Por que continuamos?

 

Após uma fase em que me peguei reclamando muitas vezes de cansaço, falta de tempo e desânimo, adoeci gravemente por quase três semanas e tive tempo de sobra para refletir sobre qualquer coisa que fosse. Claro que me entristeci, mas uma coisa era clara: a doença era resultado de um momento de depressão. E não o contrário.

Por mais que eu tentasse enxergar motivações, externas ou em mim mesma, parece que tudo que eu via era a falta: a falta de amor, a falta de dinheiro, a falta de tempo, a falta de amigos e a falta de perspectiva. Além de uma crise no país que era assunto em qualquer jornal, sites e no dia-a-dia de maneira geral. Todos temendo um futuro incerto.

Então tudo parecia estar perdido. Não faltava mais nem mesmo perder a saúde. Confesso que senti medo. Porém, uma semana após a minha recuperação, tudo simplesmente mudou. Meu trabalho ficou mais motivador, alguns amigos ficaram mais próximos e em todas as pequenas coisas do meu dia-a-dia eu comecei a encontrar razões para me alegrar.

Mas na verdade nada mudou de verdade. Tudo continuava igual e no mesmo lugar. E mesmo de volta a uma vida corrida, voltei a refletir sobre minha melhora que não era apenas física, mas emocional. Se nada tinha mudado, por que raios eu estava me sentindo tão radiante? E não que fosse ruim, mas saber a resposta era ter a chave para futuras crises de desânimo.

Conclui que nosso velho instinto de sobrevivência me mudou por dentro. Mexeu alguns pauzinhos, ajustou alguns parafusos e “voilà” (Aí está): ressurge uma nova pessoa, numa mesma vida, mas simplesmente com novas sensações.

Na minha nova semana, fiz coisas novas, busquei conhecer pessoas e rever outras que valiam a pena. Enviei mensagens para quem antes eu nem respondia direito. Fiz ligações! E me dei conta de que nunca fazia isto.

Estava cansada do meu mundo e da minha rotina. E quando retornei, estava milagrosamente renovada de uma fase que havia sido ainda pior: a doença.

Passamos a vida reclamando daquilo que nos incomoda, nem que seja o molho da salada que nos desagrada o paladar e nos apegamos àquilo como se fosse um problema sem fim.

Está certo que problemas graves cruzam nosso caminhos. Diante da morte, da doença, da carência material e afetiva, por vezes desejamos o fim. Nos imaginamos em outro mundo, numa vida diferente. E quando abrimos os olhos não nos conformamos com a vida que temos.

Entendi que por pior que seja uma situação, sempre chega um momento em que tudo começa a se reverter. De dentro, a esperança e perspectiva de algo melhor que está para chegar toma conta de nós mesmos de uma forma discreta, vai aumentando a cada dia e nos trás de volta o prazer de viver.

Somos todos pequenos, frágeis e carentes. Nem mesmo sabemos de onde viemos e para onde vamos. E ainda assim vivemos a vida como se nela nunca houvesse um fim.

Apesar de toda a minha reflexão na busca pelo que me curou a doença da alma, para ter o remédio sempre à mão, entendi que a alma tem seu próprio ritmo e sua própria vontade.

E continuamos sim. Humanos com instinto de sobrevivência que se manifesta pelo milagre da esperança. Mesmo quando tudo continua igual. Mas passa a ser sentido de forma diferente.

A vida continua!

E nós simplesmente seguimos com ela!

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Carolina Vila Nova é brasileira. Tem cidadania alemã, 40 anos. Escritora e Roteirista. É autora dos seguintes livros: “Minha vida na Alemanha” (Autobiografia), “A dor de Joana” (Romance), “Carolina nua” (Crônicas), “Carolina nua outra vez” (Crônicas), “Vamos vida, me surpreenda!” (Crônicas), “As várias mortes de Amanda” (Romance), “O dia em que os gatos andaram de avião” (Infantil), “O milagre da vida” (Crônicas) e "O beijo que dei em meu pai" (Crônicas). "Nosso Alzheimer." (Romance), Disponíveis na Amazon.com e Amazon.com.br



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