Sem sentido

“O mesmo bar, a mesma lâmpada, a mesma carne, mas todos em vibração, os sentidos multiplicados, intensos, elétricos, o coração quase parando de espanto, o espanto de ter encontrado no meio do deserto uma palmeira, uma palmeira de olhos claros, camisa verde, mãos brancas. Ter encontrado um cravo branco entres os caixotes de lixo atapetando a rua. Ter encontrado o espaço do silêncio dentro de um grito. Ter encontrado um ponto de apoio para o cansaço. Você não me vê, eu não te vejo, mas tenho o coração pálido, as mãos suspensas no meio de um gesto, a voz contida no meio de uma palavra, e você não vê o meu silêncio nem meu movimento dentro dele.” (Caio Fernando Abreu – A chave e a porta)

Agora eu gostaria de te encontrar pela primeira vez, como se nunca antes fosse. Como se fosse nunca. Como se fosse para sempre esse nunca, meio fim de mundo e nascente de tudo. Explosão de existências simples de existir demais. Eu não faria perguntas. Apenas diria, dizeres inocentemente imperativos de desejo: “Me fale sobre você” – “Como?” – Talvez perguntasse, como quem somos, nesse mundo cheio de interrogações precisas e cheias de respostas, perdidos que ficamos diante de interrogações infinitas e sem pretensões – impontuais – “Fale apenas, sobre você” –

Eu responderia: “com silêncios ou poesia, com ruídos ou gritos, com metamorfoses ou métodos, à escolha, a sua escolha, sem defesas ou objetivos, sem as expectativas por quem quer saber, sem… um vazio de interesse de quem é inteiro e sabe – não se define”.

E você me acharia louca, talvez, e, quem sabe, amasse a loucura depois. Seria como se fosse, nunca, quando nos permitimos amar a loucura: eu amo sempre, você ama depois. Eu não sei o que viria, se seriam os êxtases do sopro ou as paixões das histórias, eu não gostaria de responder, nem de perguntar.

Poderíamos falar simplesmente, como pessoas que se conhecem e se desconhecem nas próprias palavras sem saber o porquê, e se perguntam, e se dissolvem nas perguntas, e se enchem de dúvidas, e se esvaziam de tudo, e tão desamparadas de si se encontram, um ao outro, um no outro. Seria, como se fosse nunca, assim como seria, se fossemos infinitos apesar de tudo, apesar dessa totalidade que nos tolhe de existir – a busca.

Nós não teríamos caminhos ou protocolos, não teríamos sequer uma vida, a não ser uma vida – uma só. E saberíamos o quanto os sentidos não fazem sentido, assim como saudades e amor e vida. E sem sentido nós saberíamos viver – a vida: uma só, mesmo que fossem, vidas infinitas, mesmo que seja, uma só.

Então poderíamos rir e falar. Poderíamos rir e calar. Poderíamos nos entregar ao silêncio dos gestos e dos olhos tagarelas sem desconcerto. Poderíamos ser canções inteiras de ontem e melodias seculares, poderíamos ser do amanhã e depois, ou de agosto. Não precisaríamos fazer sentido, e sem sentido, seriamos inteiros, como somos e não sabemos, como somos e não admitimos, como somos nos encontros que recusamos por ousarem em demasia à dentro – perto demais. Temos medo do escuro que guardamos para amanhã. Ou depois. Nunca conhecemos a luz.

Mas eu amo sempre, e eu penso, enquanto bebo com a lua, que nós poderíamos, não sei como, não sei quando, termos nos conhecido assim, sem perguntas, sem pretensões. Ter sido apenas, como ser é impossível, esse instante de gente que somos, sem medo dos julgamentos, saberíamos: nos entendemos. Como eu sei que nos entendemos, embora você não entenda.

É perto demais e os olhos se confundem com lágrimas. É perto demais e parece que vamos nos consumir. É perto demais e a luz parece uma escuridão desoladora. Mas é dia. O sol nasce à meia noite e teremos sempre a lua como companhia. Enquanto o tempo vai eu penso, em vão, eu nunca fui muito de agir a não ser só, talvez, com a lua, e você, esse movimento violento, foi tão longe – um cometa. Perto demais – eu tive que sair de cena para não ver apagar até o fim. Eu te queria infinito.

Agora, nós poderíamos, e eu vejo, porque gosto tanto do alternativo e do descontínuo, do psicodélico e caótico irregular – de. É como o tempo nosso. Esse desencontro todo – um encontro sustenido. Um ruído insuportável se na linha. Uma harmonia irresistível se. Todo o memorável é desobediente. Por trás das armaduras despedaçadas, por trás dos remendos e das ruínas, é certo, somos inteiros como se fosse nunca e a primeira vez. Não fazemos sentido.

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Paula Peregrina
Peregrina de territórios abstratos, graduou-se em Psicologia, trocou o mestrado e uma potencial carreira por uma aventura na Letras e acabou forasteireando nas artes. Cruzando por uma vida de territórios insólitos, perseveram a escrita, a poesia e o olhar crítico, cristalino e estrangeiro de todos os lugares.



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