Relação ou Servidão?

“Se nós, nas travessuras das noites eternas

Já confundimos tanto as nossas pernas

Diz com que pernas eu devo seguir”*

Bem cantou Chico Buarque em sua canção “Eu Te Amo” como pode ser uma falsa relação de amor, vulgo simbiótica, entre dois apaixonados que não se desgrudam para nada. Que efetivamente vivem um para o outro. Que se jogaram de cabeça em um querer alucinado onde as trocas, comuns em todo tipo de relacionamento, deixaram de ser escolhas para, com o tempo, se tornarem obrigações.

Um dos primeiros a tratar da complexa relação simbiótica entre duas pessoas foi Erich Fromm, psicanalista alemão, filósofo e sociólogo, que atribuiu o termo simbiose incestuosa para esse tipo de relação onde geralmente um incorpora o papel de manipulador e o outro de manipulado, com possíveis inversões.

Um amor simbiótico começa com um ideal bonito de amor romântico, onde um supre todas as necessidades do outro. Contudo acaba se moldando gradativamente até se tornar um tipo de troca custosa, com altas exigências, quase sempre relacionadas ao fim de qualquer tipo de iniciativa individual. Com o tempo vai faltando a esse casal qualquer tipo de autonomia e independência.

Podemos denominar autonomia como a capacidade de realizar atividades por conta própria e independência como o poder de ter iniciativa por conta própria. Sem elas, sem essas duas características, a individualidade do casal lentamente se dissipa e os dois viram um todo uniforme no qual não se distingue mais quem é quem.

Então, essa relação deixa de se dar em função do desenvolvimento dos dois apaixonados, mas sim pela sobrevivência dos dois. Um não pode mais sobreviver sem o outro. Nenhum dos dois se lembra mais de quem efetivamente é.

“Se entornaste a nossa sorte pelo chão

Se na bagunça do teu coração

Meu sangue errou de veia e se perdeu”*

Mas como a vida é infinita em suas possibilidades e quase sempre cobra mudanças, esse relacionamento tende a se desequilibrar no instante em que um dos envolvidos se sente sufocado, levando o outro à insegurança. Esses papéis passam a se alternar então, ora um assumindo o papel do inseguro, demonstrando crises de ciúmes e a vontade de impedir o outro de socializar, ora o outro assumindo o papel de quem não suporta mais qualquer tipo de controle e vigilância.

Esse “sentir-se sufocado” quase sempre nasce da vontade de novas experiências de um dos lados, vontades essas que podem ser bastante corriqueiras. Então tomar um sorvete na esquina, sem avisos prévios, pode levar esse relacionamento a uma crise, mas eu diria que essa é uma boa crise. Nesse ponto ou o relacionamento continua sem a simbiose ou ele efetivamente termina.

E terminar um relacionamento desses não é nem de longe fácil, tão pouco lutar pela manutenção dele sem cair em velhas armadilhas.

Depois de um longo tempo dentro de uma relação simbiótica é difícil lembrarmos de quem efetivamente somos. Quase sempre, por mais insatisfeita que uma pessoa esteja, ela não se recorda do que efetivamente apreciava fazer, falar, ouvir e comer antes dessa relação castradora e isso gera uma imensa insegurança.

“Não, acho que estás te fazendo de tonta

Te dei meus olhos pra tomares conta

Agora conta como hei de partir”*

Em grande parte das vezes uma pessoa precisa estar madura emocionalmente para conseguir dar um basta a essa simbiose comportamental, para não voltar a ela pelo medo do desconhecido, da solidão e de enfrentar fraquezas e tormentos interiores, velados por tantos anos.

É preciso saber enfrentar a angústia do fim com muita honestidade, coragem, disposição e diálogo para poder virar a página de um capítulo deveras longo e cheio de sacrifícios pessoais que quase sempre não levaram a lugar algum.

Um relacionamento só é saudável, quando não precisamos do outro para nossa sobrevivência. Todo casal precisa manter uma certa distinção entre um e outro, garantindo que a personalidade de cada um seja preservada. O amor verdadeiro soma, engrandece, corrige para a melhoria, norteia, aponta para as boas possibilidades, perdoa e aceita. Um casal saudável colabora um com o outro de forma respeitosa e juntos constroem projetos comuns que podem trazer felicidade para ambos e não só para uma das partes.

Aceitar uma relação simbiótica, tanto no papel de manipulador, nesse caso desconhecendo qualquer resquício do que é efetivamente o amor, ou de manipulado, recebendo ordens quase sempre contrárias ao ímpeto pessoal, é se deixar morrer vivo, é aceitar vagar pelo mundo como um zumbi que sorri ao falar de amor, mas que desconhece a felicidade trazida por ele.

Todos merecemos o amor verdadeiro e todas as suas maravilhosas possibilidades. E absolutamente todos nós corremos o risco de um dia nos equivocarmos quanto a ele. Cabe somente a nós, ao notarmos um caminho torto, nunca nos entregarmos rendidos a ele.

Sempre é tempo de reparar uma relação e se preciso recomeçar. Enquanto vivermos sempre haverá em nossa frente um leque de possibilidades. Escolher não é fácil, mas é imprescindível quando desejamos viver plenamente e não apenas sobreviver de forma apática e descontente por aí.

*_ Trecho da música “Eu Te Amo” de Chico Buarque.

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Vanelli Doratioto
Vanelli Doratioto é uma escritora paulista, amante de museus, livros e pinturas que se deixa encantar facilmente pelo que há de mais genuíno nas pessoas. Ela acredita que palavras são mágicas, que através delas pode trazer pessoas, conceitos e lugares para bem pertinho do coração.



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