A relação entre criatividade e doenças mentais

No universo da arte, principalmente, existe um mito popular sobre o “gênio louco”, o qual alega que todo artista deve ter alguma patologia ou doença severa para poder criar.

De fato, é bastante comum que profissionais do meio artístico possuam problemas crônicos associados com doenças mentais ou distúrbios psiquiátricos. A noção do “artista torturado” é popularmente disseminada.

Na Grécia antiga, alguns filósofos clássicos perceberam uma conexão entre criatividade e transtornos psicológicos. Platão notou as excentricidades de poetas e dramaturgos de sua época. Certa vez, Aristóteles observou:

“Todos aqueles que foram eminentes em filosofia, política, poesia e artes tiveram tendências para a melancolia.”

Nos tempos modernos, essa associação persiste. É comum a ideia de que artistas, em suas horas mais sombrias, operam estratagemas engenhosos e conseguem criar a partir de suas ideações mirabolantes. Existem exemplos incontáveis desse fenômeno típico não só na arte, como também na literatura, na publicidade, no cinema e em outras indústrias de criação.

Muitos já imaginaram a figura de um gênio louco, senão vivenciaram tal arquétipo por si mesmos.

De acordo com Albert Rothenberg, professor de psiquiatria em Harvard:

“O problema é que os critérios para alguém ser criativo não são nada criativos. Pertencer a uma sociedade artística, trabalhar em arte ou literatura, por exemplo, não prova que uma pessoa é criativa. Mas o fato é que muitas pessoas que têm doenças mentais querem trabalhar em empregos que têm a ver com artes não porque são boas nisso, mas porque são atraídas por isso.”

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Enquanto a arte pode ser uma forma de terapia para a maioria de nós, há um fator comum relacionado à insanidade entre os criativamente talentosos. Isso não quer dizer que artistas são mais problemáticos, loucos ou avariados do que pessoas de outros setores, mas certamente são mais suscetíveis de ter a mente “deturpada”.

Também, grande parte dos artistas com alguma doença mental têm um condicionamento genético que influencia para essa condição de saúde, não sendo apenas um mero efeito colateral de suas jornadas criativas.

Muitas coisas boas que recebemos na vida, como a criatividade, têm um preço. E alguns pagam com a sanidade.

O trabalho artístico demanda uma maior capacidade de transcendência mental, portanto, para os artistas, há uma necessidade inevitável de “escapar” da realidade a fim de executar suas ideias. Quando se cria, a mente alça voos vertiginosos e, vez ou outra, ultrapassa os limites de uma realidade espacial e conscientemente perceptível.

Escritores, por exemplo, compartilham o fato de que precisam superar os limites da percepção para conseguir escrever, uma vez que sua imaginação é frequente e excessivamente estimulada. Com isso, escritores podem acessar mais possibilidades de criação, mas também se perder nas profundezas de suas introspecções criativas.

Criatividade e doenças mentais

Em seu livro The Creative Brain: The Neuroscience Of Genius, a neurocientista Nancy Andreasen se propôs a estudar a capacidade criativa do cérebro de pessoas que trabalham com arte.

Um dos capítulos mais interessantes do livro lida com a correlação entre criatividade e doenças mentais, trazendo o rigor científico e exemplos anedóticos clássicos como os evidenciados nas cartas de Van Gogh, no diário depressivo de Leo Tolstoy e na carta de suicídio de Virginia Woolf.

O livro aborda questões curiosas. Será que doenças mentais facilitam e promovem a habilidade criativa em artistas, ou essas doenças são um preço a se pagar por tal talento? Que diferenças de natureza e criação podem explicar por que algumas pessoas sofrem de doenças mentais e outras não? Por que tantas das mentes criativas do mundo são de pessoas também aflitas? A relação entre criatividade e doenças mentais é mais complexa do que uma causa e seu efeito?

Para elaborar o conteúdo de seu livro, Andreasen analisou pessoas criativas de vários ramos. Ela estava curiosa com o fato de que muitos desses profissionais tinham doenças mentais crônicas. Talvez pudesse haver uma conexão entre desordens psicológicas e o processo criativo.

De suas pesquisas, ela verificou que grande parte dos criativos têm um ou mais problemas relacionados à 6 fatores principais, dentre outros: abuso de drogas, mania, alcoolismo, depressão, bipolaridade ou esquizofrenia.

Há uma evidência sólida, a partir do livro de Andreasen, que sustenta uma conexão entre criatividade artística e transtornos mentais.

