Quando você me deixou, meu bem.

Era uma vez uma bela princesa que vivia em um palácio por volta do século V A.C. Uma noite, enquanto dormia serenamente com o filho ao seu lado, foi abandonada por seu marido sem nenhuma explicação. Um ato mundano que não teria maior relevância não fosse o tal marido o próprio Siddhartha Gautama, o “Buddha”.

Os relatos históricos afirmam que Buddha precisava se desapegar de tudo o que o prendia aos desejos do corpo e da mente e por isso decidiu partir sozinho. Nesse ponto, poderíamos até cogitar semelhanças entre esse fato e aquele ocorrido no conto clássico do cigarro. Uma noite, o marido saiu para comprar cigarros e nunca mais voltou para casa. A diferença é que a intenção de Buddha ao abandonar o seu lar era alcançar a iluminação e, a partir disso, nos agraciar com seus ensinamentos acerca da origem dos sofrimentos humanos e principalmente como eliminá-los.

Pensando bem, Buddha retornou ao Palácio e reencontrou a princesa Yashodhara e seu filho. Ele foi prontamente perdoado por sua família, ainda segundo os relatos. Logo após, ela também buscou o caminho espiritual. Afinal, Yashodhara tinha outra escolha?

Sendo mulher e vivendo sob um sistema patriarcal arcaico, seria quase impossível para a princesa encontrar o “caminho do meio” fora do confinamento do palácio. Logo, seria possível que o sofrimento imposto pela ausência de seu grande amor tenha promovido em Yashodhara as mesmas transformações internas que levaram o Buddha à iluminação?

No livro “Joias Raras do Ensinamento Buddhista”, que traz uma coletânea de artigos organizada por Ricardo Sasaki, há uma passagem na qual se esclarece que a palavra Buddha significa despertar. Assim, ao abandonar seu lar de forma abrupta Buddha promoveu mudanças na realidade de sua esposa mesmo que tal fato não tenha sido premeditado. Ao buscar o seu caminho espiritual longe do palácio, ele também abriu uma porta para que Yashodhara se libertasse da ilusão que a cercava.

Dito isso, quem são as nossas “Yashodharas” contemporâneas? Quais suas escolhas após a dura constatação do abandono por iniciativa de seus parceiros? Dizem que sempre temos uma escolha frente aos desafios apresentados pela vida. Podemos nos entregar a um sofrimento sem fim ou buscar forças para transformar aquele momento em uma nova etapa de vida (muitas vezes bem melhor que a anterior).

Chico Buarque, em uma de suas famosas composições, profetiza “Olhos nos olhos, quero ver o que você faz. Ao sentir que sem você eu passo bem demais”. Se as Yashodharas de hoje ainda não passam bem demais, pelo menos estão melhores do que na companhia de homens que não desejam estar ao lado delas. Seja a motivação de caráter nobre ou não.

Ficamos mais abertos para receber as bênçãos em nossas vidas quando aceitamos os acontecimentos difíceis sem resistência. Não foi o próprio Buddha que nos presenteou com o conceito de impermanência? Nada dura para sempre. Nem mesmo o sofrimento.

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Adriana Abraham
Advogada e escritora, com cursos nas áreas de yoga e meditação. Carioca, residindo atualmente em Brasília.



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