Quando o coração dói

Existem momentos na vida em que sentimos uma dor que parece não ter razão. Procuramos os motivos de tamanha tristeza e nenhum grande problema parece existir. A saúde está bem, as contas estão pagas e o dia a dia corre com normalidade.

Então, a gente se pergunta: o que está errado, a ponto de parecer que a vida não vale a pena? Falta dinheiro? O trabalho é demais? Faltam amigos? O que está faltando de verdade?

Acredito que entramos num ritmo de vida e de pensamentos tão acelerados, e em desacordo com nossa natureza, que paramos de perceber o óbvio: falta amor!

Vivemos o dia a dia em função do trabalho, do estudo, das contas pagas no fim do mês. Tentamos com esforço dormir bem para o dia de trabalho seguinte. Tentamos estudar e aprender mais para uma possível promoção no trabalho. Esforçamo-nos por umas horas extras ou bônus de alguma forma. E vivemos os finais de semana com as pequenas e mínimas válvulas de escape que nos sobram, na tentativa de descanso para o recomeço da próxima semana.

Não acho contraditório que tantas pessoas que possuem tanto, ainda não se encontrem satisfeitas com o que têm. Nascendo, crescendo e vivendo numa sociedade em que somos tragados por essa obrigatória onda de trabalho e crescimento profissional, perdemos as oportunidades de crescermos em nossa essência. Deixamos de lado a nossa alma, nosso espírito lento e tão cheio de sentimentos leves.

Na falta de um olhar mais demorado para o céu ou para um flor, sentimos necessidade de uma viagem mais cara. Na ausência de um deitar-se mais demorado, buscamos uma compensação no se ter uma cama ou um quarto melhor. Sem a possibilidade de dispender tempo com os que amamos, passamos a acreditar que precisamos dar mais bens materiais para expressar o amor que não podemos dar.

Os bens materias e sonhos de consumo sem fim nos consomem, como uma busca de compensação por tudo aquilo que deixamos de viver.

Esquecemos que uma casa melhor não substitui quem está dentro dela. Deixamos de lado o fato de que um carro novo também não nos leva àqueles que amamos, se não temos tempo. Uma viagem cara não compensa o ano inteiro dedicado ao trabalho em excesso e em falta com a gente mesmo. E nem roupas de marca compensam a falta de cuidado com o corpo, em função do sedentarismo do dia a dia.

Sim: falta amor nesta vida!  E falta tempo para amar!

Falta tempo para estar com a família, com os amigos, com os animais, com a natureza e com a gente mesmo.

Não falta dinheiro para uma casa nova, para um carro novo ou o que for.

Falta consciência para perceber o que realmente falta.

Quando chegamos em casa, tão exaustos do dia trabalho e da noite mal-dormida, ainda pensamos no salário que não compensou o tamanho esforço. Sem nos darmos conta, passamos a acreditar que o salário maior é a solução. E então entramos numa “bola-de- neve” sem fim, em busca de mais, quando o que falta é o amor.

Amor pela própria vida, que consiste nas pequenas coisas, de forma lenta, silenciosa e suave. O cantar de um passarinho, o pôr do sol, o sorriso de uma criança ou o afago de um bichinho de estimação. Alguém para amar.

O que compensa de verdade aquece o coração, mesmo numa casa simples, onde há falta de de riqueza material e luxo.

E quando procuramos no lugar errado, então o coração avisa: ele dói!

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Carolina Vila Nova é brasileira. Tem cidadania alemã, 40 anos. Escritora e Roteirista. É autora dos seguintes livros: “Minha vida na Alemanha” (Autobiografia), “A dor de Joana” (Romance), “Carolina nua” (Crônicas), “Carolina nua outra vez” (Crônicas), “Vamos vida, me surpreenda!” (Crônicas), “As várias mortes de Amanda” (Romance), “O dia em que os gatos andaram de avião” (Infantil), “O milagre da vida” (Crônicas) e "O beijo que dei em meu pai" (Crônicas). "Nosso Alzheimer." (Romance), Disponíveis na Amazon.com e Amazon.com.br



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