‘Provo que a mais alta expressão da dor consiste essencialmente na alegria’

‘Provo que a mais alta expressão da dor consiste essencialmente na alegria’

Sempre interpreto esta frase do grande poeta Augusto dos Anjos como a coragem de ser o que se é, por inteiro. A coragem de vasculhar até o que nos dói em busca de um despertar de consciência, em buscar de uma paz maior.

Acredito que deixar que a dor se manifeste em nós é uma atitude de desacomodar e desanestesiar para possibilitar virem à tona lados nossos que, por diversos motivos, marginalizamos e camuflamos dentro de nós mesmos.

Na correria dos dias, na necessidade de nos mantermos firmes e fortes, na falta de tempo e de energia, mascaramos nossas dores e tristeza. E assim, sem querer, deixamos de vivenciar, de sentir, de entender e consequentemente de curar um sentimento que precisa de atenção.

Todos nós temos momentos de dores e de tristezas e acredito que esses sentimentos, rotulados negativos, sempre têm algo a nos revelar sobre nós mesmo e sobre a nossa vida.

Sentir-se triste pode significar que a vida está nos pedindo uma reflexão mais profunda, ou um momento de parar para respirar e se deixar doer.

Encarar a dor pode ser um encontro profundo consigo mesmo. A dor pode ser um desequilíbrio que nos tira da zona de conforto, pode ser um chocalhão psicológico, pode ser a erupção de algum sentimento antigo, esquecido, algo mal resolvido e ignorado por tanto tempo e que agora começa a pedir a devida atenção.

Evitamos encarar a dor e a tristeza, pois elas podem nos pedir mudanças, coragem, energia, atuação. Podem estar mostrando que nossos caminhos devem ser repensados.

Precisamos estar abertos para os momentos de tristeza, assim como estamos para os momentos de alegria. Pois ignorar nossas dores, e seguir em frente como se elas nunca tivessem se manifestado, é arranjar um efeito paliativo, é empurrar a sujeira para debaixo do tapete. As dores continuam existindo em algum canto da alma. E provavelmente um dia voltarão de alguma forma, ou vão viver deixando seus rastros mansos e contínuos nos dias.

E se desenterrarmos nossos mortos? e se dialogarmos com nossos medos? e se nos deixarmos ser fracos um pouco? e se abdicarmos da paz mais fácil? Acredito que como disse o poeta, encontraremos a alegria, uma alegria mais genuína. Ou o que eu gosto de chamar de a paz maior.

Isso tudo me faz lembrar de uma frase de outro grande poeta, Paulo Leminski: ‘isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além.’

E para terminar este texto cheio de dores e alegrias, compartilho um pequeno poema meu:

‘Às vezes é preciso morrer por amor à vida
Criar guerras por querer a paz maior
Deixar a febre ferver nas veias para que surja a cura
Mudar o rumo da história para encontrar face a face uma versão nossa que sempre quisemos conhecer

Seguir por novos caminhos para que a beleza permaneça’

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Clara Baccarin
Clara Baccarin é poeta, escritora e tradutora. Autora do romance Castelos Tropicais (Ed. Chiado, 2015), e do livro de poemas Instruções para Lavar a Alma (Ed. Sempiterno, 2016). É uma contadora de histórias que adora poetizar o mundo. Escreve por amor e rebeldia: desconstruindo verdades, brincando com as palavras e ressignificando a vida.



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