PRECIOSA: Uma história de trauma e superação.

Preciosa é um filme denso! Em que diversos momentos podemos sentir a sensação de falta de ar ou um golpe no estômago, pois conta a saga de uma adolescente de 16 anos que possui todas as marcas e amarras da exclusão social, por ser uma mulher, pobre, negra e gorda. É uma história de dor e resiliência em que a personagem supera não só uma vida de exclusão pela sociedade, bem como negligência e abuso sexual intrafamiliar. Estes são os ingredientes narrados no filme e, que gradualmente, são trabalhados por Preciosa, a personagem, em sua vida.

Ficha técnica:

Filme: Precisosa   

Direção: Lee Daniels

Produção: EUA

Ano: 2010

A história se inicia com a adolescente já possuindo um filho, fruto do abuso sexual do próprio pai. Ela tem sérios problemas na escola, não tem boas notas, permanece isolada do grupo de alunos e sua mãe acredita que estudar é uma grande perda de tempo imposta pela sociedade dominante. Sua mãe prefere que ela fique em casa cuidando do filho, da casa e da própria mãe. É conivente com todas as práticas perversas e abusivas do marido em relação à filha. Neste cenário dramático, a jovem engravida do pai pela segunda vez e ao descobrirem que estava grávida do segundo filho, a diretora de sua escola a transfere para uma outra escola adaptada, que seria mais adequada a sua situação.

Lá é recebida por uma professora, que será ao longo da trama, o suporte forte e seguro para que Preciosa possa superar os entraves de sua vida. Esta é uma verdadeira educadora que possibilita aos seus alunos não só o conhecimento formal necessário, mas também a possibilidade de seus alunos em Ser. Ela reconhece o Ser em cada um e deseja que eles se descubram a fim de realizarem seus projetos de vida. Logo no primeiro dia de aula pede aos alunos que se apresentem, falem seu nome, a cor que mais gostam e o que sabem fazer bem. Pode-se dizer que aqui, um primeiro fator de resiliência se apresenta, pois, este é um agrupamento de alunos caracterizados por não serem “competentes” o suficiente para frequentarem uma escola comum e assim, trazem grandes marcas de baixa autoestima. Nesse sentido, a professora não corrobora com o não saber, mas sim com as qualidades e os recursos internos de cada um. Ela estimula o que há de bom em cada um deles e isso lhes dá uma existência, um sentimento de pertencimento e empoderamento.

É a partir da frequência nessa escola que Preciosa passa a se reconhecer porque é percebida por alguém, pela professora e, mais tarde, pelas amigas de classe. Nota-se esse fato, pois até então, quando Preciosa se olhava no espelho, esta não enxergava a si própria, mas sim uma personagem que era sempre uma fantasia do que gostaria de ser, famosa e exuberante como as cantoras e atrizes de cinema. Só que agora, a partir do reflexo do espelho e sem subterfúgios, consegue realmente se olhar de fato como é.

Interessante perceber que a personagem principal, por diversos momentos usa a fantasia como recurso de proteção à sua psique. Dois exemplos marcantes podem ser explicitados: quando, um dia, saindo da escola, um grupo de meninos adolescentes a abordam e a espancam e enquanto eles batem nela, Preciosa vai para o mundo de sua fantasia protegendo-se da dor física e psíquica; o mesmo acontecia quando seu pai a molestava. Nesse sentido, pode-se pensar que a fantasia para Preciosa contém o fator de resiliência, pois era nela que encontrava acalanto e cuidado (que ninguém dava), mas, ao mesmo tempo, mostra claramente que nestes momentos a personagem dissociava. Não como uma defesa patológica, mas uma defesa compensatória como instrumento necessário para aguentar a dor. Era necessário dissociar corpo e psique, pois essa dor era demasiada para o ego poder aguentar.

Percebe-se também que Preciosa teve um grande trauma em seu desenvolvimento, era abusada sexualmente tanto pelo pai quanto pela mãe. A repetição dos eventos traumáticos provocados pelas figuras parentais causou tamanho dano que a jovem não sabia diferenciar amor de sexualidade e poder. Assim, ela esperava angustiadamente que seu pai se casasse com ela como prometera.

Como sair dessa situação toda? Uma história cheia de violência como essa não pode ser superada iniciando-se um trabalho terapêutico com enfoque direto na dor. Há de se começar pelos recursos para melhor estruturar o ego, assim como a professora o fez. Esta possibilitou que Preciosa enxergasse seu próprio valor, permitiu-lhe a validação de sua existência.

