Para uma vida com mais ritos de passagem diários

Acredito que é bom e bonito que os acontecimentos e as transformações na vida passem por algum tipo de rito de passagem. Celebrar uma mudança de fase, criar um ritual que marca um acontecimento, fazendo-o não passar batido e que nossos corpos e mentes percebam um novo sentido surgindo na vida.

Penso na importância dos ritos não apenas nos ‘grandes’ acontecimentos: nascimentos e mortes físicas, casamentos, formaturas… Penso nos ritos não como formas necessariamente religiosas e muito menos como eventos fabulosos e gigantescos que muitas vezes acabam se tornando mais importantes do que o próprio momento e as pessoas envolvidas.

Gosto de pensar nos ritos num nível cotidiano: celebrar e valorizar pequenos momentos que são significativos nos nossos dias. Simbolizar e marcar as pequenas mortes no nosso caminho, olhar com atenção para as mudanças e transformações, tanto as que acontecem apenas dentro da gente, quanto as que mudam as paisagens externas.

Porque acontece regularmente em nossas vidas de emoções nascerem e morrerem, de nos sentirmos renovados e destruídos, de florescermos e adoecermos.

Muitas vezes, datas aleatórias manifestam mais a nossa importância no mundo do que o dia do nosso aniversário. Amadurecemos muito antes dos 15 anos ou bem depois dos 30. O frio da barriga do primeiro dia no jardim da infância continua ao longo da vida todas as vezes que entramos num ambiente novo.

Então, por que não celebrar, mesmo que sozinho, um amor novo que nasceu no peito? Um dia de ‘aniversário’ que ninguém nos deu parabéns, mas a gente se sente renascendo? Um casamento de corações que mutuamente se entregaram?

Por que não passar um dia sorrindo, escrever umas palavras para expressar a beleza disso, enfeitar a casa de flores, comprar um novo vestido?

Criar o nosso próprio rito para expressar o nosso momento.

E por que não também simbolizar o fim de um namoro, ou a morte de um sentimento, o esfacelamento de uma história, o rompimento de uma ilusão, a frustração de algo não feito?

É bom também viver o luto, tirar do coma e transformar em cinzas ideias e afeições, simbolizar algo que morreu para que possamos fazer o nosso rito de passagem. Rasgar uma foto, chorar no travesseiro, fazer uma oferenda, mudar os roteiros do pensamento e as músicas da playliste seguir em frente, deixando novos ventos varrer a alma.

Que a gente saiba nascer com alegria e reconhecer e aceitar as mortes e que os ritos sejam uma forma de simbolizar e valorizar a consistência da nossa história e a importância da nossa vida.

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Clara Baccarin
Clara Baccarin é poeta, escritora e tradutora. Autora do romance Castelos Tropicais (Ed. Chiado, 2015), e do livro de poemas Instruções para Lavar a Alma (Ed. Sempiterno, 2016). É uma contadora de histórias que adora poetizar o mundo. Escreve por amor e rebeldia: desconstruindo verdades, brincando com as palavras e ressignificando a vida.



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