Segunda adolescência

Por Carolina Vila Nova

Após quase vinte anos, escrever sobre a adolescência que se perdeu em meu caminho é um pouco dolorido. Quando vejo uma menina grávida, já sinto pelos tantos perrengues que ela está prestes a enfrentar. Ser mãe jovem não é tarefa fácil.

Primeiro vem a desilusão, o duro aprendizado do que realmente significa ser mãe: o abrir mão obrigatório de si mesma por um bom tempo. O adeus às noites bem dormidas e ao corpinho perfeito, uma dolorida despedida de tantos amigos, festas, viagens e tanto mais. Sonhos que congelam no tempo.

O observar tantas amigas seguindo em frente, enquanto se para ali, para cuidar de um serzinho muito provavelmente não planejado. E mais provavelmente ainda: sozinha!

segunda adolescencia

Eu me recordo perfeitamente do momento quando minha gravidez foi confirmada. Me lembro de que não me surpreendi, sabia que meu corpo estava diferente. Me senti feliz. Naquele momento, eu não tinha ideia de que aquela felicidade também me custaria um alto preço: a perda de uma época.

Porém, conversando com uma amiga que vive a mesma situação, com um filho de cinco anos, hoje eu pude com muita alegria dar à ela uma visão nova, bem diferente.

Se antes eu vivi na pele a perda de anos tão importantes e divertidos, hoje eu recupero todos eles, só que de uma forma muito melhor. Não sou mais tão jovem, mas continuo jovem. E já que meus passos me levaram a uma maturidade forçada, hoje tenho a chance de viver minha liberdade e juventude com toda leveza de uma adolescente, mas com uma vantagem: sem a idiotice e ingenuidade típicas da fase. A chance de errar com bobagens na adolescência é certa. Agora essa chance não existe.

Ao contrário das minhas amigas que continuaram indo às festas e curtindo seus namoradinhos, hoje elas estão todas em casa, cuidando de seus filhos pequenos. E quando seus filhos tiverem vinte anos, elas já não terão mais a minha, agora, tenra juventude. Se por um lado elas curtiram sua primeira e natural adolescência, eu agora estou curtindo a minha segunda adolescência.

O que pode ser bem melhor do que esperar um filho acordada até de madrugada? Possivelmente embriagado? E estar pronta a passar aquele sermão no indivíduo? É estar com ele na hora do porre. É tirar sarro dele, rir e se divertir com ele e estar ali, pronta pra cuidar dele, como eu não fiz com outros amigos da época.

Melhor do que evitar os erros de meu filho, é estar literalmente ao seu lado, nas baladas, sendo amiga de seus amigos, curtindo a vida junto com ele. Nossas gerações pouco se diferem, gerando uma série de afinidades que nos tornam mais do que mãe e filho; nos tornam amigos. Dezenove anos de diferença, dezenove anos de histórias, dezenove anos de amizade.

Não procuro aqui apoiar a maternidade na juventude, mas não posso negar a alegria de se viver uma segunda adolescência ao lado de quem mais amo e de forma tão natural. Não vou ficar sabendo de seus erros, estarei ao seu lado. Não vou usar uma máscara, como tantos outros, fingindo não ter feito as mesas coisas que agora ele faz. Estarei junto com ele, rindo dele e com ele.

A vida sabe mesmo o que faz. Tira de um lado, devolve do outro. Sorte de quem acredita, sorte de quem percebe. Porque no fundo, acho que não existe o tempo certo para se viver uma situação. O que existe é o jeito certo de se encarar qualquer situação em qualquer tempo.

E viva a juventude dentro de nós! Agora e sempre!

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Carolina Vila Nova é brasileira. Tem cidadania alemã, 40 anos. Escritora e Roteirista. É autora dos seguintes livros: “Minha vida na Alemanha” (Autobiografia), “A dor de Joana” (Romance), “Carolina nua” (Crônicas), “Carolina nua outra vez” (Crônicas), “Vamos vida, me surpreenda!” (Crônicas), “As várias mortes de Amanda” (Romance), “O dia em que os gatos andaram de avião” (Infantil), “O milagre da vida” (Crônicas) e "O beijo que dei em meu pai" (Crônicas). "Nosso Alzheimer." (Romance), Disponíveis na Amazon.com e Amazon.com.br



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