Quando lidamos com trauma precisamos cuidar, dar suporte e encontrar recursos para reestruturar o indivíduo. Após este trabalho pode-se acolher a dor e ajudar a pessoa a ressignificar sua vida. Todo cuidado deve ser tomado para que não haja um processo de retraumatização, ou seja, levar a pessoa a relembrar suas dores e ser novamente sugada pela mesma, sem estar preparada para tanto pode ser mais prejudicial do que terapêutico.

Preciosa passa a ter um ritual de escrever num diário as coisas que passam com ela, e este foi outro recurso positivo para ela. Percebe-se que a escola, a professora, as amigas e esse ritual de escrita são um conjunto de fatores que abriram portas para que a personagem aprendesse a se enxergar, a se cuidar e conseguir olhar o outro. Sua consciência foi se ampliando e, a partir daí Preciosa passa ter mais crítica em relação ao que passou em sua vida e seus medos não a paralisam mais.

A partir das novas relações, Preciosa pode começar a se empoderar de seus recursos internos e retomar a capacidade amar. Amor e sexualidade estavam deturpados devido aos abusos e violência que tanto sofreu. Quando pôde começar a ressignificar suas relações, passou a ser capaz de cuidar-se melhor, de se gostar e assim de cuidar do outro. Com o nascimento do segundo filho, Preciosa pode se reconectar com uma nova forma de amor, sente que precisa protegê-lo e que a melhor pessoa para cuidar de seus filhos é ela mesma. Este processo começa com a professora da escola alternativa, com as amizades que faz ali onde pode ser alguém com um valor. Depois vemos o carinho com que o enfermeiro cuida de seu filho e dela mesma. Esta nova forma de relacionamento permite que Preciosa descubra o que é amar verdadeiramente, ser cuidada e cuidar. O olhar do outro com amorosidade ajuda Preciosa a se reconhecer como pessoa e se valorizar.

Este processo de transformação que vemos no filme nos faz pensar o quanto o abuso pode deturpar a autoestima da pessoa e criar traumas e marcas profundas na psique e na alma de quem sofre com a violência.

Preciosa, além de todo sofrimento, ainda escondia de todos o abuso para garantir que a mãe recebesse o auxílio da assistente social.  Existia ali a manutenção de um grande segredo familiar que não podia ser revelado, o que é muito comum nestes casos. A mãe era conivente com os abusos e ainda parecia ter ciúmes de Preciosa, pela relação que esta tinha com seu pai.  A mãe sentia que sua filha tirou seu homem dela e a odiava por isso. Dizia que ela não valia nada e faz sua existência ser marcada por desprezo e pelos maus tratos. Nota-se aqui que a própria mãe da jovem tinha uma visão deturpada do amor, do cuidado e da sexualidade.

A partir do momento que Preciosa se fortalece e ressignifica o amor pode se separar desta relação com a mãe. Ela começa não aceitar mais as agressões da mãe e sua forma bruta de cuidar. Descobre que cuidar é amar e que pode ter um novo jeito de se relacionar com seus filhos e com o mundo.

Preciosa é uma sobrevivente, sua capacidade de resiliência e muito forte! Supera tudo e a todos e descobre um novo sentido para sua vida através do fortalecimento de seu ego e das experiências de transformação de suas próprias dores e das vivências amorosas que encontra em seu caminho. Não podemos imaginar se ao final da história ela conseguirá realmente alcançar uma vida mais digna, mas com certeza nossa esperança é de que ela, assim como tantas outras mulheres reais que sofreram e sofrem relações abusivas em sua vida consigam essa superação.   

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Este texto foi produzido por Marcia Berman Neumann e Karina Ishimori, membros da Comissão Organizadora do Cine Sedes Jung e Corpo com base nas reflexões realizadas durante o evento realizado em abril de 2016, com os comentários da Professora e Psicoterapeuta Junguiana Amana Perrucci Machado Confort, da Psicóloga Psicoterapeuta Junguiana  Neusa Sauaia e da Psicóloga e Psicoterapeuta Junguiana Beatriz Otero.

O Cine Sedes Jung e Corpo é uma atividade extracurricular do curso Jung e Corpo: Especialização em Psicoterapia Analítica e Abordagem Corporal do Instituto Sedes Sapientiae de São Paulo.

É um evento gratuito e aberto ao público geral organizado pelos professores do curso em conjunto com ex-alunos e ocorre todas as últimas sextas-feiras dos meses letivos do curso.

Material reproduzido na Conti com autorização.

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