Quando envelhecer, quero ser velha

Sempre tive verdadeira paixão pela figura do velho sábio ou da velha sábia das histórias. Aquela personificação da sabedoria, de cabelos brancos, serena ou ranzinza, não importa, sempre cheia de charadas, histórias e conselhos escondidos nas mangas de lã, para acalmar e orientar os impetuosos e ingênuos espíritos jovens e inexperientes. Os magos e bruxas eremitas, o professor soturno e silencioso, o mestre, a sacerdotisa, o avó, a avó, o misterioso dono da loja de souvenires. Heróis das palavras sensatas, das armadilhas de trocadilhos, dos enigmas de esfinge, da simplificação de coisas que pareciam complexas. A palavra velhice se associa para mim a uma paixão pelo que foi moldado no tempo pela experiência, carrega a ardileza da montanha que tem suas formas trabalhadas pelo vento e ouviu dos ruídos eólicos as estórias murmuradas de todos os cantos, e sensibilizada por esta mesma vibração os conta no silêncio noturno, à luz da lua, para o mundo.

Também as coisas velhas me despertam os afetos, casas, cidades, fotografias, objetos que contam segredos e casos, não sobre o passado, mas sobre uma trajetória confusa, labiríntica, cheia de repetições, dramas e reviravoltas, essa trajetória obtusa do tempo que chamamos de História. As tradições, as vivências ancestrais, as crenças, tudo o que foi se transformando até chegar à nossa existência e que já encontramos como está – nós ainda crus da amplitude do universo, quando revividas pelo contato com as trajetórias que desconhecemos, nos revela tanto sobre nossa condição emergente, sobre o que chamamos de presente, que nos liberta da prisão ilusória de que o relógio anda para frente, quando na verdade caminha em círculos. Nos liberta, depois, da trajetória circular do relógio e nos joga para um voo ao infinito de possibilidades.

Quando criança, imaginei-me em todas as fases da maturação: sonhei cabelos coloridos de tinta na adolescência, amores à mil, diversões infinitas, muita quebração de cabeça e já beirando à juventude, errante em busca de evolução; imaginei-me jovem adulta, deixando os cabelos em paz, já em algum lugar do caminho desencontrado da vida, angariando conquistas, liberdade, um voar de pipa, com as rabiolas para equilibrar os rumos; imaginei-me adulta em meia idade, digladiando com o tédio, avaliando os trajetos, questionando as escolhas, querendo mudança e estabilidade, perplexa em perceber que já naquela idade ainda não estava certa dos rumos do querer, com uma mão alimentando as dúvidas e com a outra cumprindo as responsabilidades; imaginei-me velha, com andar calmo e lento, cabelos brancos e longos ao vento, com aquela beleza singular de quem preservou apenas o essencial da vaidade, para dar espaço ao tudo mais oferecido pela sabedoria das experiências vividas no tempo, que só tempo qualquer um pode ter, mas experiência é o que faz da vida viva. Imaginei-me tornada velha sábia, e não idosa sábia, ou qualquer coisa do gênero.

O politicamente correto veio interromper meu sonho. O desrespeito e desvalorização do velho se tornou um problema de semântica e não de cultura, de comportamento ou de ideologia. Já não se pode ser velho em paz, adolescência eterna é pregada, com requintes de adultice coaching. Nada mais de deixar as rugas falarem a linguagem das telas e das esculturas, mensagem silenciosa e profunda que ninguém parece entender nesses tempos de plastificação do rosto e do corpo – clínicas de estética como um sucateado retrato de Dorian Gray. Também já não diz mais nada a experiência, que estes gênios de ontem já nascem sabendo, e sabem mesmo tanto, só não sei se sabem do que importa. Nada de histórias contadas ao pé do fogão a lenha, ou nas fogueiras de acampamento, na hora de dormir – desenhos da Disney, democraticamente para todos, nos ensinam a viver. Nada de conselhos ou enigmas, todas as respostas se encontram em algum lugar da internet. Nada de mestres, a figura do sábio confundida com a figura do ditador nos instaurou o medo, e todos deveremos reinventar a roda, e todos deveremos reinventar apenas a roda. Viveremos apenas de roda, que o resto, o que for diferente desse objeto que nos colocou à 100 Km por hora, já não importa.

Eu no entanto, persistindo em meu romantismo com a vida, continuo nesse caminho, sonhando que caso sobreviva, veja cada fio de cabelo recebendo as cores da lua, o corpo cedendo à gravidade e a mente se libertando dela. Não quero ser reconhecida pelo meu acúmulo de idade – idosa, não! Quero ser velha. E sábia, talvez me venha com o mérito das experiências que intento, livre do constrangimento das minhas aventuras amorosas, dos meus tropeços ingênuos, das minhas secretas ilicitudes juvenis, dos meus contrassensos. Mais que sobrevivente, quero ser vivida, e então poderei ir tranquila, deixando a vida com um sorriso nos lábios comprimidos de tantas expressões emitidas. Ditar lacônicas charadas da labuta para deixar a liberdade tecer as redes daqueles que se iniciaram na aventura de viver, projetando apenas indícios dos nós.

Quero ser o que não fui e tudo o que fui, juventude alegre e tranquila na alma, enriquecida poção de eternidade das qualidades controversas que ingeri em minhas lidas. Quero ser velha querida, como me foram as velhas e velhos das histórias e alguns mais na vida. E se nunca for lido o meu conto de trajetos confusos, entre passos flutuantes de sonho ou britadores de realismo, eu ainda poderei ser montanha, e narrar os meus contos aos ouvidos da brisa.

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Paula Peregrina
Peregrina de territórios abstratos, graduou-se em Psicologia, trocou o mestrado e uma potencial carreira por uma aventura na Letras e acabou forasteireando nas artes. Cruzando por uma vida de territórios insólitos, perseveram a escrita, a poesia e o olhar crítico, cristalino e estrangeiro de todos os lugares.



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