Quando escrever é o seu melhor desabafo…

Quantos são os momentos da vida em que se pode ser sincero? A dúvida não é sobre ser  “muito sincero” ou “sincero quase mal educado”, mas sim sobre ser “completamente sincero”?

No geral, todo mundo passa os dias tentando convencer uns aos outros sobre a própria sinceridade e isso faz parte do jogo de cinismo e sobrevivência da vida em sociedade, mas nós também sabemos que não aguentamos um nível pesado de sinceridade. A gente precisa de aprovação social, de manifestações de apreço, de alimento ao ego e por aí vai…

Mesmo nesse contexto, pode surgir em algum momento a necessidade de desligar os filtros, de ausência de luz e de um mergulho profundo no mundo perigoso e conturbado das próprias mentes com seus zilhões de pensamentos conflitantes entre si e, quase sempre em conflito com o que se projeta para o mundo exterior.

É claro que nem todo mundo possui essa necessidade (ou esquisitice – admito), porém um palpite possível para os que a tem, é que escrever pode ser uma forma de se fazer essa viagem com uma expectativa de bom resultado.

Mas escrever sobre o quê? Sobre qualquer coisa que esteja passando pela cabeça, seja ela boa, seja condenável, seja feliz, seja dramática, seja fútil, seja engraçada, seja irrelevante. Trata-se de escrever sobre fatos, pessoas, memórias e como tudo isso nos afeta. Como esse mergulho não ocorre todos os dias, não se trata de escrever qualquer coisa de modo forçado ou disciplinado; essa escrita não tem rigor algum; é sob demanda, e por esse motivo, não sei se “diário” seria o termo mais apropriado aqui.

Extrair para o papel ou para a tela o que está encravado – e muitas vezes escondido – na própria cabeça confusa sempre me pareceu um modo melhor e mais eficaz de organizar os pensamentos, ao invés de apenas mentalizar sobre determinado assunto enquanto faço algo físico (dirigir, tomar banho, caminhar etc).

Escrever nessas condições é quase como travar um diálogo consigo mesmo, em que as melhores palavras são buscadas para permitir a maior fidelidade possível ao que de fato está acontecendo dentro do seu mundo. É provável que isso o forçará a valorizar mais o sentido das palavras como um todo, e ao mesmo tempo, aumentará sua compreensão sobre o que se passa por trás dos olhos. É algo como perceber a existência de toda a escala Pantone em vez de limitar-se apenas às cores primárias.

Pode parecer uma analogia ridícula, mas ao planejar um novo empreendimento, um dos conselhos mais repetidos pelos consultores é “faça um plano de negócios”, que consiste em colocar no papel todas as questões que envolverão seu projeto: concorrência, marketing, planejamento financeiro etc. Com isso, a ideia é de que o futuro empresário enxergue melhor o cenário como um todo e identifique os pontos positivos e os pontos em que o empreendimento é frágil.

Como sabemos, o aprofundamento na sinceridade quase sempre nos leva a choques decorrentes de um enfrentamento com questões que tentamos evitar a todo custo.

Então quando se busca coragem e disposição para se escrever sobre elas, a pessoa se vê obrigada a solitariamente enfrentar neuroses (no sentido pejorativo, é claro) e a ter que lidar com elas de alguma forma. A escrita obriga ao desenvolvimento de raciocínios que envolvem a tentativa de encontrar explicações para essas neuroses. No final, pode ser que não haja conclusão alguma, mas pelo menos aprende-se um pouco mais a lidar com questões internas que afligem.

Por outro lado há o alento de também ocorrer o surgimento de insights muito poderosos que nem sempre aparecem quando se está divagando no banho com olhar fixo para o shampoo e a boca aberta.

É possível supor que esses insights nascem também do esmiuçamento do pensamento, daquela mesma tentativa de se explicar algo melhor no papel. Por isso escrever pode sempre render alguma revelação que faz cair da cadeira, sempre imprevisível e sempre bastante chocante.

Além disso, escrever sobre o que acontece também serve para registrar situações no calor do momento antes que elas sejam afetadas pela suavização injusta da passagem do tempo, e assim, lá na frente, se houver alguma dúvida, será possível analisar mais uma vez os pontos que levaram à decisão tomada.

Mais uma vez, trava-se um diálogo interno, e é possível referendar a decisão tomada ou perceber o quão estúpida ela foi. No primeiro caso, há até um certo alívio. Já o segundo costuma ser embaraçoso, mas, por outro lado, se aquela decisão agora parece ter sido equivocada, isso significa que alguns passos adiante já foram dados no quesito “julgamentos”. No fim das contas, tudo isso é resultado simples da liberdade que temos e da responsabilidade inerente às decisões que tomamos na vida.

Outra coisa muito considerável é que ao desabafar de forma inconsequentemente sincera com um amigo/parente/analista, sempre há algum temor quanto ao julgamento de quem está lhe ouvindo. Por mais que você ouça da pessoa que ela está ali com postura isenta, você sabe que ela não é um robô. Então como qualquer pessoa, quem te ouve faz julgamentos sim, e a diferença é que esses julgamentos estarão viciados pela relação de amizade ou parentesco.

Então, além da terapia/análise não estar presa ao julgamento a que amigos e parentes estão, escrever também possibilita maior libertação dessa amarra do conceito alheio, pois permite à pessoa ser ridícula ou ser cruel sem crise de consciência. Do lado de cá, há dúvidas sobre o limite do tom da escrita já que pode haver uma exacerbação de algumas reações. Tenho um amigo (sei…) que, quando escreve, demonstra uma autocrítica bastante implacável e impiedosa. É possível que isso não tenha relação direta com a escrita em si, mas sim com as complicações existentes na mente que controla a caneta/teclado. Não sei.

Por fim, escrever também funciona como uma válvula de escape pois permite extravasar violentamente sem atingir ninguém. É possível escrever 30 linhas sobre o péssimo caráter de determinada pessoa, ou então escrever duas páginas sobre os detalhes mínimos daquela mulher interessante que você conheceu recentemente. Num dia de chuva em que não é possível caminhar ou correr, ou em que a preguiça de fazer essas coisas vence, escrever pode gerar aquela sensação de leveza, de descarrego, de faxina que coloca na calçada todo o entulho que mantinha uma energia errada dentro de casa.

 

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Fábio Moon
Num mundo digital, porém pensando, agindo e sentindo ainda de forma analógica.



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