendo, se há amor envolvido. Trata-se de uma necessidade acesa pela nossa libido, que nos acompanha aonde formos. É desejo puro, instinto, é tesão, uma vontade que repentinamente pode surgir, sabe-se lá de onde ou por que motivo, ardendo por todos os poros. E não há que se envergonhar disso, pois é sinal de que ainda existem vida e energia dentro da gente.

Cada um sabe o que é melhor para si mesmo naquele momento, portanto, ninguém merece ser condenado por guiar-se pelos próprios desejos, quando não se prejudica o próximo. Logicamente, em qualquer circunstância, o sexo deve ser seguro e saudável, pois somos responsáveis pelos nossos corpos e pela forma como o utilizamos, sempre. Evitar doenças sexualmente transmissíveis e concepções indesejadas é o mínimo que se deve garantir ao se relacionar sexualmente; o resto diz respeito aos desejos de cada um, a ninguém mais – e desde que não haja um terceiro sendo traído, pois ninguém merece sair machucado por conta de nossas vontades. Com quem, onde, de que forma, com qual finalidade, tudo isso cabe apenas aos envolvidos – se houver consentimento mútuo obviamente, pois temos que agir de acordo com os nossos desejos e os desejos do parceiro, inclusive conscientes do que possa vir a ser colhido mais cedo ou mais tarde.

No entanto, é preciso muita maturidade e certeza real quanto ao que se deseja, se vale a pena ou não, ponderando as possíveis consequências que virão. Vivemos em sociedade e, por mais que não queiramos, existem olhos, ouvidos e bocas alheias à espreita o tempo todo, prontos para julgar nossas falas, atitudes e comportamentos. Quando nossas escolhas forem condenadas por muitos, estaremos fadados a enfrentar os julgamentos e apontamento de dedos que então decorrerão. Da mesma forma, é preciso ser independente emocional e financeiramente para poder agir como quiser, sem ter que enfrentar cobranças e reprimendas alheias, bem como as que nós próprios nos fazemos. Se não quisermos dar satisfações a outrem, que consigamos nos sustentar, sobreviver e nos emancipar sem a ajuda desse outrem. Caso contrário, deveremos satisfações, sim; não tem por onde.

Ninguém está fazendo apologia do sexo casual e descompromissado como única forma válida de prazer; apenas se defende o direito de buscá-lo da maneira que melhor atenda a necessidades específicas em determinados momentos. Não é preciso estar amando ou apaixonado para ter vontade de fazer sexo. Pessoas são diferentes umas das outras, de um dia para o outro, bem como suas aspirações e vontades. É inegável que o que precede o sexo em si pode potencializar o prazer da entrega, oportunizando uma troca repleta de cumplicidade, intimidade e sentimentos verdadeiros. Não se questiona, aqui, a importância da conquista e do jogo de sedução na criação de vínculos mais fortes e duradouros, porém, às vezes, o que se deseja é somente desfrutar as delícias do ato sexual. Sexo, nada mais do que isso. Se todos os envolvidos estiverem alcançando prazer e se sentindo bem, de forma segura e consentida, com maturidade, não fugindo à fidelidade de uma relação com isso, ou aos próprios valores e princípios, não haverá por que condenar.

É fato que o mundo carece de amor, de romantismo, de galanteios e de vidas compartilhadas com honestidade. Conhecer verdadeiramente a pessoa a quem nos entregamos traz um prazer imensurável, íntimo e renovador. Olhar nos olhos do parceiro com quem estabelecemos fortes vínculos de intimidade e de amor enquanto os corpos se fundem é como afagar-lhe a alma – enquanto a nossa também se afaga. Porém, às vezes não é nada disso que se procura, mas tão somente o descarregar do acúmulo de energia que parece emperrar os sentidos, gritando por uma saída. Nesses casos, o sexo será só pelo sexo mesmo, e ponto – vidas que seguem.

 

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Marcel Camargo
"Escrever é como compartilhar olhares, tão vital quanto respirar".É colunista da CONTI outra desde outubro de 2015.



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