Quando tudo sempre acaba em pizza é sinal que a coisa não vai bem

Pode parecer fácil perceber isso, mas nem sempre é: um relacionamento não vai bem quando faz desprender mais energia do que agrega, quando nos faz sentir mais esgotados do que renovados. Quando causa mais canseira do que ânimo, gera mais luta do que calmaria, precisa de esforço para manter a paz ao invés de fluir naturalmente.

A coisa já desandou faz tempo quando a gente se percebe pisando em ovos para não despertar o mal humor do outro, quando a gente se encantoa, fala menos, mente, evita certos assuntos, toma muito cuidado para não invadir espaços, quando a gente tem que se moldar ou esquecer de si mesmo para evitar conflitos.

Acho que é um sinal de que algo precisa mudar quando a gente se vê fazendo malabarismo com as boas vibrações, quando a gente evita conversar sobre assuntos difíceis, quando a vida começa a parecer um jogo de palitos, e a gente tem que viver tendo cuidado para mover as peças e não fazer tudo estremecer.

É difícil ter clareza, e mais difícil ainda é perceber que se quer romper essa paz frágil, inventada. Mas, se a vida anda assim, talvez seja mesmo o momento de pisar e quebrar os ovos, tocar nos assuntos trabalhosos, enfrentar a canseira da alma para olhar a fundo uma história que a rotina parece querer te impedir de esmiuçar. E a preguiça e o comodismo parecem querer proteger.

É bom ter olhos para perceber que não está tudo bem quando depois de tanto desgaste, distancia, individualidade, tudo termina em pizza e a pizza alivia aquela noite, mas não o resto da vida. É interessante ter coragem de se expressar, de impor limites, mesmo para a dor, mesmo para a solidão, mesmo para esses excessos de cuidados que já não tapam buracos. É bom parar e olhar, falar, começar a mudar.

Porque é por querer evitar um estresse maior que a gente o fatia e distribui pelos dias. É por querer evitar que a bomba exploda de uma vez que a gente abre diariamente a válvula de escape, mas ela não se desmaterializa. É por medo da ideia de solidão, que a gente acaba vivendo o pior tipo delas: a solidão a dois.

É por excesso de proteção e compaixão pelo outro que a gente atrasa o seu desenvolvimento existencial. É por falta de energia para enfrentar um drama e dar uma guinada, que a gente acaba adoecendo em conta gotas. E é por evitar entrar na dança da vida de alma aberta que a gente acaba evitando a própria vida.

Porque o que ela quer da gente é coragem e abertura para sermos em plenitude a nossa melhor versão.

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Clara Baccarin
Clara Baccarin é poeta, escritora e tradutora. Autora do romance Castelos Tropicais (Ed. Chiado, 2015), e do livro de poemas Instruções para Lavar a Alma (Ed. Sempiterno, 2016). É uma contadora de histórias que adora poetizar o mundo. Escreve por amor e rebeldia: desconstruindo verdades, brincando com as palavras e ressignificando a vida.



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