Para o jogo da vida: raça

Por Tatiana Nicz

Há muito tempo quando frequentava os jogos do Atlético Paranaense, ainda na Baixadinha, lembro que sempre no começo do jogo ou quando o jogo não ia bem, a torcida gritava para os jogadores “RAÇA”. Eu que sempre enxerguei a vida com poesia achava aquilo muito emocionante. Era o momento que mais gostava no jogo. E o grito alto e compassado da torcida até hoje ecoa dentro de mim: RAÇA.

Às vezes me pego olhando para pessoas em momentos de dificuldade ou quando estão indecisas ou quando querem desistir e tenho vontade de gritar como gritava nos jogos: RAÇA! Às vezes me olho no espelho e penso: RAÇA. O mundo anda meio mal e o que sinto é que a vida nos pede raça. Porque não tem quem passe ileso por ela sem dificuldades, problemas, problemas de gente grande, daqueles que fazem você duvidar da sua capacidade e achar que não vai dar conta. Muitas vezes eu acho que não darei conta. E o que aprendi é que para dar conta é preciso saber que não estamos sozinhos, e é preciso agir, por nós e pelos outros, precisamos “arregaçar as mangas” e fazer.

E aprendi também que para ter raça é preciso ter certezas. Certeza de que você arregaçou as mangas e fez o que podia, certeza das tuas escolhas, certeza que você estava presente no momento por inteiro e que deu o seu melhor. Mesmo que “seu melhor” às vezes pareça muito pouco.

A indecisão surge quando não estamos presentes por inteiro em nossas escolhas, quando elas são tomadas por outros ou pela vida, quando somos reativos. Quem é indeciso vive sempre pela metade, dividido entre o que foi e o que poderia ter sido. Ter raça é fazer escolhas e estar disposto a assumir as consequências. Porque a felicidade não espera pelos indecisos, ela só chega para quem tem raça. E para ser feliz é preciso coragem. Ter raça nos exige completude. Para sermos inteiros precisamos olhar para a dor do outro com mais cuidado, porque nós não somos completos sem o outro.

Por isso que quando penso em ter raça, penso também em empatia. A empatia é saber que somos compreendidos, que não estamos sós. Empatia é alguém gritando para nós: raça. Empatia é mais que amor, é validar a dor do outro e estar ali presente por inteiro para ele e entender que nem sempre a vida tem a ver com os nossos dramas.

Minha melhor amiga, assim como todos nós, já passou por altos e baixos. E quando ela estava em um dos seus baixos, eu me afastei. Me afastei porque era difícil vê-la sofrendo; porque eu não sabia o que fazer para ajudá-la e porque me sentia inútil diante de sua dor. Então como não sabia o que fazer, me afastei. A verdade é que nós não sabemos lidar com a dor do outro, mas se queremos aprender sobre empatia, precisamos aprender sobre o outro e sobre suas dores.

Um dia em uma discussão em que falei sobre essa minha dificuldade para ela, ela me disse: “mas eu não esperava que você fosse curar minha dor, aliás eu não te pedi isso. Também não queria que você fizesse nada, só queria que você ficasse ao meu lado.” Empatia é isso, aprender a dar autonomia e ter fé que o outro pode dar conta do que vier, mas entender que ele não precisa estar sozinho para isso.

E é fundamental validar a dor do outro para sentir empatia. O mundo hoje pede ação e a ação só vem quando entendemos que fazemos parte de algo maior e somos empáticos perante as injustiças e dores que nos saltam aos olhos. O mundo pede empatia e ao mesmo tempo raça. Raça gera ação. E precisamos agir, precisamos nos envolver. “Se envolver” é algo que tem pouco a ver com palavras e virtualidades e muito a ver com presença e ação.

Ontem voltando do interior vi um acidente na estrada, o carro bateu atrás do caminhão, eu passei e foram poucos segundos em que pensei “não vou parar, alguém vai ajudar” e dai lembrei que quem sabe naquele momento esse “alguém” poderia ser eu. Desci do carro e vi duas crianças sentadas na beira do acostamento chorando desesperadas, o pai deitado ao lado sangrando; a mãe desacordada presa nas ferragens no banco do passageiro e a irmã mais velha gritando atrás, presa no carro.

Enquanto os poucos que estavam lá estavam indecisos do que fazer, orientei um dos rapazes para que não tirassem a menina do carro, não a deixassem sozinha e tentassem mantê-la acordada, liguei para polícia e pedi socorro. Depois me sentei com as crianças ao lado do pai para esperar ajuda. O que aconteceu nas horas seguintes em que estive lá presente e por inteira foi muito forte. E por um breve momento me lembrei da torcida do meu time que é lindamente chamado de Furacão.

Hoje, depois de ver meu pai lutando contra uma doença que lhe custou a vida, depois de assisti-lo dar seu último suspiro, ao ver a agonia de minha mãe perdendo sua consciência, ao olhar para os olhos cheios d´água daquelas duas crianças que haviam acabado de perder a mãe, entendo porque me afastei da minha amiga quando ela precisou de mim e entendo porque não nos envolvemos. A dor do mundo nos paralisa. É realmente muito difícil sentar e ficar ao lado do outro e saber que às vezes isso é a única coisa que podemos fazer, porque para mim apenas estar ao lado parecia ser tão pouco, mas hoje entendo que essa doação de estar ao lado naquele momento por inteiro para o outro, na verdade é algo muito grandioso.

Em momentos difíceis como esse é que me lembro da torcida gritando: raça. Quando as dores do mundo forem tão grandiosas que nos fazem sentir impotentes: raça. Quando a dor do outro lhe sangrar o coração: raça. Quando você sentir que não dará conta: raça. Para os indecisos: raça. Quando passa o furacão: raça. Para que todo o mal e toda dor não nos paralisem: raça. Para o jogo da vida: RAÇA.

Enquanto conversava com o garoto, perguntei do que ele mais gostava, ele me disse: futebol. Então contei para ele sobre os gritos da torcida pedindo “raça” e como aquela era a parte do jogo que eu mais gostava. E pedi para ele ter raça, raça maior que a dos jogadores em uma final de campeonato, muita raça. E depois que eles se foram, segui viagem pensando muito na vida. Que a vida é mesmo um jogo e assim como o futebol é um jogo jogado em equipe; um jogo que nos pede muita raça e o bom de ter raça é que ela não é solitária, a raça vem da certeza; e vem principalmente da plena certeza de que juntos sempre iremos mais longe.

Adendo:

Aprendi muito sobre empatia e comecei a olhar com mais atenção para esse sentimento quando assisti ao vídeo abaixo.

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Tatiana Nicz
Libriana com ascendente em Touro. Católica com ascendente em Buda. Amo a natureza e as viagens. Eterna curiosa. Educadora e contadora de histórias. Divagadora de todas as horas. Escrevo nas horas vagas para aliviar cargas, compartilhar experiências e dormir bem. "Quem elegeu a busca não pode recusar a travessia." Guimarães Rosa



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