As certezas do mundo adulto nos infantilizam, diz psicóloga.

Fotografia: Ana Shiokawa

Aos 66 anos, Rosely Sayão tem uma agenda mais lotada que estádio do Maracanã em dia de FlaFlu. Ligo para ela numa segunda-feira. Ela me atende com um tom de voz formal, sério. Não pode falar naquele momento e em nenhum outro daquela semana. Pergunta se posso retornar na próxima segunda para agendar a entrevista. Posso.

Ligo então no dia combinado e marcamos uma conversa para a quarta-feira. Nestes primeiros contatos, Rosely se mostra muito bem educada, mantem-se distante na medida certa para impedir qualquer observação apressada. Nesse entretempo, chego a pensar em enxugar a pauta para não lhe ocupar muito tempo e paciência, mas qual não foi a minha surpresa quando aquela senhora de postura formal se mostrou uma atenciosa e bem humorada locutora.

Rosely Sayão é psicóloga, consultora em educação e autora de livros como Educação sem blá-blá-blá (Três Estrelas, 2016) e Em defesa da Escola (Papirus Editora, 2004). Dona de vasto repertório conceitual, metodológico e científico, é uma das principais vozes da educação contemporânea no Brasil. Em suas colunas na Folha de São Paulo e na Band News FM, discute temas espinhosos de maneira clara e objetiva. Pois é, a mulher trabalha muito e tinha acabado de chegar de um compromisso quando finalmente me atendeu para uma entrevista exclusiva para a CONTI outra, onde falou das dificuldades e percalços não apenas na educação, mas também na relação cada vez mais complicada entre pais e filhos.

Rosely já era formada em psicologia quando teve o primeiro dos dois filhos e foi na raça que aprendeu a ser mãe. Na época, os amigos que tinham crianças com a mesma faixa etária costumavam dizer que para ela deveria ser mais fácil criar os filhos, já que era psicóloga. “Não é não. É mais difícil. Porque eu errava como todos. Só que, depois, quando eles iam dormir, eu sabia exatamente onde tinha errado”, lembra. “Os filhos ensinam a gente a ser mãe. Não é que eles ensinam nesse sentido daquilo que eu devo fazer. É com o filho, que muda dia a dia, que a gente vai aprendendo a construir o papel de mãe”.

Rosely acha importante salientar o respeito à individualidade de cada filho enquanto pessoa e que a fase de cada um deles é diferente. “Eu tenho um casal, então, me relacionar com a minha filha mais velha foi um aprendizado que depois não adiantou nada para me relacionar com meu filho. A mãe tem o mesmo endereço, mas não age da mesma maneira”, conclui.

Durante a infância e boa parte da juventude, Rosely Sayão costumava se reunir com a família em volta da mesa. Era um rito que fazia com que os laços familiares fossem renovados e discutidos e que hoje anda meio démodé para muita gente. “A mesa, no sentido material, faz com que as pessoas olhem umas para as outras. Não é um balcão. Enfim, ela pode ser oval, quadrada, retangular, redonda, mas as pessoas sentadas estão sempre voltadas umas para as outras. Isso facilita a reunião”, explica Rosely sobre o poder simbólico que tem essa mobília tão negligenciada pela pressa e pelo desinteresse de contato real.

“Eu considero que o aspecto mais importante do alimento é o de ser mediador social. Enquanto a gente come, a gente conversa, às vezes discute, às vezes briga, faz as pazes, opina sobre tudo e é assim que os afetos familiares se atualizam. É uma comunhão. Eu acho bonita essa palavra usada para alimentação em família.” Rosely também observa que as famílias contemporâneas podem até não partilhar da mesa em casa, mas que vão muito a restaurantes e lanchonetes. O problema é que pouco olham um para o outro e conversam entre si. A atenção está quase sempre voltada para o celular e para o tablet.

Confessa ficar impressionada quando vê uma família ou um casal entrar num restaurante, comer e sair sem trocar uma palavra sequer. Para ela, que foi influenciada de maneira positiva pelos rituais da mesa, o hábito da refeição familiar faz falta em nossa sociedade e afirma que “uma refeição pelo menos juntos – se não der todo dia, pelo uma vez na semana ou duas – ajuda a dinâmica familiar a se estabelecer”.

Outro tipo de comportamento comum entre os pais é o de tentarem se colocar para os filhos como amigos e não como figuras com autoridade. Segundo Rosely, isso não é saudável. “Não pode ser saudável, porque eles não são nem amigos nem parceiros nem nada; eles são pais. Quando eles (os pais) assumem outro papel, as crianças ficam órfãs de pai e mãe”, diz. “Agora, isso é resultado dessa ideologia fortíssima que nós entramos de que precisamos ser jovens a qualquer custo. Essa posição é fruto dessa ideologia da juventude eterna, do ser jovem até morrer”.

A esse fenômeno está atrelada a falta de conflitos entre gerações, que Rosely considera indispensável. Resumo da ópera: hoje em dia ninguém quer ser careta e sobra para os jovens, que acabam assumindo posições mais tradicionalistas para que assim tenham com quem brigar.

