Rubem Alves: o educador da sensibilidade

Amigos falam do grande humanista que transformou suas decepções em força criadora.

Quando era criança, Rubem olhava para a chuva e tinha medo que ela caísse toda em cima dele de uma vez, e não em gotas. Permitia-se maravilhar pela chuva acontecer de um jeito e não de outro. É preciso se deixar provocar pelas perguntas, para que elas impulsionem transformações significativas. Era nisso que acreditava.

Assim como acreditava que precisamos de tempo para aproveitar as coisas boas da vida. “O prazer demanda tempo”, devaneava.  Vida é para isso: gastar tempo. Sendo assim, ganhar tempo é, de certa forma, estragar tempo.

Teve uma vida marcada por desilusões. Diz ter se desiludido com a religião e também com amor. A partir daí, sentiu liberdade para ultrapassar, para ir sempre adiante, construindo seus próprios momentos de liberdade, tijolo a tijolo.

O seu hoje tão reconhecido humanismo foi elaborado quando, denunciado à ditadura por alguém muito próximo, foi para o exílio, em 1964. Depois de uma primeira fase marcadamente teológica, Rubem passou a tentar compreender a experiência religiosa a partir do próprio humano. Essa foi sua preocupação durante o árduo forçado afastamento do país.

Tempos depois, já no final da década de 1970, passou a ter uma visão mais aberta e mais crítica da ciência e é convidado pela Unicamp a integrar a faculdade de educação. Ali começam a surgir os lampejos da sua visão educacional que também o tornariam enormemente conhecido, publicando obras como Estórias de Quem Gosta de Ensinar e Conversas com Quem Gosta de Ensinar.

Depois do nascimento da filha Raquel (hoje presidente do instituto que leva o nome do pai), Rubem deu espaço para uma poética maior em seus textos e quebra um pouco a linguagem acadêmica e dura de seus livros anteriores. É justamente esse autor que costuma ser largamente citado e reproduzido, principalmente nas redes sociais. Suas crônicas cativam pela leveza e pelo profundo mergulho na condição humana que proporciona ao leitor.

“O mundo acadêmico é um lugar perigoso. Dá medo. É muito difícil viver na universidade e continuar a cultivar os próprios pensamentos. É muito mais seguro ficar moendo o pensamento dos outros”, declarou no documentário Rubem Alves, O Professor de Espantos, dirigido por Dulce Queiroz.

Um homem à frente do seu tempo, foi um dos fundadores da Teologia da Libertação. Crítico do tecnicismo, defensor da valorização do sentimento e da sensibilidade humana, ele foi, junto de Paulo Freire, um dos maiores críticos do ensino tradicional.

Humanista de mão cheia, se interessou pelos mais diversos assuntos e até música chegou a estudar. “Eu gosto muito de música clássica. Comecei a ouvir música clássica antes de nascer, quando eu ainda estava na barriga da minha mãe. Ela era pianista e tocava… Sem nada ouvir eu ouvia. E assim a música clássica se misturou com minha carne e meu sangue”, escreveu em coluna publicada no portal O Aprendiz, do Uol.

Se apaixonou pelo piano após assistir uma apresentação do renomado intérprete Alexander Brailowsky e viu ali a oportunidade de ser respeitado por seus colegas, já que se via fora como peixe fora d’água entre os mesmos por ter vindo do interior mineiro para estudar em colégio de elite no Rio de Janeiro.

“Para mim era uma fantasia de ultrapassar a humilhação”, disse para a câmera de Dulce Queiroz. “E se eu estivesse no palco? Todas as humilhações seriam jogadas fora. Eu fiquei com a ideia na cabeça de que podia ser pianista, só que eu não sabia das coisas de Deus.”

E isso é só o começo.

CARINHO E GENEROSIDADE

Silvionê Chaves, 60 anos, é professor e ator. Fundou a Cia. Teatral Matéria Vertente, em 1992. Foi a primeira pessoa a levar as crônicas de Rubem Alves para o teatro, com a peça de nome Cardápio Rubem Alves.

Tudo começou em 2011, quando Silvionê foi apresentar o espetáculo Cartas ao Professor num congresso de professores na cidade de Ilhéus, Bahia. Todos os palestrantes do evento estavam hospedados no mesmo hotel e por uma dessas coincidências da vida, o jovem ator se encontrou com nosso perfilado.

“Quando desci para tomar o café da manhã, vi Rubem Alves sozinho em uma mesa. Aproximei dele e comecei a dizer alguns textos de sua autoria. Ele olhou para mim admirado. Convidou-me para sentar. Conversamos bastante. Contei-lhe minha história e da minha admiração pelos seus textos e o quão eles faziam bem para a minha alma”, conta Silvionê.

