Pais de verdade

Ser pai é estabelecer um vínculo eterno com alguém que traz à vida um novo significado. É ver essa mesma vida dividida em duas: antes e depois da paternidade. É reconhecer-se e amar-se no outro. É ver-se crescendo outra vez. É compreender a finitude de todas as coisas, exceto do sentimento que conecta pais e filhos. Tudo mesmo pode acabar, mas não um amor tão pleno que dispensa condições para existir.

Ser pai é rever conceitos o tempo todo, buscando sempre o melhor. E esse melhor nem sempre é o que dizem os especialistas. A convivência ensina. Cada pai se torna especialista de si mesmo e de seu filho. Eles aprendem, um com o outro, o que funciona bem para a relação. E vão, vida afora, adaptando-se, conhecendo-se, conquistando-se e amando cada parte desse processo.

Ser pai é renovar a fé na vida e nas pessoas. É contribuir com o mundo. É deixar impresso no outro tudo aquilo em que acredita. É tatuar-se em alguém. É viver desejando que esse alguém, simplesmente, seja feliz. É fazer de tudo para merecer a admiração. É oferecer, com amor, o limite necessário. É apontar caminhos e consequências (e deixar as escolhas fluírem). É estar de olhos, coração e braços sempre abertos. É mostrar ao filho (com atitudes) como tratar uma mulher. É mostrar à filha (também com atitudes) o que esperar de um homem. É ser o que se espera que eles sejam.

Ser pai é ter a chance de entrar em uma estranha máquina do tempo em que o homem conserva o corpo de adulto, mas recebe de volta sua alma de criança (se é que ela algum dia deixou de existir). E aí, é possível ver verdadeiros homenzarrões girando na ponta dos pés com os braços arqueados (tal qual bailarina), brincando de comer comidinhas imaginárias (deliciosas, por sinal), puxando carrinhos amarrados por uma corda e emitindo sons estranhos (como se ninguém estivesse vendo e ouvindo), chutando -e recebendo de volta- uma bola de borracha (fingindo total incapacidade de defesa para facilitar o gol e o sorriso do adversário), brincando de esconde-esconde (fazendo de conta que não vê aquele ser com o corpo exposto e o rostinho coberto pelas mãos) e, realmente, divertindo-se.

Pensando bem, ser pai é a melhor oportunidade para um homem. É quando ele, finalmente, pode ser um crianção sem que mulher alguma reclame. Ele pode fazer coisas ditas ridículas sem receber qualquer espécie de julgamento. O ridículo fica até bonito quando vem de um pai. O ridículo fica até lindo quando dedicado a um filho. Ser pai é libertador! É transformador! É encantador! Ser pai é mágico!

Ser pai é transbordar de orgulho com cada detalhe novo que surge naquela pessoa que só faz evoluir. Todos os filhos evoluem, é natural. A qualidade desta evolução é que depende muito de um bom pai. Crescer e amadurecer faz parte de qualquer ser humano. Mas, crescer e amadurecer sendo amado e apoiado pelo homem da sua vida faz toda a diferença. Todos crescem, mas só alguns ficam enormes de afeto.

Ser pai de menino é convidá-lo para o mundo masculino. É ter segredos só de homens para manter a salvo da mamãe ou de qualquer outra pessoa do sexo feminino. É ensiná-lo a fazer xixi em pé (sem passar papel higiênico na ponta). É dar a ele um time do coração e ensiná-lo a comemorar cada gol com berros e, quando a ocasião pede, com lágrimas. É ajudá-lo a andar de bicicleta sem rodinha. É orientá-lo a se reerguer e recomeçar após cada queda. É explicar cada dúvida sobre como tudo funciona. É ter a chance de deixar para o mundo um homem na versão melhorada de si mesmo. É brincar de salvar o mundo. É ter seu mundo salvo.

Ser pai de menina é ser convidado a conhecer, de uma vez por todas, o universo feminino. É se deixar maquiar (e fotografar), sem o menor receio. É ter os cabelos invadidos por dedinhos ligeiros com objetos estranhos. É tomar chá e conversar com pessoas invisíveis aos olhos dos não-pais. É ninar bonecas de pano. É ver sua boneca de verdade dançar ballet e se emocionar até com os movimentos que não foram ensaiados. É ser o primeiro grande amor de sua filha. É continuar sendo o homem da vida dela. É servir de referência para suas escolhas. A filha faz qualquer homem se odiar por algum dia já ter feito uma mulher sofrer. A filha faz qualquer homem desejar ser o melhor que ele consegue. Ser pai de menina é buscar dentro de si o que há de mais belo e acolhedor para oferecer .

Pais são homens reproduzindo o que aprenderam, dando o que receberam. São homens que têm a responsabilidade de formar não só futuros adultos, mas também, futuros pais. São eternos meninos que, às vezes, temem a falha. Mas, todo aquele que erra buscando o acerto há de ser perdoado, afinal, está presente. As piores falhas encontram-se na ausência. Não ser, não estar, não permanecer. Isso dói de verdade. Quer ser um bom pai? Seja! Esteja! Permaneça! Isso nunca falha…

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Grasiela Bernardes
Educadora com formação em Letras Português/Inglês e foquei minha carreira na alfabetização durante quinze anos. Porém, um câncer de boca (localizado na língua) me afastou da sala-de-aula e me fez descobrir o dom que adormecia em mim: a escrita. A doença me deu tempo e uma história para contar. Resolvi registrar no papel como o câncer me curou, transformando-me em alguém melhor. Assim nasceu o livro Impactos do Câncer, que foi lançado no final de 2015. Desde então, sigo escrevendo sobre o que meu coração manda, porque sinto que é essa a contribuição que sei deixar para o mundo.

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