Quando a solidão e eu viramos amigas

Imagem de capa:  Antonio Guillem/shutterstock

Algum lugar do mundo, 29 de março de 2017

Era somente mais um dia daqueles em que a solidão batia forte, rasgava por dentro. Novamente, um dia em que o meu vazio ficava proeminente, escancarado. Tão escancarado que jurava que poderiam vê-lo, até mesmo tocá-lo. Aquele buraco enorme no meio do peito. Quisera eu, talvez, que o notassem e me trouxessem o material necessário para tampá-lo.

Um dia em que, por milagre ou coincidência, não havia a correria massacrante do dia-a-dia para me distrair. Não havia compromisso, nem meta, nem nada a entregar. Pelo menos não naquele dia. Por algum motivo, o tempo caminhava mais lentamente, o ar parecia menos oxigenado e o peito mais apertado. A previsão dizia que o sol estava lá, mas só conseguia ver tudo nublado.

Um dia que me convidava a olhar pra dentro, a respirar e refletir. Uma intimação à saída do piloto automático com direito à revisão do veículo. Um dia de solidão. Costumava eu pensar, antigamente, que era falta de gente. Pensava em ter mais amigos, talvez encontrar a família, entrar numa aula de forró. Pensava em todos que naquele momento estavam acompanhados, contemplando um sorriso ou mergulhados em um abraço. Ou mesmo naqueles que exalavam amor próprio.

Tentava lembrar-me de alguém que pudesse entender aquela crise, aliviá-la. Quem sabe se recebesse um telefonema, uma mensagem, uma carta… Porém, mais do que nunca, nestes dias, todos pareciam desaparecer. Como se pressentissem a necessidade daquele encontro e fossem instigados a não perturbá-lo. Aquele encontro inevitável que devemos ter conosco de quando em quando.

Hoje sei que a solidão vem independentemente da ausência de pessoas em volta. Sei que solidão não é saudade do outro. Não é carência tampouco. Não se cura com companhia. Já senti solidão muitas vezes estando com minha família. Em festas, churrascos, aniversários. Já senti solidão na rua, na faculdade, no cinema, na cama. Solteira ou compromissada. Vira e mexe ela vem com tudo. Não pede licença, não avisa e não adianta mandá-la embora.

A solidão, por vezes, é tão forte que chega a doer na pele, sente-se nos poros. E quanto mais fugimos desse necessário encontro com o vazio, mais ela dói. Não é por mal… É preciso recolher-se para descobrir-se. Algo nem sempre tão prazeroso no início. Na verdade, quase nunca, pois descobrir-se normalmente é sinônimo de desapegar-se de ilusões. E de ilusões somos cheios. Desapegar-se é sinônimo de deixar ir. E de resistência, somos lotados.

A solidão, invisível companheira, não faz questão de ser querida. Vem e ensina com firmeza. Só nos deixa quando cumpre seu propósito. Não tem dó. Sabe que é para nosso bem, doa o que doer. Algo que só amigos verdadeiros fazem. Daqueles inoportunos que te dizem verdades inconvenientes que relutamos em ouvir, mas que no fim provam sua importância.

A solidão parece gostar de mim. Visita-me com frequência desde criança. Costumava lutar, pedir que seguisse seu rumo. Tentei desfazer-me de sua amizade. Um dia, exausta pela sua insistência, mesmo que silenciosa, encarei-a de frente. Quando mirei em seus olhos profundamente, vi a mim mesma. Nunca me sentira tão frágil e tão forte. Ela se despediu naquele momento. Algo mudou. A necessidade de outras pessoas havia diminuído.

Resolvi, então, deixar a casa aberta para quando quisesse voltar. Passei a recebê-la com carinho. Hoje em dia, deixo até mesmo guardado alguns doces, um par de meias confortáveis e um café com canela especial que só faço quando ela aparece. Passamos, por vezes, o dia juntas, mas ela sempre vai. Ela sempre volta.

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Júlia H. G.

“Amante das exatas com coração de humanas. Descobrindo nas palavras uma válvula de escape para tanta reflexão guardada.”


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