Querido Caio Abreu – Fabrício Carpinejar

Me explique, bruxo? Onde estiver me explique.
Como alguém pode vir morar contigo, dizer que te ama na noite anterior, e sumir de repente sem nenhum arrependimento?
Amor muda de ideia? Amor é leviano assim? Amor é brincar de destruir?
O que digo agora também já está morrendo?
Morrer produz barulho, sei, mas e o barulho de viver? Não dá para ouvir daí?
Como do homens dos sonhos você se torna um homem sem sonho?
Como uma manhã sem falar doía nela e hoje o amanhã sem falar nem provoca ansiedade?
Como alguém não guarda em si o mínimo de autocrítica para refletir as últimas semanas?
Eu dividiria até meu egoísmo com ela. Não ficaria com ele sem partilhar. Como não se fracionar? No momento em que a gente se guarda a gente se perde, não?
Como alguém que ama decide alguma coisa? Logo no amor, Caio? Amor não é adiar? Amor não é humildade?
Vejo que o erro é arrogante, Caio. Como existe soberba na maldade, hein?
Será que foi vingança de relações passadas? Eu era o intervalo de um ódio?
Será que não devia ser sincero, fiel, não podia confessar minhas fraquezas, falar o que temia? Honestidade não combina com amor?
Eu que sou garrancho, arredondei a letra no caderno de caligrafia, escrevi entre as linhas de baixo e de cima, bem certinho, você ficaria orgulhoso conhecendo minha pressa, mas só você, Caio, só você sabe o enorme sacrifício que é escrever entre as linhas.
Será que a felicidade machuca? Será que a felicidade nunca é suficiente? Será que os casais se separam porque acreditam que podem ser felizes sem ninguém? Ou acreditam que podem ser ainda mais felizes do que estão sendo?
Será que a solidão mente o que somos?
Se o afeto sufoca, me diz, então, o que liberta?
Será que é só conhecer uma intimidade que somos empurrados para fora? Será que a pessoa não se gosta nem um pouco para admitir testemunhas? Será que sabemos demais, enxergamos demais, e nosso corpo é obrigado a desaparecer? Amar é coisa de máfia?
Será que recebemos a culpa por problemas pessoais? Que é mais fácil encerrar a relação do que assumir os medos?
O amor é um mal-entendido, é ilógico, Caio? Estou começando a crer nesta hipótese.
Como alguém pode se entregar loucamente e depois alegar que nada tem mais importância?
Que piração é esta, Caio? Isso também acontece no mundo dos mortos? Ou os mortos são mais estáveis? Ou os mortos são mais confiáveis?
Como alguém faz declaração pública de amor e depois diz que desejava invisibilidade?
Como confiar no silêncio se não há esperança?
Eu fingi que era diferente? Não expressei como era desde sempre, não avisei como funcionava?
Como alguém cultiva os meus amigos e filhos, defende o nosso destino, numa hora e na hora seguinte se mostra surda a todo conselho, surda a toda dúvida, surda a toda incerteza?
Como alguém pode jogar a história fora? Por facilidade? Não conheço nada fácil, nem a amizade. Não pode ser.
Será que ninguém mais lê mais poemas hoje, Caio? Poemas não têm final. O amor deveria ser como um livro de poesia. Para se ler fora de ordem. Para se ler um pouco por dia. Desprovido de desfecho. Poema é releitura na primeira leitura.
Caio, não suporto que digam que mulher não gosta de homem que se entrega, que temos que omitir, que temos que jogar. É uma cilada machista, não lhe parece, para justificar a grosseria e a ausência de interesse?
O que será da intensidade longe da doação?
Onde foi parar a delicadeza dela, a ternura de antes? Foi uma miragem?
Onde as pessoas escondem o amor, Caio? Onde as pessoas enterram os ossos de suas alegrias?
Como alguém pode ser frio, indiferente, insensível a ponto de usar as frases mais duras e impessoais, sem se importar com o sofrimento que causa?
Como alguém manda mensagens como se estivesse realizando um favor? Que superioridade é esta? Cadê o nervosismo que pede um abraço?
Como alguém não se esforça para retroceder o baque, zerar os meses? Por amor, a gente esquece que nasceu um dia, não é mesmo?
Como alguém não cancela sua atitude? Que obstinação é essa de machucar, de sangrar ruas e lugares prediletos?
Como alguém não sente saudade, não inventa saudade, não cria saudade? É um produto em falta por aqui, Caio, pode mandar material? Mande garoa de palavra para recriar saudade, por favor?
Como não retornar pela verdade, se eu voltaria ainda que fosse uma mentira?
Como não caminhar recuando se avançar é lembrar?
Como o outro termina sem conversar, termina por terminar, termina de modo cruel o que não havia sinalizado?
Como alguém usa a porta para pisar as mãos, permanece agredindo quem merecia uma fresta de compreensão?
Como alguém afirma que nada muda da noite para o dia e esquece das noites que mudaram seus dias?
Como esse mesmo alguém é outro, já outro, tão outro que nem sei mais quem fui?
Como não desconfiar do passado, como não imaginar que tudo foi uma mentira?
Como não se sentir usado pelos anjos, corrompido pela dor?
Como, Caio?
Alguém mentiu, Caio, para mim. Para si. E para todos.
Eu não desisto do que falei um dia com todo o coração. Mas sou eu, Caio, sou eu. Não posso exigir isso de ninguém.
Viver é incompreensível.

Um beijo. Cuide-se.

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Fabrício Carpi Nejar, ou Fabricio Carpinejar, como passou a assinar em 1998 (Caxias do Sul, 23 de outubro de 1972) é um poeta, cronista e jornalista brasileiro
http://www.carpinejar.com.br/

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