Podíamos ser todos urubus

É melhor ser urubu ou beija-flor? Assim, fazendo a pergunta à queima-roupa, acho que tem chance dessa pesquisa dar 100% de votos a favor do beija-flor. Mas eu vou tentar fazer a defesa do urubu.

Há muito tempo, li em algum lugar que os urubus têm o voo que é considerado o mais bonito de todos os pássaros. Essas coisas que a gente lê e depois não se lembra de onde leu, mas a informação fica estocada em algum lugar do cérebro. E vendo os urubus voarem, eu tive que concordar. Eles planam pelas correntes de ar quente, quase sem esforço. Olhando pra eles, parece que estão sempre voando só pelo gosto de voar, não pela necessidade de fazer alguma coisa, como fugir de um predador ou buscar comida, como os outros pássaros. Urubus são diferentes. Parece que nunca têm pressa e que só mesmo o prazer de voar é que os move… Ainda que racionalmente a gente saiba que eles devam estar sempre procurando comida, claro.

Pombas, pardais e sabiás dão a impressão de que estão sempre atrasados e que têm um horário pra cumprir ou um trabalho por fazer. Voam com pressa, não muito longe do chão, batendo as asas para ganhar velocidade, enquanto os urubus na maior parte do tempo planam e voam muito mais alto que todos eles.

Eu trabalho de frente para uma janela, no quarto andar de um prédio, o que quer dizer que eu tenho visto um monte de urubus. Eles têm aparecido bastante por aqui e costumam pousar no prédio em frente, voando em círculos perto dele, sempre tranquilos, com aquela elegância de quem sabe que vai dar tudo certo no final, gastando o mínimo de energia possível.

De uns tempos pra cá, também tenho visto um casal de carcarás (imagino que seja um casal, já que sempre voam juntos). Eles aparecem mais raramente, pela manhã e pela tarde, como se estivessem primeiro indo e depois voltando do trabalho, sempre com pressa, apesar de terem um voo mais conformado e mais tranquilo, próximo ao dos urubus, mas muito mais objetivo. Eles sabem que estão indo para algum lugar e parece que não podem se atrasar. Não têm tempo para planar, precisam bater suas grandes e potentes asas e chegar logo.

As maritacas, por outro lado, estão sempre em bando e em altíssima velocidade, fazendo muito barulho e apostando corrida, como se fossem adolescentes que acabaram de aprender a voar. Saindo pelas ruas da cidade, parece que somos todos maritacas.

Ou pior ainda, beija-flores. Um beija-flor está sempre voando rápida e desesperadamente para dar conta de um apetite voraz, que consome até 30 vezes o seu peso em alimento por dia, levando o coração a bater mais de 2000 vezes por minuto, enquanto as asas chegam a 90 vezes por segundo, gastando de 6.600 a 12.400 calorias por dia.

Tudo é tão rápido e desenfreado na vida de um colibri que o único objetivo que ele pode ter é conseguir se alimentar para manter o voo rápido em busca da comida que vai manter o voo rápido em busca da comida que vai manter o voo rápido em busca da comida, a cada segundo e a cada dia. Um beija-flor não tem tempo nem para olhar a paisagem, só o tempo de pousar em um galho e tomar fôlego, antes de sair novamente em um voo rápido atrás da comida que vai manter o voo rápido atrás da comida que vai manter o voo cada vez mais rápido de um beija-flor sempre insaciável, que nunca pensa que o sentido de tanta correria é só alimentar a própria correria que não permite que ele pense. Correria que vai consumir a sua vida enquanto ele voa cada vez mais rápido até a próxima flor, ou, se morar na cidade, até o próximo recipiente cheio de água açucarada, mais fácil de consumir que as flores que traz no nome.

E ainda assim, ninguém quer ser urubu. Que pena.

Talvez depois dessa argumentação, apresentando urubus e beija-flores através de pontos de vistas diferentes, a resposta possa mudar. Tudo é relativo. Alguém que nunca se viu como urubu, talvez agora já possa se imaginar planando em uma corrente de ar quente, acima dos prédios da sua cidade.

Em tempos tão binários, apreciar o voo dos urubus pode ser uma forma de começarmos a ampliar os nossos horizontes.

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Fabio Brandi Torres
Nasceu 15 dias antes da chegada do Homem à Lua e é dramaturgo, roteirista, tradutor e produtor, mas conforme a ocasião, também pode ser operador de luz, de áudio, bilheteiro, administrador e contrarregra, ainda que não tenha sido camareiro, mas por pura falta de oportunidade. Questão de tempo, talvez, já que quando se faz teatro por aqui, sempre se cai na metáfora futebolística do bater escanteio e correr pra cabecear. Aliás, se aposentou do futebol na década de 80, quando morava em Campos do Jordão, depois de uma derrota por 6×0 para o time de uma escola adversária, cujo nome não se recorda. Ele era o goleiro.



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