A pesquisa de Andreasen mostra que muitos criativos – particularmente em artes ­­– tiveram duras experiências no início de suas vidas (tais como rejeição social, perda dos pais ou deficiência física), bem como instabilidade mental e emocional. No entanto, isso não significa, necessariamente, que doenças mentais contribuem para a iminência de experiências traumáticas. Mas o contrário talvez seja verdadeiro.

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De fato, a natureza da arte faz com que muitos artistas sejam socialmente retraídos e cognitivamente desorganizados.

Atividades como escrever um romance ou pintar um quadro, por exemplo, requerem uma atenção sustentada por longos períodos de tempo, além da capacidade de inventar cenários e personagens intrincados a partir de um enredo ou imagem fixados no cérebro. Esse tipo de concentração é extremamente difícil de manter.

Andreasen descobriu que o mito do “gênio louco” era válido para muitos criativos. Em seu estudo, ela percebeu que homens e mulheres tornaram-se profissionais artísticos bem-sucedidos não por causa de sua saúde mental tortuosa, mas apesar disso.

Ela diz:

“Muitas características da personalidade de pessoas criativas tornam-nas mais vulneráveis, incluindo a abertura a novas experiências, uma tolerância para a ambiguidade, e uma abordagem à vida e ao mundo que é livre de preconceitos. Essa flexibilidade lhes permite perceber as coisas de uma maneira inovadora, que é uma base importante para a criatividade. Mas isso também significa que seu mundo interior é complexo, ambíguo, e cheios de tons de cinza. É um mundo cheio de perguntas difíceis e poucas respostas fáceis.”

Em geral, as pessoas criativas vivem em um mundo mais fluído e nebuloso. Elas precisam lidar com a rejeição e autocrítica por serem muito questionadoras e pouco convencionais. Tais características podem levar à alienação ou doenças mentais.

Segundo Andreasen, ideias criativas ocorrem como parte de um processo mental potencialmente perigoso, quando as associações no cérebro estão voando livremente durante estados mentais inconscientes. Assim, no processo de criação, pensamentos podem tornar-se momentaneamente desorganizados antes de organizarem-se novamente. O psiquiatra suíço Eugen Bleurer descreveu essa confusão mental criativa como um “afrouxamento de associações”.

Essa falha na capacidade de auto-organização decorre do que os cientistas cognitivos chamam de “disfunção de entrada”: um déficit no sistema de filtragem que usamos para processar a vastidão de informações que recebemos.

As pessoas criativas, Andreasen observa, podem ser mais facilmente oprimidas por estímulos e tornarem-se mais distraídas.

Alguns dos criativos de seu estudo, ao perceberem que tinham uma tendência a ser muito sociáveis, empregavam várias estratégias para manter-se isolados do resto do mundo por extensões consideráveis de tempo.

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Alguns especialistas, entretanto, não percebem ligações concretas entre criatividade e doenças mentais, e argumentam, a partir de vários estudos relacionados, que as pessoas criativas não são mais suscetíveis de ser diagnosticadas com doença mental, assim como pessoas com doenças mentais não são mais propensas a ser criativas do que as pessoas “normais”. Mas o que é ser normal? A normalidade é subjetiva, e a loucura pode ser uma pequena diferença de ponto de vista.

Na verdade, todas as pessoas têm potencial criativo, e podem, com alguma facilidade, usufruir de sua incrível habilidade de transcender a realidade objetiva; enxergar as coisas sob perspectivas ilimitadas. O poder da criação está aí para todos. Basta querer usá-lo.

A natureza dos processos criativos

Para ser criativo, é necessário pensar de formas diferentes. E quando se é diferente, há uma forte possibilidade de se parecer estranho, excêntrico e até insano. Em enumeráveis períodos da história humana, pensar fora da caixa foi (e ainda pode ser) um indício de anormalidade.

A criatividade é uma qualidade de extrema valia para qualquer sociedade próspera. Mas, quando se cria, há alguns riscos consideráveis, em maior ou menor grau. Ambos criatividade e doenças mentais assinalam desvios, às vezes bastante extremos, de modos normativos de pensamento.

O engajamento em formas cotidianas de criatividade original não necessita obrigatoriamente de dor e sofrimento por parte de um criador. Contudo, o sofrimento é um componente intrínseco de uma doença mental e, apesar das crenças tradicionais sobre as pessoas criativas enfermas, tal perturbação pouco contribui para os insights de inspiração e criatividade.

