Que horas ela volta?

O filme estrelado por Regina Casé não conta apenas uma história de uma empregada doméstica e sua relação com os patrões e a vida na casa deles. De forma muito delicada, o longa aponta diversos pontos dessa relação, tão regularmente vivida no Brasil, bem como suas questões que envolvem o dia-a-dia e a própria vida.

Val é uma nordestina que veio tentar a vida em São Paulo e acabou trabalhando durante anos para a mesma família como funcionária do lar. Morando com os donos da casa, de classe média alta, acabou cuidando do filho do casal como se fosse seu próprio filho. Porém, Val tem uma filha que ficou com outra pessoa em sua cidade natal. Ainda que enviando dinheiro todos os meses para seu sustento, sua filha legítima viveu e sofreu sua ausência durante dez anos

Quando a adolescente entra no enredo, ela vem para São Paulo para prestar vestibular e fica negativamente surpresa ao perceber a situação da mãe: pobre e sem casa (ainda que fosse alugada). Os conflitos do filme começam quando a filha de Val se comporta em pé de igualdade com os membros da família e não se coloca na posição inferior de empregada doméstica. Val espera que a filha se coloque no mesmo lugar que ela, mas isto não acontece.

O pai de família se apaixona pela adolescente, a mãe fica com ciúmes e o filho a trata de igual para igual. Neste delicado enredo, somos convidados a refletir sobre diversos temas: “Como tratar uma empregada doméstica que mora em nossa casa?”, “É possível uma empregada se tornar um membro da família?”, “Como nós tratamos nossas empregadas?”, “E os filhos dela, quando existem?”.

O sentimento de superioridade da patroa em relação à empregada fica escancarado no decorrer da narrativa. A mãe é quem sustenta a casa e tem o poder de decisão sobre todos. Seu relacionamento com o filho é distante e difícil, tendo ela ciúmes de Val, já que a mesma recebe o carinho de seu único herdeiro de forma natural e constante. O casal dorme em quartos separados, e o marido sofre de depressão.

Um ponto muito interessante do filme é a lucidez de Val e sua personalidade simples. Mesmo com falta de estudo e toda sua ignorância, ela parece saber mais da vida do que os que estão à sua volta. A generosidade que a cerca trás boas surpresas e reflexões para a trama.

Para a surpresa e humilhação da família, a filha da empregada passa no vestibular, enquanto que o “menino mauricinho” nem chega perto disso.

Há alguns elementos muito significativos no filme como a piscina da família, o sorvete do filho do casal, a porta que divide a casa entre a cozinha e a sala, e outros pontos bem delicados.

Fato é que no final da história, Val tem uma atitude surpreendente. Para ficar ao lado da filha, pede demissão e decide tomar conta do neto, que descobre no fim do enredo, que o mesmo existia. De uma forma doce e singela, ela opta por reparar seu passado com a filha, agora cuidando de seu neto, enquanto que os patrões mandam o filho para a Austrália para um curso de inglês.

Val fica com a família, enquanto a família de classe média alta se dizime sozinha.

Um filme para diversas perspectivas e interpretações.

Lições sobre o que realmente vale a pena na vida.

Trailer:

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Carolina Vila Nova é brasileira. Tem cidadania alemã, 40 anos. Escritora e Roteirista. É autora dos seguintes livros: “Minha vida na Alemanha” (Autobiografia), “A dor de Joana” (Romance), “Carolina nua” (Crônicas), “Carolina nua outra vez” (Crônicas), “Vamos vida, me surpreenda!” (Crônicas), “As várias mortes de Amanda” (Romance), “O dia em que os gatos andaram de avião” (Infantil), “O milagre da vida” (Crônicas) e "O beijo que dei em meu pai" (Crônicas). "Nosso Alzheimer." (Romance), Disponíveis na Amazon.com e Amazon.com.br



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