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Certezas Digitais

Um dos assuntos sobre os quais Rosely mais tem respondido é sobre o papel da tecnologia na sociedade contemporânea. Durante a conversa, ela se lembra entre risos de um amigo professor da USP que diz odiar o Google por ele ter acabado com nossa possibilidade de ter dúvidas. Rosely de certa forma concorda e diz que ter dúvidas é ótimo. “O mundo adulto é cheio de certezas e é cheio de criancices também. A criança tem certeza de tudo. Isso não deixa de ser uma infantilidade. Ela tem certeza de que vai dormir e acordar; ela tem certeza de que o papai e a mamãe estarão lá; ela tem certeza que vai ganhar presente no natal e que papai Noel vai dar o presente que ela pediu. A vida na infância é cheia de certezas e eu vejo o mundo adulto muito infantilizado hoje”, avalia.

“Eu não considero a tecnologia um problema. Eu acho que ela tem sido um refúgio para os adultos que não sabem mais se relacionar. A gente perdeu a mão de o que é conversar com outras pessoas, ouvi-las. A gente entrou numa de querer convencer os outros de que nosso ponto de vista é melhor”, comenta, antes de explicar que podemos contestar ideias e que é importante não sair por aí aceitando qualquer uma delas, mas defende que isso deve ser feito de maneira racional e não agressiva.

“O mais importante na vida é o relacionamento humano. É isso que nos ajuda a crescer, que nos interpela, que nos contesta; que nos faz repensar nossas posições; que faz a gente cultivar algumas virtudes. Hoje, o outro é invisível. Eu olho para o outro e vejo eu mesmo”, analisa. “E quando o outro não é o meu espelho, eu tento fazer com que seja. Se não tivermos posições diferentes no mundo, a vida vira uma chatice, não vai sair do mesmo lugar nunca mais. É isso que está difícil das pessoas entenderem”, completa.

Na opinião de Rosely, os professores, mesmo os mais jovens, ainda têm muito que caminhar em relação ao uso da tecnologia como ferramenta educacional. “Eu acho que poderia ter um uso interessantíssimo se fosse aliada do aprendizado, da reflexão, da pesquisa, da metodologia científica. Nós ainda não alcançamos esse patamar no uso da tecnologia”, diz. “Nós ainda temos olhar analógico e digital. Quando acabar a geração que ainda tem olhar analógico, talvez o pessoal consiga ter uso melhor e profissional para a tecnologia, que pode ser muito bem utilizada tanto na docência como em qualquer área científica”.

Luz no Fim do Túnel

Os pais estão muito mais presentes dentro das escolas dos filhos do que deveriam estar. Esse é o diagnóstico de Rosely, que atualmente estuda para escrever sobre o assunto com mais profundidade e de um jeito que não faça com que os pais queiram queimá-la em praça pública. Ela acredita que os pais “ficam sabendo de tudo o que eles fazem na escola, mas não deveriam saber, porque a escola é um lugar social; é o primeiro lugar social que a criança frequenta, onde ela deveria aprender a se virar sozinha, ser diferente daquilo que os pais querem que ela seja em casa”.

Outro assunto que tem gerado polêmica é sobre o questionamento de cânones como a lição de casa. “Eu sou absolutamente contrária a essa ideia de lição de casa” se posiciona. Sugere que em seu lugar poderiam ser propostos desafios, mas apenas de vez em quando e que fossem mesmo desafios para os estudantes. Rosely aponta que a escola ficou refém da demanda da sociedade que os pais representam e que por isso ela, a escola, acha que se não der lição de casa os pais vão ficar descontentes e o aluno é quem acaba pagando o pato. “Lição de casa não faz o menor sentido. Não é bom para os alunos, não é bom para os pais e não é bom para os professores. Não é bom para ninguém e a gente insiste”, critica.

O quadro tem mudado e algumas escolas já têm diminuído a carga de dever de casa. Ainda não são muitas, mas Rosely aposta que, à medida que essas escolas tiverem mais apoio da comunidade, isso pode afetar as outras também.

No seu entendimento, a relação entre psicologia e educação também não anda muito bem. “A maioria dos psicólogos que trabalham em escola ainda carrega uma formação de dar diagnóstico e sobram nomes complicados que a psicologia empresta à educação: discalculia, psicopedagogia, déficit de atenção, dislexia. Mas, quando a gente pega um desses temas e vai estudar, não há consenso científico. Nenhum deles. Então, eu vejo que a psicologia na educação carece de fundamentação teórica, científica e metodológica”.

Mesmo com tantos empecilhos no caminho do aprendizado e das relações familiares, Rosely Sayão é do tipo de pessoa que se recusa a engrossar o coro dos pessimistas e mantém as esperanças. “Eu boto fé na humanidade ainda; não sei por quanto tempo, mas ainda boto (risos). Ainda acho que a humanidade tem talento para ser humanidade”.

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Jocê Rodrigues
É escritor, editor e repórter responsável pelo conteúdo jornalístico do CONTI outra.



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