Se alguém abusar da sua boa vontade, o defeito é dele. Não seu.

Sim, alguém vai fazer mau uso da sua bondade, da sua disposição de ajudar, do seu desejo de contribuir. Alguém vai atravessar o samba e desdenhar da sua amizade, atropelar o bom senso, invadir o seu espaço, mexer nas suas coisas, chutar o seu cachorro quando você não estiver olhando. Vai, sim.

Um dia, você vai estender a mão e é provável que lhe passem a perna. Acontece. Quando acontecer, releve. A culpa não é sua. Ainda que um parasita lhe sugue o sangue, que um falso amigo lhe atribua absurdos, manipule os fatos, maldiga sua mãe, mesmo que um cafajeste tome dinheiro emprestado em seu nome, fuja do país e lhe deixe devendo na praça, você não precisa mudar o que é.

Tem sempre alguém por aí disposto a abusar da sua boa vontade. Mas isso não é desculpa para deixar de ser bom. É só um sinal de que é preciso virar a página, voltar para dentro, retomar o rumo e seguir em frente. Decerto, tem alguém em outro canto precisando de você.

Pense bem. Se cada traição, cacetada, esculacho ou desengano sofrido por alguém de bem o fizesse “mudar de lado” e se vingar do mundo, você e eu já nem estaríamos aqui. Nós já nos teríamos destruído sem dó, sem escrúpulos, sem compaixão.

Sem essa antiga, esquisita, inexplicável e poderosa inclinação de alguns de nós para a bondade, a decência e a beleza, o mundo já restaria deserto, vazio de gente. Habitado somente por vermes e demônios e pequenos animais.

Mania estranha essa de jogar a culpa no outro. Sempre “o outro”. Já viu? Fulano defende daqui sua má educação porque todo mundo é grosso, então ele só se adaptou. Sicrano se orgulha de sua esperteza, fura as filas no cinema, no trânsito, até no banco de órgãos porque “o mundo é dos espertos” e, afinal, se ele não fizer assim, outro espertalhão vai fazer no lugar dele. Beltrano, por sua vez, rola na carniça, faz tudo o que é errado e justifica que “é assim mesmo”, que o “mundo inteiro” é desse jeito e que ele só está fazendo o mesmo por questão de sobrevivência.

Então, quando uma boa alma perverte essa lógica e faz o que lhe parece uma coisa boa, alguém avisa profético e pragmático:

“Não seja trouxa. Ninguém vai fazer o mesmo por você.”

A boa alma responde: “e daí? Faço porque quero. Não porque espero que façam o mesmo por mim”.

Ela faz porque quer. Mas eu tenho a impressão de que ela faz mesmo é porque desconfia de que tantas desculpas, conjecturas e pressupostos para nos isentar da responsabilidade de fazer o que é certo e o que é bom estão nos transformando em cínicos fantásticos, hipócritas colossais, especialistas em esperar que a salvação para todos os nossos problemas desabe do céu sem mais.

Não, do céu não vai cair. É preciso fazer o que é bom agora. E se uma pessoa aqui e outra ali não souberem receber ou abusarem da sua boa vontade, o problema será delas. Não seu.

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André J. Gomes
Jornalista de formação, publicitário de ofício, professor por desafio e escritor por amor à causa.



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