Pelo direito de ser você mesma

Enrolei muito para escrever sobre gordofobia, que é algo tratado como “bobagem” e mimimi por quem nunca sofreu na pele algum tipo de discriminação ou constrangimento pelo seu peso.  Esse texto não é polarizado, não é uma ode ao ganho de peso e nem uma censura à perda dele. A busca é começar um diálogo, falar da importância da sororidade e sinalizar a opressão que está acontecendo.

Estamos massacrando umas as outras por estarem acima do peso e do padrão de beleza considerado como “aceitável”. Precisamos conversar sobre isso quando mulheres são destratadas, discriminadas e são alvo de preconceitos por uma marca que é ícone fashion carioca, que é considerada uma das marcas mais influentes de moda jovem feminina.

Em tempos que blogueiras fitness tem milhares de seguidores no Instagram e no Youtube, deixando claro o crescente interesse de alcançar aquele corpo idealizado. O preocupante não é a viralização do que elas postam, mas o poder de influência que essas blogueiras têm. Elas dão dicas para treinos, dietas e detox com uma restrição que beira ao radicalismo, padronizando dietas que deveriam ser individualizadas.

Fazendo parecer que é apenas seguir um “manual de instruções” que iremos alcançar o peso ideal, mas na realidade não é bem assim que funciona. Pode até funcionar um período, porque essas dietas restritivas causam um efeito rebote quando são quebradas. Como nós sendo tão diferentes, podermos fazer a mesma dieta e querer que funcione?

A nossa diversidade é tão rica, e o poder da nossa individualidade é o que nos torna únicas, mas apesar disso, o padrão vendido é um só, a receita é uma: a perda de peso, às vezes em detrimento da própria saúde, a busca desenfreada pelo corpo ideal, como ser magra modo de usar.

Isso é arbitrário, a imposição de um padrão de beleza absoluto, sendo que nós somos milhares e não poderíamos ser mais diferentes entre si. O estereótipo vendido obriga se enquadrar nessa padronização, nessa camisa de força para ser considerada desejável ou atraente.

O importante não é ser magra, o que importa é ter saúde, é amar cada pedaço de si mesma, é não ter vergonha da própria imagem refletida no espelho. É escolher o que é melhor para você e não o que a mídia, a moda te impõe como padrão de beleza. Afinal essa não é apenas uma questão estética, é um assunto de saúde pública, pois meninas e adolescentes adoecem e por vezes, morrem oprimidas por um padrão inatingível de beleza.

Nós mulheres temos que pensar na mensagem que estamos reproduzindo, conscientemente ou não. Repensar se nós temos que emagrecer para caber nas roupas ou se as roupas que devem ser feitas para caber no nosso corpo?  Que imagem queremos passar para as meninas, para as adolescentes, que só existe um modelo de corpo ideal, que só existe um padrão aceitável de beleza, que uma mulher só é considerada bonita se ela for magra? Ou iremos mostrar outros tamanhos, outras curvas, outros corpos e finalmente rompermos com esse padrão engessado e mostrarmos que mulher bonita é mulher à vontade na própria pele, independente do seu peso e suas medidas?

Cada corpo tem uma história, cada quilo a mais ou menos, cada marca de expressão, cada olheira, cada cicatriz, cada peça desse quebra-cabeça conta a nossa trajetória, como chegamos até aqui. A vida não é simplista, nem as pessoas, nem suas bagagens de vida. A gente tem que respeitar a história das pessoas! A gente não deve projetar nossos ideais particulares do que é belo ou atraente no outro, usar nossa régua para fazer o outro se sentir mal. Devemos parar com a insatisfação seletiva e nos colocar no lugar do outro.

Você acha bonito ser magra? Maravilha, mas não desqualifique quem não estiver no seu padrão ideal, use-o somente para você. O seu corpo é seu, o meu corpo é território meu, me deixe ser o que sou e permita me emancipar com ele.

Não vamos oprimir as outras mulheres, os meios de comunicação e a indústria da moda já fazem isso sem precisar da nossa ajuda. Não vamos competir com outras mulheres, humilhá-las por não ser magras, o machismo já nos segrega e objetifica desde sempre.

Nós temos que ser amigas uma das outras e não rivalizar em uma quebra de braço invisível. Estamos começando a nos dar conta que juntas somos mais fortes, somos irmãs e que a sororidade nos torna uma potência. Enquanto uma mulher for oprimida, seja em qualquer esfera, nenhuma de nós está livre.

O feminismo nos dias atuais é só um sinônimo para igualdade de gênero, isso implica também nos direitos e não só nos deveres como tem sido. Cada vez que usamos a empatia, quando somos solidárias e defendemos umas às outras nos fortalecemos e enfraquecemos a sociedade patriarcal, o machismo, o sexismo, a misoginia. E damos mais um passo na direção do que queremos ser. Livres, para sermos quem quisermos.

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Ana Carolina Garcia
Vivo entre a ponta da caneta e o papel, entre o clique no teclado e a história que desabrocha na tela. Sempre em busca da palavra perfeita, do texto perfeito e do livro perfeito. Acredito no poder curativo da música e de um bom livro. Cinéfila, apaixonada por séries, Los Hermanos e filmes do Woody Allen.



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