Passando a limpo

Depois de um jejum volto a ter muito tesão em escrever. Passei a manhã e meia tarde curtindo poesia. Isso me deixa muuuuito feliz porque estava esperando esse momento chegar. Foram anos com pedaços da alma escritos ao léu. Sinto-me plena, leve, sem ansiedade nenhuma, sem a mínima vontade de falar com ninguém. Vou economizar grana para sair daqui.

Viva deus em mim. Sou a consciência de mim. Sou espírito livre. Sou uma mulher. Agora sinto que é esta a porta . O caminho continua. A saudade se faz plena do agora. Sinto os lábios sorrindo das imagens. Satisfação pura. O silêncio vingou-me. Não há método, nem formatação, nem mediocridades acadêmicas.
Sou um ser errante cigana mente vagando pelo tempo dentro de um movimento que estava estagnado numa lúcida procura do que realmente vale a pena.

Continuo. É preciso escrever como um exercício diário e para isso acho que as manhãs ficarão mais belas e vivas. Sinto uma súbita mudança no tic tac do coração. Fiquei 24 horas diretas em casa e agora decidi passar este semestre em casa. Enquanto isso Marçal vende meu apê. Compro outro e viajo tudo. Meus gatos são meu amor, minha razão de viver.

O que se faz quando se vive só? O que se pensa quando já se pensou em tudo/ o que viver quando já se viveu de tudo. Comidas, bebidas, conversas podem se tornar tão enjoadas e desagradáveis para um corpo cansado disso tudo. A repetição é uma severa lição de mesmice que mata o coração e leva à morte dos sentidos. Gosto de refletir sobre o que é o tempo perdido. Para mim, tenho me re-educado para aceitar o que não cabe mais. Viver cada vez mais a falta, o vazio, o silêncio. Não vejo outra alternativa. Quero ficar ligada na escrita. Passei muito tempo esperando essa inspiração me pegar pelo coração. Ao viajar e sentir uma estranheza com os outros, vejo que é hora de saber ir dando cor e som ao fim do filme.

A saída daqui me dará grana. E só preciso dela para fazer o que ainda quero fazer. Publicar algo, viajar sempre, manter minhas atividades físicas.

E cá estamos, errando, acertando e por tolices universais, caminhantes mortais, ávidos de estórias, aventuras romanescas. O azul da liberdade se espelha no mar que é sempre o mar, sem amarras, sem fim nem começo, os oceanos de amanheceres cheirosos, com lembranças imensuráveis dos momentos intensos e bem vividos ou por vezes atropelados pela ânsia da juventude. Ao escrever, me liberto e vôo. Há um crazy diamond que não cala, nem se esconde. é tão brilhante que ofusca qualquer pensamento cartesiano. A loucura dos amantes é semelhante. A doçura da infância se compara ao oceano sem vírgulas. É um todo de mitos, mágicas, vultos que aparecem e desaparecem. Para a criança, viver é agora. E a criança brinca muito. Com o tempo, a pureza vai indo embora, e o lugar fica mergulhado no esforço egóico para crescer, criar laços, trabalhar, evoluir e cada vez que uma onda bate forte o sal da água me faz recordar o importante da vida.

AFEIÇÃO

Na sua feição

Ela tinha um sorriso morno

Quase frio.
Um olhar de águia

e a cor de pêssego.
Não mais alegrias obtusas

não mais prazeres tortos.

Na sua feição lia-se: desgosto.

Na tentativa de voar

Dionísio e Baco
Sentir os primeiros
sons de si própria.

Na sua feição
estava escrito
afeição.
branda e larga
circular
entre mentes

entre tantos
mortos
cada risco
era um encontro
cada passo
um adeus.

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Fernanda Villas Boas
Fernanda Luiza Kruse Villas Bôas nasceu em Recife, Pernambuco, no Brasil. Aos cinco anos veio morar no Rio de Janeiro com sua família, partindo para Washington D.C com a família por quatro anos durante sua adolescência. Lá terminou o ensino médio e cursou um ano na Georgetown University. Fernanda tem uma rica vida acadêmica. Professora de Inglês, Português e Literaturas, pela UFRJ, Mestre em Literatura King´s College, University of London. É Mestre em Comunicação pela UFRJ e Psicóloga pela Faculdade de Psicologia na Universidade Santa Úrsula, com especialidade. Em Carl Gustav Jung em 1998. É escritora e psicóloga junguiana e com esta escolha tornou-se uma amante profunda da arte literária e da alma, psique humana. Fernanda Villas Bôas tem vários livros publicados, tais como: No Limiar da Liberdade; Luz Própria; Análise Poética do Discurso de Orfeu; Agora eu era o Herói – Estudo dos Arquétipos junguianos no discurso simbólico de Chico Buarque e A Fração Inatingivel; é um fantasma de sua própria pessoa, buscando sempre suprir o desejo de ser presente diante do sofrimento humano e às almas que a procuram. A literatura e a psicologia analítica, caminham juntas. Preenchendo os espaços abertos da ficção, Fernanda faz o caminho da mente universal e daí reconstrói o caminho de volta, servindo e desenvolvendo à sociedade o reflexo de suas próprias projeções.



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