“Perguntei-lhe se algum grupo de teatro já havia encenado suas crônicas. Disse-me que não. Fiz lhe uma proposta de trabalhar cenicamente algumas de suas crônicas. Ele imediatamente gostou e aprovou a ideia. Dessa forma, nasceu o espetáculo.”

O nome da peça foi dado pelo próprio Rubem, logo após aquele inusitado café. O espetáculo foi encenado já no ano seguinte, no salão de festas do prédio onde Rubem morava, sob a direção de Marco Antonio Garbellini e Luan Chaves, filho de Silvionê.

Durante o processo de criação, Silvionê ia até o seu apartamento em Campinas. “Ele me recebia com o maior carinho e terminávamos nossas conversas em torno da mesa, onde me oferecia suco com alguns quitutes”, rememora com carinho. “Nesses encontros, ele me presenteava com suas ‘estórias’. Eu me deliciava com elas. Era impossível voltar para casa da mesma forma depois de um encontro com ele. E ao despedirmos ele sempre me oferecia algum livro. Na minha estante, eu tenho 36 livros infantis e 41 livros adultos de sua autoria.”

Mesmo tendo convivido por pouco tempo com Rubem Alves, Silvionê diz que foi um acontecimento que o modificou e que transformou o mineiro numa espécie de guia.

“Ele é para mim um guia espiritual. Todos os dias alimento-me de seus textos, que aliás era um de seus desejos.” Ao fazer tal afirmação, o ator tem em mente um trecho de um texto de Rubem que diz: Não desejo que você simplesmente “entenda” o que escrevo. Entender é um ato racional. O que eu desejo é que o meu texto seja comido antropofagicamente. Quero que você sinta o meu gosto.

Para ele, Rubem Alves foi “um educador que teve um caso de amor com a vida e que era apaixonado pelos ipês amarelos”.

MEMÓRIA VIVA

Enquanto Rubem ainda estava vivo, o professor, educador, biólogo e empresário Samuel Lago, 76 anos, empreendeu a corajosa tarefa de esmiuçar dezenas de livros lançados pelo educador e extrair o sumo, a essência do seu pensamento. A difícil tarefa resultou na coleção Pensamento Vivo de Rubem Alves e no livro O Melhor de Rubem Alves, todos publicados pela Editora Nossa Cultura, da qual Samuel é dono.

O primeiro título trazia crônicas que estavam esquecidas há décadas em jornais de Campinas e São Paulo e que nunca tinham sido publicadas em livros. “Deu muito trabalho coletá-las! Mas fiz!”, afirma Samuel. Já o segundo surgiu por um desejo de realizar uma síntese dos vários temas que eram caros para Rubem (educação, religião, filosofia, política, poesia, etc.)

“Na época li cerca de 80 livros (hoje são mais de 100) para sintetizar o melhor”, relembra o amigo e editor. “Fiz isso pelos leitores de Rubem Alves. Além disso, com autorização das quatro editoras que publicavam os livros do Rubem Alves, toda a renda da venda do livro O Melhor de Rubem Alves é destinada ao hospital Pequeno Príncipe, em Curitiba. Procurei resgatar duas ações que amo: resgatar uma memória e ajudar o próximo!”.

Samuel Lago também foi responsável por outros lançamentos com a obra do autor. “Sempre que passava por Campinas ia visita-lo e jantar com a família. Gravei lá em Campinas, no apartamento dele horas de conversa no DVD designado Uma tarde com Rubem Alves.”

Rubem e Samuel se conheceram pessoalmente durante uma viagem à Patagônia Chilena, mas Samuel já era leitor ávido daquele que viria a se tornar seu comparsa e editorialmente chancelado. Costumavam se frequentar e discutir muito sobre tudo.

Das lembranças que mais marcaram, Lago se lembra das longas conversas que tinham em seu apartamento em Curitiba, onde Rubem se hospedava quando estava na cidade. Essas conversas costumavam ir madrugada adentro e os dois aproveitavam o encontro para refletirem juntos sobre ética, religião, filosofia e natureza, entre outras coisas.  “É claro que tomando um uisquezinho Jack Daniels que ele adorava”, confessa Samuel.

Como lição pessoal, diz que aprendeu com Rubem a “amar a natureza, a vida, e a si próprio para então amar o próximo. Pensar, duvidar, contestar o status quo vigente!”.

