Quanto vale uma vida humana, por Gustl Rosenkranz

Por Gustl Rosenkranz

Em certos momentos, não consigo ser tolerante. E neste momento não tenho nenhuma tolerância em relação à indiferença da Europa e do mundo com o que está acontecendo no Mar Mediterrâneo: a morte de pessoas que estão fugindo de guerra, fome e diversos conflitos. Desesperadas, tentando salvar as próprias vidas, muitos tentam atravessar o mar para entrar na Europa, já que não há alternativa, não há uma forma legal. Em barcos não apropriados para a travessia, chegar à Europa é uma questão de sorte, sorte que muitos não têm. Há gente morrendo afogada e a Europa, que tanto prega a proteção da dignidade humana, não reage devidamente, nega-se a salvar essas vidas e a massa, o povo, a geração Facebook não está nem aí, já que são “somente” africanos.

QUANTO VALE UMA VIDA HUMANA?

Sim, são “somente” africanos. Mas será que a vida deles não tem o mesmo valor que a vida de um europeu? Não, não tem! Há pouco tempo, caiu um avião alemão nos Alpes. O mundo inteiro ficou chocado, comovido e solidário, nas mídias não se falava de outra coisa. E agora? Agora não sinto a mesma empatia, o mesmo interesse. E vou até mais longe: se algum jovem alemão (ou francês, ou inglês…), filhinho de papai, irresponsável, entrasse no mar com uma prancha de surf, por estar entediado, só por falta do que fazer, e fosse engolido pelas ondas, estariam todos falando disso e já haveria helicópteros, navios e tudo possível procurando pelo imprudente. Mas salvar a vida de refugiados? Só hoje foram 700! Mas,e daí? E daí é que uma vida humana não tem o mesmo valor, pois sempre depende de quem se trata. Pois é, desta vez foram “só” africanos. Nada de tão importante. Assustador, não?

MAIS TEMPO PARA FUTEBOL QUE PARA UMA CATÁSTROFE HUMANA

Hoje morreram 700 refugiados afogados. Isso foi assunto no jornal Tagesthemen, um dos principais noticiários da televisão alemã. Mas o mesmo noticiário dedicou mais tempo ao futebol do que a essa catástrofe humana, o que para mim é uma inversão perversa de valores e prioridades. E isso fala por si.

DEIXAR GENTE MORRER É PERVERSIDADE E CINISMO

A política de refugiados da Europa é cínica: deixar morrer para espantar os outros, para que eles não queiram vir para cá também. Sim, essa é a política europeia e também da Alemanha. A Europa apoia ditaduras e governantes corruptos, vende armas para governos e milícias opressores, dita regras econômicas que contribuem para aumentar a fome mundo afora e se nega a assumir sua responsabilidade pelas consequências disso. Há muito que a política europeia só busca uma coisa: defender de uma forma imediatista, egoísta e burra seus próprios interesses.

É claro que a Europa não tem como abrigar todos os refugiados do mundo (atualmente são 50 milhões – o maior número desde a segunda guerra mundial!) – esse é um argumento usado por gente mesquinha, que acha que lugar de refugiado é qualquer lugar, menos aqui. Mas a Europa pode fazer muito mais. E ela não pode simplesmente deixar que pessoas morram em sua porta.

A Europa tem é que assumir sua responsabilidade, mudar sua política externa, ajudar a combater os problemas nas suas origens (ao invés de fomentá-los!), o que não seria tarefa fácil e nem da Europa sozinha. Mas, enquanto isso, é necessária uma atitude imediata de respeito pela vida humana e que a Europa pratique o que ela mesma prega. É hora de salvar vidas!

QUE NÃO ME VENHAM COM COMENTÁRIOS BESTAS!

Compartilhei um texto sobre o assunto e ele logo foi comentado por alguém carregado de preconceitos e argumentos fracos. “Os que vem procurar melhores condições geralmente não agregam valor à sociedade”, comentou essa pessoa. Ah, quer dizer que essas pessoas, por não agregarem valor à sociedade, podem morrer assim no Mar Mediterrâneo, na porta da Europa? Não, refugiados não são criminosos, não são pessoas de segunda categoria, eles são é gente, como você e eu. Muitos são engenheiros, médicos, pessoas que tinham uma vida organizada, mas que tiveram que fugir. E, independente da formação, qualquer ser humano tem o direito de migrar, de buscar uma vida melhor. Se eles estão fugindo de suas terras, então porque uma vida digna por lá não é mais possível. Ninguém entra em um barquinho para atravessar o mar só porque quer passear por aqui. E mesmo que muitos sejam “refugiados econômicos” (como dizem os cínicos), que querem vir para cá “apenas” para buscar uma vida melhor, não podemos criticá-los – só lembrando: muitos brasileiros vêm para cá pelo mesmo motivo!!! E antes de criticá-los, seja sincero com você mesmo e responda: você não faria o mesmo se estivesse vivendo em um lugar onde predomina a guerra, a fome ou conflitos políticos e religiosos sérios, onde não há qualquer perspectiva de vida para sua família, para seus filhos? Bom, eu faria. Eu também daria no pé e viria provavelmente para a Europa, já que é um continente que costuma bradar mundo afora que aqui a dignidade humana tem valor.

PS – A mesma pessoa voltou a comentar o post, desta vez dizendo que “o mundo tem hoje 7 bilhões de habitantes. Com o atual padrão de consumo comportaria 2 bilhões…é simples assim..há pessoas demais!”, ou seja, há gente demais, por isso é bom que morram alguns. Cúmulo do cinismo! E ainda é mal informada, pois o mundo tem hoje recursos para dar um padrão de vida aceitável a TODOS os 7 bilhões de habitantes. O problema do mundo não é excesso de gente, mas de egoísmo e indiferença.

PARA MIM, A EUROPA ESTÁ MOSTRANDO SEU ROSTO VERDADEIRO E QUEM ELA REALMENTE É. E O MESMO VALE PARA TODOS QUE REAGEM COM INDIFERENÇA PERANTE À MORTE DE TANTA GENTE.

Tem gente, muita gente morrendo. É possível que haja mais algum barco naufragando agora mesmo. Independente dos poréns e dos porquês, está mais que na hora de agir. Chega de cinismo, chega de perversidade. Não bastam discursos bonitos sobre a dignidade humana. Está na hora é de respeitá-la na prática.

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Gustl Rosenkranz
Como já diz o nome de meu blog, escrevo fazendo uso de uma das liberdades mais essenciais que temos: a liberdade de pensar. Escrevo sobre o que passa por minha cabeça, sobre coisas que vejo, escuto e vivencio diariamente, enfim, escrevo sobre a vida e suas facetas, sobre o mundo e suas entranhas e sobre o ser humano, com seus sonhos, medos e esperanças. Escrevo sem “luvas”, tocando no assunto, menos preocupado em agradar do que em mexer com o leitor, de forma clara, até mesmo carinhosa, mas sempre suavemente subversiva e profunda.



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