Porque a adequação me doía, eu me reinventei

Imagem de capa: Ben Giles

Por que eu não pude ser mais do que era a minha essência, porque eu não pude dar mais peso à persona do que à alma, porque eu também não pude mais viver nos cantos de mim mesma, e meus olhos vivos teimavam em quebrar as cascas que eu mesma moldava em mim, porque a adequação me doía, eu me reinventei.

Daí ouvi os ensinamentos do vento. Um deles dizia que o amor pode ser como um canteiro de flores, ou uma horta, não adianta plantar as sementes sem preparar a terra, não adianta plantar as sementes e todas as manhãs abrir a janela cheia de expectativas no coração, a espera de que as cores e aromas brotem do chão. Não adianta colocar fertilizante, se o coração quer o que é saudável e espontâneo.

Não adianta esperar belezas de fora sem doação, sem colocar as próprias mãos, sem amor, sem empatia com o solo, com o outro, com o tempo e com o que o mundo quer de nós naquele momento. Se a terra e o coração estiverem em tempos de seca, é melhor respeitar, se a terra e o coração estiverem férteis, é bom plantar e cuidar e deixar que surja o que vier. Pode ser que o manjericão cresça lindo, mas a lavanda morra. O amor é no seu tempo, e do seu jeito, é presente, é presença, é surpresa. Se vier, que lindo, deixa ser o que vier, se não vier, tudo bem, é assim que agora deve ser. Confia e acalma o peito.

Daí o vento me disse que não importa a hora, o dia, o ano, não importa o que passou e eu não cumpri, não importa o que eu não pude ser para conquistar as coisas. Há uma maré mansa no meu peito, onde meu barco sem vela aporta. Naturalmente. E o meu roteiro de vida segue esse caminho, pode ser que seja tão diferente dos barcos que se auto-guiam, que voam com seus motores potentes, que erguem seus mastros onipotentes. E o meu segue esse vento leve de dentro. Só sei que ele sobrevive e ama, no seu tempo, na sua dança. E vai desenfreado e leve por paraísos desconhecidos.

Há uma doçura intrínseca em encontrar essa selvageria de dentro. E a gente que se deixa ser assim, inventa espaços para caber neste mundo.

Meu coração cabe num poema, pois nele pode transbordar. Meu coração cabe numa árvore, numa canção, num olhar. Meu coração cabe nessa semente que plantei e eu nem mesmo sei se vai brotar. Ele cabe apenas no que a vida quer me dar.

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Clara Baccarin
Clara Baccarin é paulista dos interiores, nascida nos anos 80. É escritora, poeta e agitadora cultural. Faz parte do grupo editorial Laranja Original e escreve regularmente para o site Conti Outra. Publicou, pela editora Chiado, o romance poético Castelos Tropicais (2015) e a coletânea de poemas, pela editora Sempiterno (2016), Instruções para Lavar a Alma. Em 2017 lança, em parceria com músicos e compositores, o álbum Lavar a Alma, que reúne 13 de seus poemas musicados.

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