É claro que praticar arte em suas variadas formas – como escrever um livro, pintar um quadro, elaborar um filme ou criar uma ilustração – pode tornar alguém mais curioso, espontâneo, energético e entusiasmado, além de intrinsecamente motivado por sua atividade.

Segundo Rothenberg:

“A alegação comum é que a extrema euforia e produtividade são características tanto do trabalho criativo quanto de doenças bipolares. Como a doença, no entanto, esses recursos são involuntários, desprovidos de julgamento, e distorcidos, ao passo que a criatividade dos produtores é proposital, e resulta em euforia quase sempre da realização excepcional.”

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Zorana Ivcevic, doutora em psicologia na Universidade de Tufts, realizou uma pesquisa sobre diferenças comportamentais entre criativos e pessoas que não costumam exercer a criatividade em suas atividades cotidianas. Aqueles com alta pontuação na criatividade relataram sentir uma maior sensação de bem-estar e crescimento pessoal em comparação com seus colegas que se envolveram menos em comportamentos criativos diários.

Apesar de muitos criativos terem vivenciado experiências traumáticas em estágios de vida iniciais, essas pessoas, através de sua arte, podem transformar adversidade em crescimento criativo e pessoal.

Paradoxalmente, a arte é cura e veneno; tem fins terapêuticos e prejudiciais. Talvez por essa duplicidade ela seja tão perigosa quanto fascinante em sua essência primal.

Não parece ser tão evidente uma solução para o enigma que encobre a relação entre criatividade e doenças mentais. Mas, na opinião do professor Rothenberg, essa solução se encontra justamente na natureza dos próprios processos criativos. Ele diz:

“Se os fatores que produzem diretamente criações são, de alguma forma, derivados, ou ainda facilitados, pela doença, não haveria, então, uma relação necessária. Os processos criativos podem se desviar da objetividade do pensamento comum, e não configurar sinais de doença, mas esses sintomas, disjuntivos e involuntários, tendem a bloquear ou descarrilar a criatividade, enquanto a saúde mental está facilitando-a.”

De acordo com Rothenberg, quando uma pessoa criativa é doente mental, a produção de criatividade deve ser realizada durante os períodos de baixa atividade dos sintomas de ansiedade. Isso é adequado porque a ansiedade produz medo e, possivelmente, paralisa o indivíduo, enquanto que a criatividade envolve a capacidade de se mexer, mudar e melhorar todos os aspectos de um ambiente.

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Há uma boa notícia, afinal. Existem muitas pesquisas mostrando que a criatividade está ligada ao funcionamento normal e saúde mental elevada. Os processos criativos são, em boa parte, conscientes, não súbitos momentos de falta de discernimento, e esse trabalho árduo também destaca uma pessoa altamente produtiva.

Psicólogos têm demonstrado que, quando uma pessoa se envolve no trabalho criativo, ela atinge um estágio de “experiência de pico”, que representa o auge do desempenho humano eficaz.

Diversos psicólogos, a fim de ajudar seus pacientes a compreender as possíveis causas patológicas de suas doenças, dizem a estas pessoas que sua doença mental faz parte de sua própria criatividade. Como afirmou o Dr. Keith Sawyer em seu livro Explaining Creativity:

“Quando pacientes com transtornos mentais são informados de que há uma ligação entre sua doença e criatividade, isso aumenta sua moral e autoestima. E eles são mais propensos a tomar a medicação e se cuidar quando ficam sabendo que, controlando suas desordens, podem melhorar seu potencial produtivo.”

Dessa maneira, as pessoas com doenças mentais podem se motivar ao transformarem suas patologias em recursos de criação, ao invés de se limitarem por seus problemas aparentemente potenciais.

*Com informações do Brain Pickings, Psychology Today e Huffington Post

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Eduardo Ruano
Escritor e redator por hobbie e profissão. Me considero uma pessoa racional, analítica, curiosa, imaginativa e em constante transformação. Gosto de ler, escrever, correr, assistir séries, beber e viajar com os amigos. Estudioso de psicologia, filosofia e comportamento humano. Também sou interessado em arte, literatura, cultura e ciências sociais. Odeio burocracias, formalismos e convenções. Amo pessoas excêntricas, autênticas e um pouco loucas, até certo ponto. Estou sempre buscando novas inspirações para transformar ideias em palavras.



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