Paz roubada

Por Carolina Vila Nova

Bombardeada diariamente com frases de amor na internet, confesso que algumas me tocam profundamente. O amor recém-chegado, o não correspondido, bandido, amante e tanto mais. Amor que mexe com a gente, derruba, levanta, chacoalha, vira a vida do avesso, destrói. E mesmo com toda a dor, começamos tudo de novo, amor após amor. Paixão após paixão. Ou ainda, ilusão após ilusão.

Gosto especialmente das frases: “Não mexa com meu silêncio, se não puder lidar com meu barulho” e “Eu estava em paz quando você chegou”. Mas uma frase, que não trata somente de amor, mexeu recentemente comigo: “Quando acreditamos saber todas as respostas, vem a vida e muda todas as perguntas!”.

Quão profundo é o seu significado. Após tantas histórias vividas, parecia que eu finalmente havia encontrado a minha paz. Entendi quem eu sou e à que vim a este mundo. E embora tenha definido este entendimento como um pouco tardio, também me recordei de que a maioria de nós às vezes passa uma vida inteira sem encontrar tais respostas.

E lá estava ela: a paz interior! A paz na vida, no trabalho, nos estudos, em casa, no parque e em qualquer lugar. Paz advinda da maturidade conquistada, do quebrar a cara com os nós no caminho da vida.

Eu finalmente sabia o que queria e para onde iria. Sabia tanto de mim mesma, que mal cabia em mim. Amor próprio que se manifestava no amor aos demais, fossem na rua ou em um lugar qualquer. Uma fase de certezas e leveza havia se iniciado. Havia me encontrado como nunca antes. Caminho sem volta e amor sem remorso. Com a certeza da razão de minha existência, dos objetivos e sonhos, tudo parecia apenas uma questão de tempo para continuar a viver e ver todo o mais acontecer. A felicidade estava lá.

E exatamente como a frase citada acima, veio a vida e mudou os questionamentos. O novo que me pôs em conflito com meus próprios princípios e fraquezas, da pequena sombra que ainda lá existia: dentro de mim. De um novo ponto de vista, novas reflexões, que nunca antes se fizeram necessárias. A vida veio inesperada e inevitável.

O conflito interior sobre algo que eu ainda não conhecia. Como uma nova e desconhecida flor no habitual jardim. Medo e desespero tomaram conta, senti minha paz roubada, dando lugar às reflexões que pareciam não ter fim.

Tive que me lembrar, que a vida também é um aceitar, muitas vezes daquilo que menos queremos. Entendi que todas as minhas certezas ainda tinham que ser testadas de alguma forma em mim mesma.

As perguntas realmente mudaram. Minha paz se foi por um instante. E apesar do conflito ainda estar ali, aceitei que a vida é assim. Um ir e vir de situações que nos colocam em choque. Como uma brincadeira de criança, somos expostos a alegria da vida com os dissabores da mesma. Aceitar a queda e o joelho ralado nos permitem levantar e continuar correndo, mesmo com a ardência da ferida aberta. Há de haver os momentos em que lamentamos a dor e paramos a brincadeira. Mas quanto antes se aceita, mais cedo se levanta.

As perguntas mudaram.

Mas eu também mudei.

Eu cresci!

Beth Conklin blog
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Carolina Vila Nova é brasileira. Tem cidadania alemã, 40 anos. Escritora e Roteirista. É autora dos seguintes livros: “Minha vida na Alemanha” (Autobiografia), “A dor de Joana” (Romance), “Carolina nua” (Crônicas), “Carolina nua outra vez” (Crônicas), “Vamos vida, me surpreenda!” (Crônicas), “As várias mortes de Amanda” (Romance), “O dia em que os gatos andaram de avião” (Infantil), “O milagre da vida” (Crônicas) e "O beijo que dei em meu pai" (Crônicas). "Nosso Alzheimer." (Romance), Disponíveis na Amazon.com e Amazon.com.br



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