AMIZADE DURADOURA

No final da década de 1970, era costume da Universidade Católica de Campinas organizar o evento conhecido como Semana de Filosofia. Nesse período não havia aulas e os alunos passavam os dias discutindo temas filosóficos. Rubem Alves era figurinha carimbada nesses eventos, sempre falando sobre algum tópico. Foi nesse período que Antonio Vidal Nunes, 60 anos, teve o primeiro contato com seu futuro grande amigo e mentor.

“Eu gostava muito de vê-lo falar. Na verdade não entendia muito bem o que ele dizia, mas me encantava a forma como ele falava. Sempre muito apaixonado e isso me encantava”, rememora o professor da Universidade Federal do Espírito Santo e estudioso da obra de Rubem – Antonio também foi orientando dele e os dois por muito tempo estiveram próximos.

Em 1996 eles se encontrariam de novo, dessa vez para discutirem o interesse de Vidal em escrever sua tese de doutorado sobre o pensamento pedagógico de Rubem. O antigo orientador foi receptivo à ideia e deu todo apoio. Anos depois, a mesma tese foi publicada no livro Corpo, Linguagem e Educação dos Sentidos no Pensamento de Rubem Alves (Paulus, 2008).

Antes, Antonio Vidal havia organizado o livro O Que Eles Pensam de Rubem Alves e de seu Humanismo na Religião, na Educação e na Poesia (Paulus, 2007), uma compilação de textos de amigos, colegas, intelectuais, pesquisadores e ex-alunos – gente de vários lugares do globo – sobre a vida e a obra do multifacetado mestre. Trabalho que até hoje pode ser facilmente considerado como referência no estudo de Rubem Alves.

Na época em que desenvolvia seus estudos sobre o pensamento do amigo, chegou a ser criticado por se dispor a estudar e pesquisar alguém que ainda estivesse vivo. Uma mostra tacanha da premissa que perdura até hoje no meio acadêmico, que basicamente prega que homenageado bom é homenageado morto – Para a nossa sorte e visível alegria de Rubem, pessoas como Silvionê, Samuel e Antonio ousaram discordar disso.

OS CANOEIROS DA TERCEIRA MARGEM

De 1997 a 2000, enquanto fazia suas pesquisas para a finalização da tese, Antonio frequentou o sarau de poesia que acontecia todas as terças no famigerado e aparentemente agitado apartamento de Rubem Alves, em Campinas.

O grupo foi criado depois de sua aposentadoria da Unicamp e era coordenado pelo próprio Rubem, que o batizou de Canoeiros da Terceira Margem. Os encontros com direito a sopa preparado pelo próprio anfitrião e por vinhos, recebia em torno de 25 pessoas por noite. Uma experiência que marcou Antonio.

“Eu diria que Rubem foi também um dos educadores da minha sensibilidade. Ele me iniciou na poética, na leitura dos poetas”, conta. Dos nomes que costumavam aparecer nas mãos e bocas dos participantes estavam Fernando Pessoa, Clarice Lispector e Chico Buarque, de quem, segundo Nunes, Rubem gostava muito de algumas letras. “Cada noite ele separava algumas poesias de alguns poetas diferentes e a gente passava umas duas ou três horas juntos.”

Os Canoeiros da Terceira Margem ficaram em atividade até 2012, quando os problemas de saúde do entusiasta Rubem começaram a se agravar, impedindo-o de participar das reuniões com assiduidade.

TRABALHO CONTÍNUO

“Depois que eu fiz os trabalhos sobre ele eu ainda percebo que o compreendi pouco. Há muita coisa do mundo do Rubem, do pensamento dele que a gente vai dando maior precisão, que a gente vai compreendendo melhor com o tempo”, conclui Antonio Vidal, mesmo depois de dedicar grande parte da sua vida a se aprofundar na imensidão de Rubem Alves.

Avalia ainda que o grande pensador e humanista brasileiro tomou para si a bonita missão de “desvelar a beleza adormecida que se encontra em cada ser humano” e trabalhava para que a vida fosse mais bonita e para que “pudesse ser vivida em plenitude”.

Vidal, assim como muitos dos seus leitores, vê o antigo mestre como alguém que “não tinha medo de trocar as estradas batidas pelas veredas desconhecidas. Aquele que trocava a tranqüilidade ilusória do porto seguro pelo risco do mar aberto.”

Teólogo, educador, filósofo, psicanalista, cronista, escritor ou simplesmente um homem que amava viver: todas definições vagas para um ser humano do porte e magnitude de Rubem Alves, constato antes de me atrever a colocar ponto final em uma trajetória que permanece vigorosa e reticente. Por isso, é assim que o repórter decide encerrar a reportagem: com duradouras e respeitosas reticências…

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Jocê Rodrigues
É escritor, editor e repórter responsável pelo conteúdo jornalístico do CONTI outra.

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