“Saia curta”, uma conto sobre a realidade de meninas abusadas

Por Helder Faife

Quando percebeu a investida do homem ela lembrou-se dos conselhos da mãe: Põe capulana filha. O teu corpo de mulher, minha filha, é como um país. Um país não deve andar de saia curta, a vulgarizar as suas riquezas, a expor as cicatrizes íntimas. Há estrangeiros sérios, que querem parcerias sérias, também há políticos sérios, mas se vêem um país assim, de saia curta, vão se aproveitar. Se todos os países tivessem mães que lhes aconselhassem nem haveria guerras neste mundo, garanto-te. Mas uma menina tem mãe para aconselhá-la. Põe capulana minha filha. Tapa as vergonhas. A honra de uma mulher é como a paz de um país. Deve ser bem guardada debaixo das saias.
– Hiii!!!
Com o grito espremido das vísceras, a menina retraiu o ventre em sobressalto. As duas mãos, com gestos gémeos, repeliram as intenções do homem. Uma no peito grisalho empurrou-o, enquanto a outra afastava a mão dele dali donde é fragil a paz da adolescência.
– Não tenhas medo – convencia o homem.
– Aqui é o futuro tio. Futuro não se chega hoje. Só amanhã. – Repetia de cor e salteado os conselhos maternos. – Minha mãe disse que aqui é a paz da mulher. A paz deve permanecer virgem.
Estavam deitados, pareciam duas linhas do horizonte sobrepostas. Uma em alvorada e a outra anoitecendo. Ele queria anoitecê-la. Ela queria amanhecer-se nele. Ele queria o escuro, o pecado, sexo. Ela queria a luz, as flores, as borboletas, beijinhos, como nas telenovelas.
O escuro entrava devagarinho pela janela. As bocas assobiavam uma na outra. Só ouviam a respiração um do outro. Nem a voz infantil da menina a chamá-lo “tio” lhe trouxe o pudor de ter idade para lhe ser avô.
– Hiii, tio..
– Fica calma, não vai doer.
– Hiii, tenho medo. Minha mãe disse que…
As portas e as janelas de uma mulher abrem-se com promessas. Acariciou-lhe as tranças do cabelo e prometeu:
– Vou te comprar extensões.
Ela sorriu receptiva. O rosto ganhou esplendor de pétalas. Era uma menina de muitos recursos naturais: no centro do corpo o volume do quadril, e a norte as manguinhas do peito, ainda que verdes, mas já comestíveis, aos olhos dele. Olhou para ela de cima para baixo, de baixo para cima contemplando as delicadezas realçadas nos trajes adolescentes. Sorveu o fio de baba que lhe escorria pelo canto do lábio. Deixou a mão seguir o percurso das vontades. Partiu do sul, subiu até o joelho. Devagarinho, ensinando a vontade a não ter pressa.
– Hiii, tio…
Fez outra promessa e ela mais receptiva. O corpo tem códicos complexos, precisa ser decifrado lentamente. A mão subia para baixo da saia curta. Começou a pôr-lhe legendas no corpo, desflorá-la das roupas. Passeava pelas localidades da coxa tenra, os planaltos do quadril farto, sem pressa. Contornou-lhe o Inchope. Passou pela Gorongosa traseira. A flora da penugem adolescente. O cheiro do mato. Chegou a Muxúngue. A situação em Muxúngue estava tensa, nervosa, ela não o deixou entrar, de joelhos colados um protegendo o outro.
– Minha mãe disse que aqui é a paz da mulher. A paz não deve sangrar.
– Calma. Não dói nada.
– No Muxúngue não tio.
Uma última promessa escancarou as licenças. Medo. Hesitação. O hímen. A dor. Gemidos. Depois gritos. Ai. Ui, devagar tio.
– Fica calma.
– Está a doer tio. Pára. Pára.
O coito é uma guerra entre corpos. O cio é um exército. O homem atacou-a grunhindo prazeres. Emboscou-a com braços e pernas. Investia com a bacia movimentos bélicos. Desatou aos tiros, tiros, tiros sobre ela. Desarmou-a. No fim gargalhou, arfando. Limpou o suor e o sangue no corpo, nas mãos, nas garras e nos dentes. Devolveu a AKM à braguilha e foi-se embora sem cumprir as promessas.
Desamparada e suja, o vento soprava-lhe à memoria os conselhos da mãe: O corpo é um país onde não há democracia minha filha. Por baixo das saias está a paz da mulher. Põe capulana filha. Soluçou prostrada. Um rio de arrependimento escorreu-lhe a face quando sentiu que o corpo assim caído e desonrado era um país no chão, estuprado, usado, a sangrar pelo Muxúngue.
 

capa saia

+ Helder Faife

 

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