Que bom que te decepcionei

 

Você que esperava uma lealdade cega, aquela obediência conformada, nenhuma contrariedade e jamais uma negativa… Decepcionei? Que bom.

Você que contava com uma dedicação integral, uma consideração infinita, a compreensão do incompreensível… Decepcionei? Que bom.

Você que tinha absoluta certeza de que suas fotografias, lembranças, maus feitos, covardias e ausências seriam guardados na mais cor de rosa caixinha de recordações… Decepcionei? Que bom.

Você que cresceu e inchou, se tornou maior do que a porta por onde deveria passar e ainda assim acreditou que seria uma obrigação te seguir… Decepcionei? Que bom.

Você que manipula fraquezas, que trata relações como via de mão única, que pede muito e pouco oferece, que não mede prejuízos para satisfazer vontades, não se aproxime porque vou te decepcionar, com muito gosto!

E se em algum momento a dúvida sobre fazer o certo ou o errado se instalar, uma dica valiosa é pensar nas pessoas que precisamos decepcionar, pois do contrário seremos como elas, o que não admiramos, não queremos, não devemos.

Decepcionar é um bom termômetro.  Decepcionar a vaidade, o egoísmo, o egocentrismo, a avareza, o desamor… Se estamos nesse caminho, a coisa esquenta, o jogo fica mais justo, os retornos acontecem, os vampiros ficam para trás. E o julgamento fica mais claro. A capacidade de separar o que interessa, o que vale, quem fica, quem sai, quem soma, quem vale zero.

Tudo é questão de critério e também de responsabilidades. Se escolhermos a face da lamentação, seremos muitas vezes decepcionados. Não esperávamos, não poderíamos acreditar…

Mas, se preferirmos a versão da ação, de bancar um julgamento decepcionante, então estamos na posição de quem sabe com quem lida e, por não partilhar das certezas, decepciona e segue a vida.

E a vida segue, tanto para os que agradam como para os que decepcionam.

A escolha é pessoal e cada um tem seus motivos. Há quem prefira perder a liberdade, as forças, a saúde, a razão.

No meu caso, e se o seu caso de alguma forma me fere, decepcionei? Que bom.

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Emilia Freire
Administradora, dona de casa e da própria vida, gateira, escreve com muito prazer e pretende somente se (des)cobrir com palavras. As ditas, as escritas, as cantadas e até as caladas.



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