Querida mãe,

Imagem de capa:  Brainsil/shutterstock

Amanhã é seu aniversário e meu presente será a saudade.
A mágica do tempo leva embora o luto e deixa as lembranças que identificam nossos papéis na vida.

Não foi fácil a nossa vida, não é mesmo? Você, de tudo o que passou, pouco ainda acreditava na felicidade. Eu, cheia de vontade de ser feliz, por muito tempo não tive capacidade de entender como doíam suas cicatrizes e o quanto você foi cortada e intimidada.

Você me deu o seu melhor, ainda que acompanhado de uma enorme rudeza, na estratégia de me preparar para as decepções da vida.

Tivemos momentos felizes. Breves. Eternos.
Sofremos de uma constante incompatibilidade de visões. Nadamos juntas no oceano da vida, ainda que jogando água no rosto uma da outra.

Uma mulher de um metro e meio, uma enorme e corajosa mulher. Enfrentou tudo o que se pôs no caminho, até mesmo os inimigos imaginários, frutos da história de dor e abandono.
Confiança era uma palavra difícil de assimilar. Ninguém é de confiança, você dizia.

Que mundo amargo e inimigo que você teve que desbravar! E me proteger, como sua missão.
Chegamos ao ponto de romper mil vezes, mas nunca o fizemos. Ainda bem.

Na doença, a vida nos deu a chance de nos perdoar mutuamente. A mim, me deu o tempo que eu precisava para te reconhecer, entender sua fragilidade e seu enorme medo de enfrentar as próprias emoções.

Sinto saudades de você. Sinto alívio por agora sermos mãe e filha que não se estranham mais. Sinto alegria por ter lembranças de todos os tipos. Sinto orgulho por ser quem sou e saber de onde venho. Sinto que tudo foi exatamente como deveria ter sido.

Somos uma família de mulheres que buscaram caminhos diferentes para desbravar a vida. Você, na força. Eu, na palavra. Sua neta, essa se parece bem com você, mas com o mágico toque da evolução da espécie.

Hoje, meu sentimento é de missões cumpridas. Ambas.
Comemorarei seu aniversário te contrariando, com muita alegria e nenhuma desconfiança por me sentir bem.

Te amo, mãe.

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Emilia Freire
Administradora, dona de casa e da própria vida, gateira, escreve com muito prazer e pretende somente se (des)cobrir com palavras. As ditas, as escritas, as cantadas e até as caladas.

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