Rocambole de escritor

Ontem, meu chefe, diretor de uma multinacional, disse-me: “Você é muito criativa, esse espaço aqui é muito pequeno para sua criatividade”. Suas palavras me impressionaram, por sua percepção. Eu sabia da verdade contida nessa constatação. Mas surpreendeu-me, por ter vindo de alguém que ainda não lê em português e, consequentemente, também não lê meus textos. Não leu meus livros, mas teve capacidade de ler a minha alma.

Meu filho com certa frequência citou, em tom de reclamação, o fato de que, toda vez que quero expôr uma opinião ou argumentação, eu começo lá de longe. Rodeio em círculos, vou e volto, para mais tarde ligar os fatos e fazer uma conclusão. Como ele me explicou, parece um rocambole e não é objetivo.

E, recentemente, eu assisti a um filme com a atriz Glória Pires, em que ela fazia uma afirmação que me tocou por dentro. Ela dizia, com a segurança de sua personagem no filme Flores Raras: “Eu nasci arquiteta!”. Sua frase me emocionou tanto, a ponto de eu perder a cena seguinte. Fiquei tentando entender por que a afirmação da personagem tinha mexido tanto comigo.

E aqui está mais um rocambole. Três assuntos que inicialmente não devem aparentar muito em comum. Fato é que, dentro de mim, os três parágrafos acima se juntaram em algum lugar do meu cérebro e me fizeram perceber o quão peculiar é ser escritora.

Meu chefe tem toda razão, tenho uma criatividade sem fim. E sem limites. Mas meu filho também fez uma afirmação correta: falo em rodeios, misturo pessoas e assuntos e, só no final, eles fazem uma conexão. Pode vir a ser demorado. Nem todo mundo quer ouvir. E a personagem arquiteta de Glória Píres me causou um certo ciúmes. Ciúmes por eu mesma ter demorado tanto a me definir como escritora.

Tem gente que já sabe, que já leu: eu levei quase 38 anos e 8 livros para afirmar, com liberdade, a frase: “Eu sou escritora”, quando, na verdade, hoje eu sei e afirmo com o maior orgulho de todos: “Eu nasci escritora”.

Não porque tenho a gramática impecável e um mundo de imaginação. Mas, simplesmente, por que as palavras me escorrem pelos dedos, com simplicidade e naturalidade. E, antes disso, elas se encontram prontas, em questão de segundos, na minha criatividade sem fim.

Escrevo desde criança, com um exímio que adultos não acreditaram que era eu quem tinha escrito. Não digo isso como a melhor escritora do mundo, nem do país, nem da minha cidade. Mas de mim mesma, porque escrever alguma coisa, o que quer que seja, tem que ser sentido em primeiro lugar.

O olhar do escritor é outro, é mais profundo, detalhista e geral ao mesmo tempo. O escritor é um visionário. Ele vê uma cena e a enxerga como ela é, sente. Em seguida, reflete sobre como era antes, o porquê. E como será depois e quais efeitos acontecerão com essa mudança.

Já escrevi história de trás para a frente, de adulto e de criança, crítica e poesia, além daquilo que é impublicável.

É certo. Não deve ser fácil acompanhar minhas argumentações. Mil ideias chegam, ao mesmo tempo, de pessoas, lugares e situações diferentes, que se juntam em algum momento, num mesmo sentir, e que se transformam em algo novo, que ninguém tinha percebido antes.

Na minha cabeça, existem diversos filmes, histórias, prontas para serem escritas. Pena que me falta tempo. São muitos rocamboles para contar.

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Carolina Vila Nova é brasileira. Tem cidadania alemã, 40 anos. Escritora e Roteirista. É autora dos seguintes livros: “Minha vida na Alemanha” (Autobiografia), “A dor de Joana” (Romance), “Carolina nua” (Crônicas), “Carolina nua outra vez” (Crônicas), “Vamos vida, me surpreenda!” (Crônicas), “As várias mortes de Amanda” (Romance), “O dia em que os gatos andaram de avião” (Infantil), “O milagre da vida” (Crônicas) e "O beijo que dei em meu pai" (Crônicas). "Nosso Alzheimer." (Romance), Disponíveis na Amazon.com e Amazon.com.br

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